Poderá ser o regresso ao sistema das lixeiras. Se o Governo não suspender o processo de privatização da Valorsul, a Câmara Municipal de Lisboa e as outras 18 autarquias que lhe enviam lixo para tratamento poderão denunciar o contrato. Tal poderá significar o regresso ao sistema de deposição em aterros sanitários das muitas toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) não recicláveis produzidos diariamente nesses concelhos. A ameaça velada foi feita, na tarde desta quarta-feira, nos paços do concelho, durante uma conferência de imprensa convocada por António Costa para reiterar as críticas à privatização da Empresa Geral de Fomento (EGF), detentora da maioria do capital da Valorsul – processo contra o qual foi convocada, pelos trabalhadores da empresa, a greve em vigor desde a meia-noite de segunda-feira e que deverá terminar amanhã. Costa manifestou o seu apoio aos grevistas.

O presidente da câmara informou os jornalistas do acordo conseguido com a empresa Tratolixo, congénere que assegura o tratamento dos resíduos dos municípios de Oeiras, Sintra, Cascais e Mafra, para a recepção temporária do lixo feito na capital. Isto porque, desde ontem, a autarquia alfacinha deixou de ter capacidade de armazenamento do que ia recolhendo, após várias tentativas goradas de fazer entregas nos centros de recolha da Valorsul – nomeadamento da Central de Tratamentos de Resíduos Sólidos Urbanos (CTRSU) de São João da Talha, Loures. Costa agradeceu às câmaras accionistas da Tratolixo e acusou o Governo de ser o “único responsável pela greve” e de ter actuado “em cartel”, durante terça-feira, impedindo que se encontrasse uma solução para a deposição de lixo em aterros privados.

Na conferência de imprensa, em que o presidente da autarquia da capital relembrou todo o processo de criação da Valorsul e disse “não existir nenhuma razão económico-financeira” que justifique o abandono por parte do Estado da sua posição de accionista maioritário, foi feito um aviso solene: “Os privados que pensem adquirir o capital a alienar pelo Estado devem ter as maiores cautelas, pois os municípios não são só accionistas, mas também clientes da empresa. Qualquer alteração sem o acordo dos municípios poderá colocar em causa essa posição. O Governo deve reflectir sobre este processo, pois tem o dever de não pôr em causa um sistema eficiente, que foi construído ao longo dos anos”.

António Costa disse que, se “os municípios não contratarem com a Valorsul, a empresa deixa de ter razão de existir e fecha”. Questionado pelo Corvo se a eventual denúncia do contrato poderia significar o regresso ao tempo em que a deposição de resíduos sólidos urbanos (RSU) era feita em lixeiras – uma vez que a incineradora de São João da Talha é a única da área metropolitana -, Costa escusou-se a responder directamente, frisando que o “Governo não pode criar uma situação em que se conjugue a existência de um monopólio entregue a privados”, o que poderá colocar em risco o equilíbrio do tarifário cobrado aos municípios pelo tratamento do lixo. Quando uma jornalista o questionou sobre alternativas, caso se verifique o abandono do sistema Valorsul, o autarca gracejou: “O céu é o limite”.

 

Texto: Samuel Alemão

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