Já cheira a festas populares para os lados do Teatro do Bairro Alto. Na peça “Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa)”, levada à cena pelo Teatro do Cornucópia, há uma cidade que se quer eterna. Mas também, e sobretudo, jogos de linguagem misturando tempos e modos distintos, interpretados por actores de três gerações. Para “pôr em causa” a nossa maneira de pensar e os nossos hábitos linguísticos, afirma o encenador Luís Miguel Cintra.

 

Texto: Rui Lagartinho        Fotografias: Luís Santos

 

Na poesia com que a cenógrafa Cristina Reis costuma povoar a caixa preta que é o Teatro do Bairro Alto, há, desta vez, duas colunas estilizadas que nos lembram o famoso cais de Lisboa. Mas também há panos azuis, onde o mar se mistura com o céu, e que sobem e descem como que a marcar o ritmo do teatrinho da vida, bandeirinhas de festa que cruzam o cenário, um baloiço à espera de ser usado – e que saudades tínhamos de ver um baloiço em movimento neste palco -, luzes improvisadas de arraiais populares, uma igreja pequenita que lembra um celeiro onde se guardam almas e sete leves estruturas – cinco em forma de onda, dois pequenos cubos -, que vão balizando o mundo de actores que nela cabe.

 

Para estes autos, todos foram convocados: santos e diabos, fidalgos e populares, portugueses e lisboetas, forasteiros e estrangeiros. Fruta, pão e dois patos muito especiais. Há luta de classes, de gerações, de credos. Há alegorias, metáforas, alguns silêncios comprometedores, ruídos ensurdecedores, brejeirices, coisas sérias e outras nem tanto. Há um Portugal que se ilumina, que se fala olhos nos olhos, que se roça, se abraça, quinhentos anos depois de estes textos terem sido escritos e, acto contínuo, representados no Paço Real.

 

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Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa)”, o novo espectáculo do Teatro da Cornucópia, é uma proposta de dramaturgia de textos quinhentistas, onde se sucedem cenas de alguns autos de Gil Vicente, como o da Festa e o da Fama, seguida de outros de autores anónimos, exemplos do teatro pós-vicentino que o Centro de Estudos Teatrais da Faculdade de Letras de Lisboa estuda e disponibiliza para que regressem ao palco.

 

Explica Luís Miguel Cintra, o encenador: “No nosso espectáculo, há a mistura das mais diversas coisas e uma das dificuldades é que se chega a mudar de registo no interior de uma frase. Mas não pode haver escrita mais moderna. É o actor quem tem de ser portador de ainda mais uma linguagem, a do seu tempo, a do seu pensamento e também o dos espectadores na plateia. A colocação em “U” das bancadas mais o centra nesse jogo. Um espectáculo como este, de assuntos mil, e que põe lado a lado assuntos mais banais e outros mais profundos, sem uma estrutura fechada – ainda hoje, depois de tanto ensaio, tenho dificuldade em saber que cena vem a seguir… -, não hierarquiza nada, exige-nos uma atenção que se constrói a cada momento e não é organizada, como uma intriga tantas vezes o faz. Mas são personagens vivas.”

 

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São três horas de prazer lúdico, em primeiro lugar, para os dez actores, de três gerações distintas, que se juntam nestes autos. Para os mais novos é o primeiro contacto com um corpo estranho de textos, que, sejamos francos, no ano de 2015, só na Cornucópia podem ser desafiados a fazer, a experimentar. A adrenalina é deles, mas também do encenador que os estimula: “É exactamente nisto que mais razões encontrei para colar cenas destes autos e me divertir com os actores a fazê-las. Perceber como estão escritas, falar em verso antigo, quase cada cena com seu estilo próprio de escrita, personagens de muitas naturezas, cumplicidades a muitos níveis dos actores entre si e com o público. E pedir-lhes confiança numa escrita minha de colagem completamente desconhecida e inusual”.

 

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“É um exercício estilístico? É. Uma ginástica permanente no recurso a todo o tipo de códigos de leitura para a representação e para o texto. Um treino do pensamento contra a estupidificação do cérebro por falta de alimento. Brincadeira à parte, é mesmo a nossa maneira de pensar, os nossos hábitos linguísticos, tudo o que na vida recebemos sem criar que constantemente temos de pôr em causa”, acrescenta Luís Miguel Cintra.

 

Vendo o resultado, depressa se conclui que todos estão como peixe na água. De preferência sardinha. Viva. Linda. Da costa.

 

Em cena até 15 de Março

 

Mais informações em www.teatro-cornucopia.pt

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