Depois da polémica, a tentativa de consenso. O final de tarde (19h) da próxima segunda-feira (25 de Maio) assistirá ao que se pretende venha a ser um singular momento de participação democrática na gestão do espaço público de Lisboa. Diferente do já habitual Orçamento Participativo, o processo de decisão colectiva sobre a melhor forma de ocupar os lugares de estacionamento actualmente existentes em frente à associação Recreativa dos Anjos (RDA 69) está, todavia, também aberto à participação de toda a comunidade. “Chamamos por ideias concretas, mas também por preocupações e vontades vagas. A partir da discussão que surgir, vamos organizar-nos para construirmos nós próprios o espaço que idealizarmos”, pedem em comunicado os responsáveis da Cicloficina dos Anjos, oficina comunitária de bicicletas associada à RDA 69.

 

Trata-se de decidir sobre o futuro de uma área de muito reduzida dimensão num arruamento situado nas traseiras do edifício do Banco de Portugal da Avenida Almirante Reis. Mas, na verdade, o simbolismo da ocasião será bem maior, consequência de ter nascido de uma divergência ocorrida, há duas semanas, entre a Junta de Freguesia de Arroios (JFA) e a RDA 69 sobre a forma como esta tem estado a utilizar o referido espaço e o passeio em frente à sua porta. Nessa altura, os responsáveis da junta terão dito aos elementos da associação que eles não poderiam mais ocupar o passeio com o parqueamento de bicicletas, mesas e cadeiras – como fazem há muito tempo -, teriam ainda de pôr cobro à situação de desarrumação persistente e realizar a poda de uma árvore e alguns arbustos. Uma alegada intimação da autarquia levou à convocação de uma mobilização contra uma suposta acção coerciva, que, afinal, não veio a acontecer.

 

Uma intensa troca de acusações veio então a público. Mas a presidente da JFA, Margarida Martins, garantiu naquele momento ao Corvo que estava disponível para dialogar com os membros da associação e assim resolver a situação. O que veio a suceder na semana passada, conduzindo à iniciativa popular agora agendada. “Deste conflito, surgiu uma janela de oportunidade: os lugares de estacionamento na vizinhança do RDA foram disponibilizados para construirmos neles o que entendermos”, explica o colectivo de activistas, depois de notar que a referida mobilização – que terá, segundo os próprios, levado uma centena de pessoas ao local, a 5 de maio – permitiu evitar o que qualificam de tentativa de “higienização sumária”.

 

Apesar dessa carta branca da junta, os elementos da Cicloficina/RDA69 dizem acreditar que “este troço do Regueirão dos Anjos não pertence apenas à associação, mas também aos vizinhos e às pessoas que usufruem dele”. “Não nos interessa tanto definirmos de antemão que mobiliário construir sem sabermos que necessidades vão servir; interessa-nos pois um processo de apropriação colectiva, que crie um terreno comum alternativo ao jogo entre os interesses privados e o espaço público”, explicam. “É neste processo colectivo de discussão, desenho e construção que acreditamos estar a ocasião para se fazer e pensar a cidade”, acrescentam.

 

Texto: Samuel Alemão

 

Comentários
  • Branca Brandao
    Responder

    Democracia participativa é uma ideia fantástico, penso já ter ouvido falar que é um conceito introduzido por António Costa, informem-me por favor daí se dizer que é um homem de consensos.

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com