Mais de duzentas máscaras de cera, moldadas sobre seres humanos, revelam, no Museu de Dermatologia em Lisboa, o tratamento e evolução da ciência nas doenças venéreas ou sexualmente transmissíveis, entre as quais a sífilis. Lisboa era, do princípio do século XIX até meados do século XX, uma cidade particularmente vulnerável à propagação destas patologias, que representavam uma ameaça à saúde pública. O espólio, preservado no museu instalado no Salão Nobre do Hospital dos Capuchos, é revelador do importante trabalho desenvolvido pelos médicos  Thomaz de Mello Breyner ou Luís de Sá Penella.

 
Célia Picão, administradora hospitalar e responsável pelo museu, muito visitado por estudantes, investigadores e escultores, recorda a O Corvo que não estamos assim tão longe desse período. Isto porque, no início do século XX, as salas de espetáculos eram obrigadas a passar documentários de prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, antes da sessão. Um dos documentários tinha o título bem objectivo “A Caminho Morgue” e passou a 25 de fevereiro de 1916, no Teatro Politeama.

 

Os locais de maior risco da cidade, seleccionados pelas meretrizes ou prostitutas, estavam na zona da Baixa, do Cais Sodré, do Bairro Alto, de Alfama e da Mouraria. O museu dispõe de ficheiros da época, onde se pode verificar que as mulheres doentes eram na sua maioria muito jovens.

 

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Este tipo de doença estigmatizava as pessoas e seus tratamentos eram violentos. Tornou-se necessário “humanizar os serviços” e aprofundar a investigação científica, a fim de encontrar curas menos dolorosas, através de recolha de mais informação para os respectivos estudos.

 

Thomaz de Mello Breyner (bisavô materno de Miguel Sousa Tavares), médico do Dom Carlos I e IV Conde de Mafra, foi um dos pioneiros no combate à marginalização social das pessoas afectadas por este tipo de doenças e um estudioso.

 

Apesar de fiel aos ideais monárquicos, o seu trabalho beneficiou da amizade que tinha com o maçon Francisco de Almeida Grandella, um opositor ao regime filiado no Partido Republicano e que financiou a compra de substâncias químicas tendo em vista encontrar novas profilaxias no tratamento de doenças como a sífilis.

 

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Todo este volume de informação documental e físico não poderia deixar de ser guardado para a construção do historial neste campo da medicina. É assim que, em 1955, é criado, por Luís de Sá Penella, o Museu de Dermatologia, no Hospital de Nossa Senhora do Desterro – instalado no antigo Convento do Desterro, fundado em 1591.

 

Curiosamente, com o incêndio do Hospital Real de Todos os Santos, em 1750, localizado sensivelmente onde hoje está a Praça da Figueira, foram os aposentos dos frades quem receberam os doentes.

 

“Este museu é um dos pilares de um vastíssimo e riquíssimo património cultural que gostaríamos que estivesse no Museu da Medicina, que ainda não existe”, explica Célia Pilão, responsável do museu, hoje instalado no Hospital dos Capuchos, na sequência do encerramento do Hospital do Desterro, em 2007.

 

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A coleção de 254 máscaras, associada a um fundo documental de publicações de sifiligrafia e dermatologia, onde se destacam sete livros de registo da consulta de “Moléstia Syphiliticas e Venéreas”, de Thomaz de Mello Breyner – avô materno da poetisa Sophia de Mello Breyner -, no Hospital do Desterro, entre 1902 e 1909, esteve em riscos de desaparecer, segundo Célia Pilão. A intervenção do médico João Fernandes Rodrigues, que promoveu a sua transferência para os Capuchos, acabou por salvar este valioso legado.

 

Artistas plásticos, nomeadamente escultores, mas também investigadores e alunos na fase de internato são os principais visitantes do museu, que está aberto ao público apenas às quartas-feiras (entre as 14h30 e as 18h). Contudo, podem ser feitas marcações pelo 963997916, fora deste dia da semana.

 

No museu, ressalta a coleção de máscaras onde estão documentadas a três dimensões patologias que, pelo avanço das terapêuticas, praticamente desapareceram. Para tratar as doenças como a sífilis, era utilizado o mercúrio e chegou-se mesmo a contaminar os pacientes com malária, pois julgava-se que as altas temperaturas no corpo humano eliminavam a doença.

 

No Museu de Dermatologia, é possível observar ainda a técnica de execução das máscaras em cera, cujos moldes foram obtidos a partir os doentes. Pelo menos 92 das máscaras foram executadas por Joaquim Barreiros, professor de Escola Superior de Belas-Artes e escultor na Fábrica de Porcelana da Vista Alegre. As cores, que pretendem reproduzir fielmente as manchas na pele provocadas pelas doenças, ficaram a cargo do pintor naturalista Albino Cunha.

 

A coleção do Museu de Dermatologia, embora seja a mais relevante existente no país, não é a única. Contam-se mais duas com valor histórico no ensino da medicina: no Museu Maximiano Lemos, no Porto, e na Faculdade de Medicina de Coimbra.

 

Texto e fotografias: Mário de Carvalho

  • Ana Leitão
    Responder

    Chamo a atenção para um dado importante: aadministradora hospitalar e responsável pelo museu chama-se Célia PILÃO e não Picão.

    • Samuel Alemão
      Responder

      Obrigado pelo reparo. Já foi emendado o erro. Cumprimentos

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