Passadas a surpresa e a tristeza iniciais pelo encerramento do Cinema Londres, em 2013, seguidas da notícia, no início do ano passado, de que o espaço iria dar lugar a uma loja de comércio chinês e da subsequente polémica a ela associada, o assunto foi caindo no esquecimento. Agora, avisa o núcleo de Lisboa da associação cívica Mais Democracia – a primeira a alertar para o caso, em Janeiro de 2014 -, está prestes a assistir-se à “consagração da transformação do Cinema Londres numa ‘Loja dos 300’”. Uma situação confirmada pela colocação de um letreiro publicitário, onde antes se anunciavam o nome do cinema e os filmes em exibição, e no qual se lê “Londres Shopping – Fashion & Home”.

 

Na face principal do referido anúncio elenca-se a venda de vestuário, calçado, acessórios, papelaria, ferramentas, brinquedos, artigos para animais, jardins e decoração. A grade existente na entrada continua fechada, mas ao espreitar consegue-se perceber que decorrem obras diversas no interior. “Não é claro como se acabaram por realizar estas obras para cuja legalidade e segurança pública alertámos a autarquia oportunamente: as obras de nivelamento com entulho, a destruição de obras de arte no interior, a existência de garagens ilegais sobre a cobertura do espaço comercial e, sobretudo, a perda de este importante equipamento cultural para a comunidade local ficam assim impunes”, acusa o Mais Democracia em comunicado.

 

No mesmo documento enviado aos jornalistas, diz-se que “não fica claro se estas obras representam ou não uma venda do espaço por parte do senhorio à sociedade chinesa, nem por quanto terá sido esta venda, se bem que o preço por metro quadrado da zona permita especular que tenha sido muito elevado”. Por isso, o movimento cívico pergunta “como foi possível a um operador empresarial de pequena dimensão reunir tal quantia e qual foi o grau de apoio directo oferecido pelo governo de Pequim a todo este processo”. E acusa ainda a Câmara Municipal de Lisboa de “incapacidade para defender o património cultural dos lisboetas”, lamentando ainda o que considera ser o empobrecimento da cidade, ao assistir-se de forma passiva a um cinema icónico “decair até uma loja descaracterizada, sem utilidade económica relevante para o bairro” e para Lisboa.

 

Quando se soube que a antiga sala de exibição cinematográfica da Avenida de Roma poderia vir a ser substituída por uma loja chinesa de comércio genérico, foi lançada uma petição para tentar travar tal mudança. Em paralelo, foram várias as vozes pedindo acções nesse sentido por parte da CML e do Governo. Mas, em Junho do ano passado, a Secretaria de Estado da Cultura, liderada por Jorge Barreto Xavier, deu autorização aos proprietários do edifício para dele fazerem o que bem entendessem, desafectando-o assim do uso exclusivo para exibição cinematográfica.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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