O furto de azulejos tem diminuído desde que foi criado o projecto SOS-Azulejo, em 2007. Mas continua a acontecer. E suspeita-se que alguma dessa criminalidade responda a encomendas internacionais. O Corvo tentou, junto do Museu da Polícia Judiciária, tomar o pulso ao mercado ilícito de uma das principais marcas identitárias de Lisboa e do país. Mas foi também à Feira da Ladra perceber quanto se está a pedir por painéis de azulejos dos quais se desconhece a proveniência.

 

 

Texto: Isabel Braga

 

 

Os azulejos portugueses são um património único. Utilizados ininterruptamente desde o século XVI, estão presentes em todo o tipo de edifícios, desde palácios e conventos a casas particulares, hospitais e estações ferroviárias. Lisboa é a cidade com mais azulejos do mundo, atribuindo-se a sua luz especial à forma como estes a reflectem. No entanto, este património foi, durante muito tempo, pouco valorizado, alvo de roubos frequentes e sujeito a falta de conservação.

 

“Vivemos toda a vida rodeados de azulejos, por isso, não lhes damos o devido valor. Mas os ‘amigos do alheio’ sabem muito bem o que valem. Tem sido este desequilíbrio que facilita uma ausência de conservação e o furto”, afirma Leonor Sá, directora do Museu da Polícia Judiciária.

 

Foi esta entidade que, em 2007, criou o projeto SOS-Azulejo, responsável por uma mudança radical no que toca à conservação deste património. Uma das acções desenvolvidas foi a criação de um site – “www.sosazulejo.com” – onde são divulgadas imagens de azulejos furtados e que estão a ser procurados pela polícia. Deste modo, é dificultada a circulação desses azulejos nos circuitos comerciais, dissuadindo o seu furto.

 

“No ano 2000, começaram a aumentar bastante, em Lisboa e na zona do vale do Tejo, os furtos de azulejos comunicados à PJ. Outro pico em termos de furtos ocorreu por volta de 2006, sendo que esses azulejos circulavam com grande facilidade no meio comercial e até nos museus”, recorda Leonor Sá, salientando que, logo que o projecto SOS-Azulejo ter começado a funcionar, os furtos diminuíram.

 

“Entre 2007 e 2012, a redução foi de 80 por cento. Depois, registou-se outro ligeiro aumento e, hoje, temos uma redução de 67 por cento dos furtos relativamente a 2000. Colocámos um grão na engrenagem, estragámos o negócio a quem roubava. Agora, os comerciantes e especialistas estão atentos. E diminuindo a oferta, diminui a procura”, acrescenta a responsável.

 

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Mas os azulejos não se perdiam apenas em resultado de furtos. “Estávamos a assistir à constante demolição de prédios azulejados. Se as coisas continuassem assim, Lisboa deixaria de ser a cidade com mais azulejos do mundo”, afirma ainda Leonor Sá.

 

Para responder a essa situação, o projecto SOS-Azulejo conseguiu que fosse aprovada, em 2013, uma alteração ao Regulamento Municipal de Urbanização e Edificação de Lisboa (REMUEL) no sentido de interditar a demolição de fachadas azulejadas e a remoção desses azulejos sem autorização prévia da Câmara Municipal de Lisboa.

 

O projecto SOS-Azulejo desejaria que este regulamento se estendesse a todos os municípios do país. Mas o processo tem-se revelado “moroso e difícil” e nem tudo corre bem. “Há sempre um período extremamente vulnerável, em que os azulejos sistematicamente desaparecem. Isso acontece entre o momento em que um edifício é abandonado e o início das obras. São pedidos orçamentos para o restauro dos azulejos e para as obras, muita gente fica a saber da existência daquele património. Foi assim que, no ano passado, num edifício no Chiado, foram furtados dois painéis valiosíssimos de azulejos figurativos do século XVIII, cujo rasto se perdeu”, conta ao Corvo a directora do Museu da Polícia Judiciária. “Em 2011, uma capela na Quinta da Flamenga, que tinha azulejos belíssimos do século XVII, foi completamente esventrada por ladrões”, informa.

