Arraial da discórdia em vila da Graça

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto & Fotografia

VIDA NA CIDADE

São Vicente

12 Maio, 2014


As próximas festas de Santo António estão a ser alvo de uma disputa que ameaça a harmonia da bonita Vila Berta. Uma moradora queixa-se do modo como decorrem as celebrações, exige a repartição das receitas e ameaça com uma providência cautelar. Por isso, criou uma associação e dispõe-se a boicotar o arraial deste ano. Os organizadores dizem que ela está isolada. E contam com o apoio da junta.

Ainda o estaminé não está montado e já a vizinhança se encontra chateada. O que deveria ser um momento de celebração comunal e de genuína alegria sazonal converteu-se numa fonte de discórdia entre moradores da Vila Berta, no bairro da Graça. Pelo menos, entre parte deles. Tudo porque uma moradora, acompanhada por alguns vizinhos e amigos, se dispôs a questionar o objectivo e os moldes em que ali se processa a celebração do Santo António, estando disposta a recorrer a todos os meios legais ao seu alcance para impedir a realização do arraial popular, que ali foi revitalizado a partir de 2010. Nem que tenha de recorrer a uma providência cautelar, promete. Os outros, apoiados pela Junta de Freguesia de São Vicente, dizem que a festa se vai realizar, como previsto, entre 9 e 15 de Junho.

O caso ganha contornos assaz peculiares pelo facto da vizinha contestária, Maria José Soares (fotografia de abertura), 51 anos, ser a presidente da Associação de Moradores da Vila Berta. Mas, aparentemente, parece tê-los contra si. A entidade foi criada no final do ano passado, já após se terem manifestado as divergências relativas à realização das festas populares, e a sua representatividade e legitimidade são contestadas por muitos dos residentes naquele recanto da cidade. “Ficámos perplexos. Fez uma associação sem comunicar a ninguém. Ainda lhe disse para ele reflectir na posição que estava a assumir, se não, qualquer dia, estava a falar sozinha”, afirma Elisabete Ferreira, 66 anos, moradora desde sempre na Vila Berta. Ela, tal como todos muitos dos que desejam a celebração dos “santos”, diz que “ninguém se sente representado na associação”.

“Não posso, de maneira nenhuma, sentir-me privada de entrar na minha rua ou diminuída nos meus direitos”, afirma a mulher que tem assumido o papel de grão na engrenagem de uma convivência, até ver, harmoniosa no seio deste belo e peculiar núcleo habitacional. Os turistas que passeiam pelo arruamento com pouco mais de cem metros, ao longo do qual se estende o conjunto de casas construídas entre a última década do século XIX e 1903, tirando fotografias às bonitas fachadas de azulejo, ao som do chilrear dos pássaros num final de tarde quente, dificilmente adivinharão a tensão que por ali prepassa. Algo ainda mais inexplicável pelo facto de o arraial “sempre ter sido consensual”, diz Miguel Tojal, 26 anos, que tem assumido a organização da celebração. “Não entendemos a posição dela, sinceramente”, diz.

A dirigente da associação de moradores – que só ali vive desde o final do ano passado, apesar de ter comprado a sua casa, no número 5, há cerca de três anos – critica o que diz ser a arrogância e falta de respeito pela opinião dos restantes moradores, alegadamente demonstrada pelos organizadores do arraial de Santo António. “O arraial só começou há quatro anos e, se no princípio, achei fantástico, depois começou a dar-se uma mudança radical. Começaram a meter música em num volume insuportável, colocaram um assador mesmo à minha porta com toda a fumarada e, pior, decidiram começar a cobrar a entrada na rua, tendo nós, moradores, que passar a usar uma pulseira plástica para entrar”, conta Maria José Soares.

Outro dos aspectos criticados pela recém-moradora e dirigente associativa é o facto de, em seu entender, se estar a desbaratar a oportunidade de a comunidade beneficiar com a realização do arraial, que nos últimos dois anos atraiu milhares de forasteiros – tendo mesmo uma fotografia da festa na Vila Berta sido utilizada para destacar o Santo António como uma das escolhas de 2013 da CNN Travel. “Podiam utilizar o valor da receita que fazem nesses dias em benefício de todos. Esse dinheiro, resultante das vendas, podia reverter para a Vila Berta, onde há muito por onde fazer na recuperação do património comum e até porque há uma população envelhecida e sem meios financeiros para pagar os benefícios a fazer nas partes comuns dos edifícios”, alega Maria José, lamentando que o Santo António ali seja apenas um negócio, em relação ao qual, diz, nem todos foram ouvidos.

Maria José critica este espírito, agravado pelo que vê como uma massificação difícil de tolerar. O barulho e o lixo serão disso consequência, diz. E teme mesmo pela segurança das pessoas, dada a enorme concentração de gente no arruamento. No ano passado, queixa-se, houve mesmo um vidro partido no prédio, tal a confusão. “Este ano, se houver arraial, pode haver um acidente grave”, avisa. A confusão é suficiente para não cativar a curiosidade de Luís Malheiro, 75 anos e proprietário do andar imediatamente abaixo do seu, no rés-do-chão. Luís vive fora de Lisboa, mas dá razão a Maria José na necessidade de utilizar as receitas resultantes do arraial para bem comum. “Acho bem que ganhem dinheiro, mas devia haver uma verba para beneficiar a vila, que é de todos”. E haverá muito por onde escolher, garante, desde a reabilitação dos azulejos às escadas.

