O processo de reabilitação do Cais do Sodré, que começou há três anos, transformou a Rua Nova do Carvalho – agora “Rua Cor-de-Rosa” – num dos novos epicentros de diversão nocturna da cidade. Contudo, exactamente num local em que proliferam bares e há mais barulho e consumo de álcool, surgem agora espaços como o Atelier 29, que, embora coabite com o caos, apela a noites mais tranquilas e ligadas à partilha cultural.

 

Texto: Rita da Nova

 

Quem se aventura a entrar no n.º 29 da Travessa do Corpo Santo e sobe o primeiro lance de escadas é porque sabe ao que vai. Ninguém dá com o Atelier 29 por acaso, até porque apenas no rés-do-chão do prédio, ocupado pelo bar Viking, parece existir vida. São precisas duas coisas para que a grande porta vermelha da associação se abra: tocar à campainha e, de preferência, apresentar um cartão de sócio.

 

Da janela deste primeiro andar, o caos de sábado à noite que invade o Cais do Sodré é quase como uma realidade paralela e muito distante. Lá em baixo, das portas escancaradas dos bares, libertam-se as mais diferentes melodias, fundidas numa amálgama que já não passa de ruído indistinto. Grupos de pessoas, na sua maioria jovens, fazem fila para entrar nos estabelecimentos. Só saem de copo na mão e fazem o resto cá fora: conversam alto, riem, cantam, convivem.

 

Este lado da Rua Nova do Carvalho – que já só responde pelo nome de “Rua Cor-de-Rosa” – serve de ponto de encontro para o início de mais uma noite de diversão, já que há menos gente e é mais fácil reconhecer caras. Em direcção à Praça do Município, esta zona é de facto mais calma, mas consegue ser também mais escura e insalubre.

 

“O Cais do Sodré tem esta coisa muito engraçada… o simples facto de terem pintado uma rua de cor-de-rosa trouxe logo um lado mais cosmopolita à zona”, aponta Frederico Duarte Ferreira, de 27 anos, gerente do Atelier 29. Criado em Dezembro do ano passado, tem o propósito de ser um espaço de dinamização cultural e de apoio a novos artistas. Frederico garante que a associação está perfeitamente integrada na confusão do Cais. “Aliás, partilhamos o edifício com um bordel e já aconteceu virmos muito carregados, e as senhoras, muito simpáticas, segurarem-nos a porta lá de baixo para entrarmos. Aqui há escalas sociais e ritmos de vida quase opostos, mas tudo convive e bem.”

 

Todo o espaço foi composto por objectos restaurados na oficina de João Bernardo Próspero, de 26 anos, um dos donos do Atelier. As mesas à volta das quais os associados se reúnem são bobines de cabos eléctricos às quais o “quase-arquitecto” (tanto João Bernardo como Frederico estão no último ano de Arquitectura) deu uma nova função. A porta, por exemplo, é vermelha porque “era a tinta que havia”, prova de que o lugar foi decorado com os materiais que estavam à mão. Mesmo os quadros que revestem as paredes foram pintados por João Bernardo, que queria ter um lugar onde os expor e, por isso, teve a ideia de “criar um espaço assim”.

 

“Vivemos os dois em Bruxelas e vi lá um conceito semelhante, mas numa livraria. Voltei com a ideia de criar um espaço cultural parecido em Lisboa”, conta. O lisboeta queria um local onde reunir um público ligado às artes, interessado e mais ou menos fiel, daí a ideia de estabelecer o Atelier 29 como um clube para sócios. “O objectivo é irmos expondo coisas de várias pessoas, para irmos mudando o espaço e continuarmos a cativar os sócios.”

 

A associação custa 10€ por ano – cerca de 83 cêntimos mensais – e dá acesso à programação recebida através de uma newsletter, à entrada livre nos concertos e à possibilidade de reservar do espaço para as mais diversas actividades. No fundo, como resume Frederico, “os próprios associados vão dinamizando o espaço e a casa alimenta-se de grupos e de estilos muito diferentes. Ainda esta tarde tivemos aí um workshop de bodypump, com gente aos saltos. Isto é deles!”

 

Aqui acontece um pouco de tudo: jantares de aniversário, reuniões de empresas que não possuem escritório próprio, aulas de piano e de ilustração, tertúlias sobre os mais diversos temas. Em Julho, por exemplo, a agenda estará focada em dar a conhecer novas bandas portuguesas e haverá também aulas para quem quer seguir a moda e aprender a fazer gin tónico. “Estamos sempre à procura de coisas novas e os associados sabem disso”, afirma Frederico, acrescentando que o Atelier 29 só funciona porque existe uma mistura de interesses, de pessoas, de ideias e de criatividade.