 

O Corvo soube ainda de um furto, por encomenda, de um painel de azulejos do século XVIII que fazia parte de um edifício que entrou em obras na zona da Avenida da Liberdade. Esses azulejos, actualmente, encontrar-se-ão algures no Alentejo.

 

Na Feira da Ladra, é possível encontrar à venda painéis de azulejos por 300, 600 e até mil euros, como era o caso de um conjunto de quatro azulejos figurativos, supostamente do século XVII, que o Corvo apreçou.

 

“Os azulejos à venda na Feira da Ladra até podem ter origem lícita. A polícia ou tem informação e pode actuar, ou não tem e não pode fazer nada. Com a entrada em vigor da nova legislação, será mais difícil dizer que são resultado de uma demolição”, afirma Leonor Sá.

 

Geralmente, quem vende azulejos, sejam antiquários chiques da zona do Chiado, seja na Feira da Ladra, diz que estes tiveram origem “numa demolição”, constatou o Corvo.

 

Muito do património azulejar está em risco, não há que negá-lo. Em Lisboa, os hospitais de São José, Santa Marta, Capuchos, vendidos à Parpública, possuem azulejos riquíssimos, assim como o Hospital Miguel Bombarda, que se encontra devoluto.

 

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“Uma vez que, no Miguel Bombarda, há azulejos muito valiosos, na capela e no balneário, pedimos à Parpública uma vigilância especial. E isso foi feito”, afirma Leonor Sá. A responsável admite, no entanto, estar preocupada com os azulejos existentes em edifícios abandonados pertencentes à REFER.

 

Quem rouba azulejos? A Judiciária tem identificados dois perfis: pequenos delinquentes, muitas vezes toxicodependentes, que roubam azulejos das fachadas dos prédios, ou indivíduos pertencentes à criminalidade organizada, que estudam bem os locais e sabem exactamente o valor do que estão a furtar. “Não é uma pessoa qualquer que retira azulejos sem os partir. Suspeitamos que existam até grandes encomendas internacionais”, afirma Leonor Sá.

 

Maria Antónia Pinto de Matos, directora do Museu Nacional do Azulejo, confirma que os furtos de azulejos são agora menos frequentes. “A PJ está mais atenta, as redes sociais põem a circular imagens dos azulejos furtados. Mas, quando se dá um grande roubo, é negativo dar muita publicidade ao assunto”, defende.

 

 

  • J. REIS
    Responder

    A ASE actua em tanto lado e porque não abordar os vendedores deste patrimonio nacional e pedir ” justificação ” destas peças a venda ?.

  • Fundo de Arquitectura Social
    Responder

    Lisboa ou Turisboa?

  • Rui Barradas Pereira
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Apesar de mais protegidos, azulejos de Lisboa são ainda um património em risco – http://t.co/fwSeH6lA7U

  • Rita Trindade
    Responder

    Somos antiquários há 3 gerações, e colaboradores da Policia Judiciária, no departamento de Obras de Arte, sempre que nos solicitam.
    Sempre negociamos azulejos e espero que assim continue. São exemplares magnificos das nossas artes decorativas apreciados no Mundo inteiro.
    Não percebo porque nesta peça não se alerta para acto que todas as peças do recheio de um antiquário carecerem de recibo- identificando o vendedor exaustivamente, e , são comunicadas essas compras à Judiciária, que tem 15 dias para se pronunciar sobre estas, antes de ser permitida a nós a sua venda.
    Tal como em qualquer outro negócio não se pode fazer generalizações, mas também na informação tem de haver cuidado em se mostrar todo o panorama, principalmente se tem a pretensão de ser “reportagem”. Rita Trindade, Antiguidades A. Trindade Lda.

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