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A isto, Miguel Tojal responde com a convicção de que faz o que tem de ser feito. Ainda para mais, “com o apoio de quase todos” os vizinhos e as devidas autorizações da junta de freguesia e da câmara. No ano passado, a utilização das pulseiras, que seria adoptada apenas na noite de Santo António, acabou por ser abandonada pouco depois do início, por ser considerda pouco prática. Portanto, diz, essa foi uma questão logo resolvida. Miguel e os restantes membros da comissão organizadora do arraial lamentam a atitude de Maria José e dela fazem uma interpretação: “Ela gostava de ter uma banca e de ser ela mesma a organizar as festas. E queria obter algum benefício. Quando falámos, até sugeriu que se deveria pagar as obras de arranjo do telhado do prédio dela com as receitas”. Ou seja, quereria obter benefícios directos.

Nestas acusações, Miguel é secundado por Elisabete Ferreira e por Manuel Coelho (24 anos), outro dos organizadores e vizinhos da Vila Berta. Todos acham que, ao tentar criar entraves à realização do próximo arraial, Maria age mais por despeito do que por real interesse com o que se passa no bairro. “Quando ela quis organizar as festas dos santos, primeiro, e decidiu criar a associação, depois, nem cá morava”, afirma Manuel Coelho, que refuta ainda as críticas relativas ao alegado cenário de sujidade deixado pelos festejos. “Há equipas de limpeza”, garante.

Para tentar provar a tal intenção de Maria José Soares de controlar os destinos das festividades populares, Miguel e os restantes salientam o que se lê nos artigos da acta da escritura de constituição da associação de moradores – cuja sede é na casa de Maria. Datada de 12 de Setembro de 2013. No artigo 3º, pode ler-se que a associação “tem por objectivo a dinamização e realização de actividades culturais na Vila Berta, nomeadamente, a criação e dinamização de festas populares (…), promoção e criação de eventos (…), preservação do património imobiliário, histórico e cultural na Vila Berta”. Miguel Tojal salienta ainda o facto de os outros membros fundadores da associação não serem residentes na Vila Berta.

Miguel, tal como os restantes membros da família, tem na vila edificada pelo seu antepassado Joaquim Tojal o seu mais óbvio habitat. Ali nasceram, cresceram e viveram diversas gerações. Tempos houve em que os 89 fogos eram parte indivisível de uma mesma propriedade, o arruamento nem sequer era pavimentado e existiam cancelas nas extremidades do mesmo. Até que as coisas foram mudando, ao longo do século passado. Primeiro, fraquearam-se as portas e, mais tarde, alguns anos antes do fim do Estado Novo, deu-se a alteração mais radical: a conversão em propriedade horizontal, permitindo a cada uma das fracções ser transacionada e, por conseguinte, ter um proprietário distinto. A família Tojal deixava assim, e de forma gradual, de ser o único senhorio. Já no pós-25 de Abril, a vila foi devidamente pavimentada.

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Luís Malheiro e a mulher, Felisbela, gostariam de ver as receitas aplicadas na vila.

Apesar das mudanças, a famíla continua a manter um papel importante na vida social da Vila Berta, com vários dos seus membros a manterem ali residência. O número 1 da rua, ocupado por um edifício de tipologia claramente distinta das restantes, funciona também como sede de algumas das actividades empresariais da família. A ligação da família à história da vila é inegável. Miguel e os seus familiares ficam, por isso, bastante decepcionados com o actual cenário de conflito. “É triste que isto aconteça. Quando ela veio morar para aqui, já sabia que havia santos populares e que isto era um bairro popular”, nota Cristina Tojal, a mãe de Miguel.

Contactada pelo Corvo, a Junta de Freguesia de São Vicente diz que a festa se vai processar nos moldes em que tem ocorrido até aqui. “Trata-se de um conflito do foro privado entre dois grupos de pessoas, por isso, não temos nada a ver com isso, não nos vamos imiscuir”, diz Joffre Justino, secretário com o pelouro da Cultura na junta, sugerindo ainda os tribunais como local para dirimir o conflito. Mas o autarca não deixa de criticar a atitude de Maria José Santos. “Acho muito mau e pouco sério que assim se proceda, julgo que não é este o caminho. As coisas poderiam ser feitas em diálogo, sem conflito”.

E Joffre Justino vai mais longe: “Nós não vamos mudar de ideias em relação ao arraial organizado pela família Tojal, que tem sido um bom exemplo e deve ser mantido”. Para além disso, alega, os actuais organizadores comprometem-se a doar parte das receitas das festividades populares para o banco alimentar da junta de freguesia, através da iniciativa Arraial Solidário. “Se ela quiser ficar com esse peso na consciência de não retirar as verbas às pessoas que necessitam…”, afirma.

Os membros da actual comissão organizadora das festividades declinaram ser fotografados para esta reportagem.

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