 

Uma fusão que sai também das colunas de som: o jazz dá lugar ao rock, que por sua vez se cala e dá voz ao hip-hop. A associação vai passando estilos musicais bastante ecléticos, mas todos eles sintonizados no tom de volume adequado para permitir que os grupos conversem sem ser preciso elevar a voz. “Estivemos antes na Pensão Amor, ali na Rua do Alecrim, mas estava impossível. Gostamos de vir aqui porque é mais exclusivo, dá para estar a beber um copo e a conversar com mais calma”, conta Nuno Sardinha, de 38 anos, frequentador mais ou menos assíduo.

 

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Sentados com algumas mesas de distância, um grupo de jovens na casa dos 20 tem a mesma opinião. “Venho aqui porque há boa música e bons gins. O ambiente é excelente e não estamos na confusão lá de baixo”, revela Diogo Barradas, que tem cartão de sócio e trouxe as amigas para conhecer o espaço.

 

A noite começa a compor-se por volta das 23h30, altura em que a campainha passa a não ter descanso. À medida que o espaço enche, João Bernardo ressalva: “isto aqui ainda é só aquilo a que chamamos pessoal da casa, são os amigos dos amigos, dos amigos, dos amigos. As pessoas gostam de vir cá e ver caras conhecidas.” Não é de estranhar, por isso, que os associados se levantem e sejam eles mesmos a servir-se no bar, onde até o vinho é produção da família de João Bernardo.

 

“Queremos que se sintam em casa e o bar é um bocado como se fosse a cozinha”, diz, enquanto passa uma imperial a Frederico. “Os jogos do mundial deram-nos o impulso para deixarmos de funcionar só à noite e passar a dinamizar o espaço também ao final da tarde. Vamos ter uns petiscos, umas tábuas de queijos e enchidos, uns croque monsieur…”, revela o gerente.

 

Dado o preço irrisório que cobram pela associação, são as receitas do bar que permitem sustentar o seu funcionamento. Ambos afirmam prontamente que o Atelier 29 não é um negócio, mas sim “um espaço onde as pessoas podem vir e conviver” e que vai mudando consoante o interesse dos associados. João Bernardo explica que querem ir com calma: “vamos tendo o nosso próprio ritmo, sem termos o objectivo de atrair muita gente ou de fazer lucro com isto.”

 

Embora seja um clube restrito com cerca de 400 sócios, ninguém fica de fora. Às sextas e sábados têm até segurança à porta, mas por uma questão de protecção e não de exclusividade. “Estamos abertos para toda a gente, até porque a maioria sai daqui de cartão na mão. Gostamos que experimentem o espaço e o ambiente antes de pagarem”, salvaguarda João Bernardo. A porta vermelha do Atelier 29 abre para todos de quinta a sábado, “eventualmente também ao domingo, não há regras”, mas durante o resto da semana só os sócios que reservem o espaço é que podem usufruir dele.

https://pt-br.facebook.com/a.atelier29

 

* Texto corrigido às 12h00 de 2 de Julho. Corrige “Rua Nova do Almada” por “Rua Nova do Carvalho”.

 

  • Rita da Nova
    Responder

    A minha estreia no Corvo: : Atelier 29: o primeiro andar do Cais do Sodré a que a confusão não sobe – http://t.co/fKk7X5nm8m

  • JoãoPedroPincha
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Atelier 29: o primeiro andar do Cais do Sodré a que a confusão não sobe – http://t.co/DtFVkEYjij

  • O Corvo
    Responder

    Trata-se da Rua Nova do Carvalho, como é óbvio. Pelo lapso, já corrigido, pedimos desculpa aos nossos leitores.

  • Rita da Nova
    Responder

    Vá, se ainda não leram, tomem lá que é estreia: http://t.co/fKk7X5nm8m

  • Pedro Paiva Sousa
    Responder

    Atelier a visitar … RT @RitaDaNova: “Vá, se ainda não leram, tomem lá que é estreia: http://t.co/F3ZKT5rdSC …”

  • João Lisboeta
    Responder

    Rua Nova do Carvalho…erro um pouco chocante.

  • Pedro Martins
    Responder

    Atelier 29: o primeiro andar do Cais do Sodré a que a confusão não sobe http://t.co/9X0nLTTMW3

  • Rui Barradas Pereira
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Atelier 29: o primeiro andar do Cais do Sodré a que a confusão não sobe – http://t.co/DtFVkEYjij

  • Reserva Recomendada
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Atelier 29: o primeiro andar do Cais do Sodré a que a confusão não sobe – http://t.co/DtFVkEYjij

  • Aqui mora gente
    Responder

    O que os residentes da zona envolvente do Cais Sodré gostariam era de “sentir-se bem” nas suas próprias casas o que deixou de ser possível com o caos que ali se instalou.Não existe qualquer envolvência da comunidade local nos “projectos criativos” que têm surgido, a maioria das vezes, espaços de venda de álcool e fonte de Ruído.A CML vai atribuindo horários até às 04h00 da manhã a todos, o que não é de certeza compatível com uma vivência do bairro pelas famílias.

  • Henrique C.
    Responder

    Erros crassos (pesquisa e escrita)

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