Parece uma evidência, que os números confirmam. “Aumentar as tarifas dos transportes públicos não é uma solução” para o problema da sua sustentabilidade, pelo que o  “modelo de financiamento deve ser revisto”, defendeu ontem Vasco Colaço, presidente da DECO, no debate sobre transportes na cidade, promovido pela Assembleia Municipal de Lisboa. O dirigente da associação de defesa do consumidor falava na sessão subordinada ao tema “Os transportes que temos e como funcionam”, a primeira das quatro que a assembleia vai promover até finais de Junho – altura em que o Governo pretende lançar o processo de concessão a privados da Carris e Metropolitano de Lisboa.

Os números são esmagadores. “Em dois anos apenas, 2011 e 2012, a Carris e o Metro perderam 60 milhões de passageiros”, sublinhou Vasco Colaço, que citou dados constantes no relatório e contas daquelas transportadoras. Nesse mesmo período, a oferta, fruto dos cortes e da supressões de carreiras, diminuiu entre 15 a 20 por cento, ao passo que as receitas das transportadoras aumentaram: 41 por cento no caso do Metro, 30 por cento no caso da Carris. “Ou seja, cobram cada vez mais pelos títulos de transportes, quando oferecem cada vez menos”, disse Vasco Colaço, defendendo que “a mobilidade é um direito fundamental tão importante como a educação ou a saúde”.

Para garantir este direito e a sustentabilidade das transportadoras públicas, é preciso rever o modelo de financiamento do sistema, o que, em seu entender, pode ser alcançado criando um “fundo de transportes”, que “conte com receitas do sector imobiliário, como as provenientes do IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis), e com verbas do estacionamento e das portagens”.

Sobre “os transportes que temos”, foi negro o quadro traçado pela maioria dos convidados do debate desta terça-feira, entre os quais se incluíram sindicalistas, como Sérgio Monte, presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes (SITRA), José Manuel Oliveira, coordenador da Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (FECTRANS), Germano Martins, presidente da Autoridade Metropolitana de Transportes, e ainda Carlos Carvalho, engenheiro, especialista em transportes e membro do conselho geral da EMEL.

“O direito à mobilidade está a descer. A Carris, em resultado da alteração de carreiras e serviços, já tem uma figura que é o transbordo, o que é extremamente negativo. O Metro tem agora que reduzir velocidade, o que não faz sentido algum”, afirmou Carlos Carvalho, que citou também os “números esmagadores” de quebra de passageiros – que nos últimos quatro anos já ascendem a 98 milhões – e criticou a forma como o Governo tem tratado os transportes públicos, tendo como único objectivo reduzir custos.

“Isso comporta riscos”, disse este especialista, que alertou para a necessidade de se ter “a segurança na circulação, sempre em cima da mesa”. “Quando se cortam salários, quando se reduzem as verbas para a manutenção, quando se trabalha apenas para reduzir os custos, estamos a correr riscos. Esse é um caminho que não deve ser seguido, porque as consequências podem ser imprevisíveis”, sustentou.

Para Carlos Carvalho, a passagem da Carris e do Metropolitano para as mãos da câmara – algo que António Costa tem defendido e está a negociar com o Governo – não resolve o problema dos transportes públicos. “A municipalização é um sofisma. É a antecâmara da privatização e é um erro. Não resolve o problema e a câmara fica com o menino nos braços”, afirmou.

A falta de autoridade da Autoridade Metropolitana de Transportes de Lisboa (AMTL) foi também alvo das críticas de Carlos Carvalho. “O problema da mobilidade só se resolve com uma aposta numa Autoridade Metropolitana que tenha um papel determinante, que não seja apenas uma executora daquilo que o Governo quer, e que intervenha no planeamento, para assegurar o direito à mobilidade”, disse Carlos Carvalho, que, na mesa, tinha a seu lado Germano Martins, o presidente da AMTL, que se viu na necessidade de ali fazer prova de vida.

“A selecção do concessionário é um processo concursal dirigido por uma autoridade regional. Ela existe. É a Autoridade Metropolitana de Transportes, a quem cabe a coordenação”, disse Germano Martins, a propósito do processo de privatização.

Mas para este técnico, não há escapatória ao aumento de tarifas, caso se queira melhorar a qualidade dos transportes. “Se se quiser adequar a qualidade de serviços da Carris e do Metro, isso não vai ser feito com redução de custos”, disse, sublinhando que aquelas duas empresas “não são de Lisboa, são da região”.

A favor da municipalização manifestou-se Sérgio Monte, do SITRA, para quem isso trará “vantagens para os utentes, tendo em conta que a gestão estará muito mais próxima” das pessoas.

Já a deputada municipal Margarida Saavedra, do PSD, deixou uma questão a António Costa, que não esteve presente na sessão. “Até ao momento, ainda não foi possível perceber quais os custos desta operação para a câmara e ainda não ouvimos o senhor presidente da câmara dizer que não irá aumentar impostos” para garantir a sustentabilidade da Carris e do Metro, caso haja municipalização destas empresas. “Poderá o senhor presidente garantir que não haverá aumentos de impostos? Sem estes dados, o debate sai prejudicado”, disse a deputada social-democrata.

Rui Paulo Figueiredo, do PS, manifestou a esperança de que “as conversas entre a câmara e o governo cheguem a bom porto”. Sobreda Antunes, do Partido os Verdes (PEV), defendeu que as transportadoras se devem manter na esfera pública e lembrou que “a Carris e o Metro não servem apenas a capital, servem também Loures, Amadora e Odivelas”, municípios que também deveriam ser ouvidos neste processo.

Ana Drago, do Bloco de Esquerda, considerou “obsceno” o modelo de privatização que o governo delineou, em que “as dívidas ficam do lado do Estado, e o risco operacional também a cargo do Estado. Isso não aceitaremos”, disse.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com