Antigo cinema Quarteto está a ser transformado em edifício de escritórios

ACTUALIDADE
Samuel Alemão

Texto

Paula Ferreira

Fotografia

CULTURA

Alvalade

3 Fevereiro, 2017


O cair do pano para aquele que foi o primeiro cinema multiplex de Lisboa. O edifício do antigo Quarteto, fechado há quase uma década, está a ser sujeito a obras de profunda remodelação, tendo em vista o albergar de um conjunto de escritórios. No local, são bem visíveis e audíveis os indícios dos trabalhos em curso, que deverão terminar apenas no final do ano, convertendo o imóvel num centro de negócios e de trabalho, que ocupará três pisos. De forma bem simbólica, os cadeirões das antigas salas por onde passaram gerações de cinéfilos jazem agora sujos e delapidados naquele que era o átrio do conjunto de salas de espectáculos, situado na Rua Flores de Lima, junto à Avenida dos Estados Unidos da América. Observam-se paredes esventradas e entulho. Ouvem-se martelos pneumáticos.

Trata-se da confirmação de um desfecho há muito traçado, mas com um guião nada linear. Há três anos, a transformação do antigo complexo de cinemas  – inaugurado em 21 Novembro de 1975 e encerrado a 16 de Novembro de 2007 – num templo de uma igreja evangélica liderada por um pastor brasileiro acabou por ser abandonada já com as obras em curso, após a notícia do Corvo dando conta da planeada transformação. Os trabalhos de preparação para a conversão das icónicas salas de cinema num local de culto de Igreja Plenitude de Cristo haviam começado em Janeiro de 2014, pouco depois de as mesmas terem sido adquiridas pela referida confissão religiosa e quando se encontravam desocupadas já desde 2008. Após o fecho de portas, por ordem da Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC), o Quarteto aguardou por arrendatário e, mais tarde, por comprador.

Antigo cinema Quarteto está a ser transformado em edifício de escritórios

O complexo de cinemas encerrou, contra a vontade do seu proprietário e fundador, Pedro Bandeira Freire, porque a IGAC nele encontrou um rol de inconformidades, relacionadas sobretudo com as condições de segurança e de manutenção do espaço. A inexistência de um sistema de detecção e combate de incêndios e o mau estado das instalações eléctricas eram motivo de preocupação. A interdição duraria até à correcção das anomalias. O que nunca veio a suceder. Na altura, Bandeira Freire mostrou forte desagrado pela forma como a entidade estatal lidou com o assunto, chegando mesmo a acusá-la de “agir com má fé”. Cansado, e sem capacidade financeira para resolver os problemas apontados, acabou por desistir da exploração cinematográfica, tendo entregue as chaves do imóvel ao senhorio, em março de 2008. Um mês depois, faleceria com 68 anos, vítima de um acidente vascular cerebral.

Antigo cinema Quarteto está a ser transformado em edifício de escritórios

O edifício, que originalmente pertencia a uma família da região de Tomar, foi comprado no final de 2013 pela Igreja Plenitude de Cristo. Mas a onda de indignação levantada na opinião pública, no início de 2014, pelo destino anunciado de um lugar que para muitos ainda é portador de fortes memórias cinéfilas – o Quarteto, em especial nas duas primeiras décadas, destacava-se por uma arrojada programação de cinema de autor – levou os responsáveis da congregação religiosa a mudarem de planos. Depois disso, não se sabe o que aconteceu, mas pouco poucos meses depois, em 23 de setembro de 2014, o imóvel era já dado como devoluto pela Câmara Municipal de Lisboa, de acordo com um despacho assinado por Manuel Salgado, vereador do Urbanismo, e incluído num lote de 19 prédios ou fracções na mesma situação. No ano seguinte, o antigo cinema era já propriedade da firma Eternoriente, Lda, que iniciou então o pedido de licenciamento de obras para alteração do edifício. A autorização foi assinada por Salgado a 24 de outubro de 2016.

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