O Banco de Portugal vai abrir ao público, dia 22 de Abril, o troço da antiga muralha de Dom Dinis. Um monumento nacional apenas descoberto durante as recentes obras de requalificação e restauro do edifício-sede do banco, na Rua do Comércio – onde foi recuperada a antiga Igreja de São Julião e onde, ainda este ano, deverá ser instalado o Museu do Dinheiro.

A muralha da Ribeira de Lisboa, que Dom Dinis mandou erguer, em 1294, junto ao rio, para proteger a população dos ataques vindos do Tejo, nunca chegou a ser totalmente concluída. E a cerca que, já no século XIV, Dom Fernando se apressou a construir para defender a cidade não seguiu sequer o traçado da muralha de Dom Dinis, nem utilizou a sua estrutura, que permaneceu enterrada até há poucos anos.

Só em 2010 é que um troço da muralha da Ribeira, com 40 metros de comprimento, viria a ser detectado no subsolo do saguão do edifício-sede do Banco de Portugal, durante as escavações arqueológicas prévias ao início das obras. O Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar) confirmou, na altura, tratar-se da muralha de Dom Dinis, monumento nacional e que, por isso, não poderia ser demolido. Teve então de ser integrado no projecto de requalificação do edifício do Banco de Portugal. A instituição decidiu musealizar a antiga muralha, que será agora, pela primeira vez, tornada visível para o grande público, a partir de dia 22 de Abril.

A informação sobre a abertura ao público deste importante património da Lisboa medieval foi dada durante uma visita às obras de restauro da Igreja de São Julião, organizada, na semana passada, no âmbito da Semana da Reabilitação Urbana de Lisboa – a decorrer até amanhã.

 

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Nesta visita, conduzida pelo arqueólogo Carlos Boavida, da Lisboa Autêntica – uma das muitas empresas envolvidas na Semana da Reabilitação -, foi reconstituído o percurso das complexas obras que permitiram a requalificação da Igreja de São Julião e de todo o quarteirão pombalino ocupado pelo Banco de Portugal. As obras obedeceram a um projecto de arquitectura de Gonçalo Byrne e Falcão de Campos e a um projecto de estruturas e fundações da A2P, coordenada pelos engenheiros João e Vasco Aplleton.

O conjunto de edifícios em que se inclui a antiga Igreja de São Julião estava muito degradado, na sequência de diversas alterações feitas ao edificado ao longo dos tempos. A antiga igreja chegara, inclusivamente, a servir de local de parqueamento de carros da administração do banco. Havia zonas do edifício que, na eventualidade de um sismo de intensidade média, corriam o risco de desmoronar, como era o caso da torre sineira e do frontão da igreja. Houve, pois, que dar resistência sísmica a todo este conjunto de edifícios, para que se comportasse de forma homogénea, e adaptar as construções às actuais normas de segurança.

Foi durante as obras que surgiram diversas estruturas que há muito tinham deixado de estar visíveis, como foi o caso de vestígios do altar-mor da igreja. Mostra-se agora recuperado e reinventado em todo o seu esplendor, sendo, por enquanto, essa a única área do edifício que está aberta ao público.

Antes, era na igreja que estavam instaladas as casas-fortes do banco, uma das quais foi, a título de memória, recolocada numa das paredes do antigo templo. A requalificação dotou a sua estrutura de algo que não tinha. Uma abóbada, “que antes não existia, e que foi construída de acordo com o modelo da abóbada da Igreja dos Mártires”, explicou, durante a referida visita, o arqueólogo Carlos Boavida.

Inicialmente construída noutro local – a norte da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, no cruzamento da Rua de São Julião com a Rua Augusta -, a Igreja de São Julião fora já reconstruída por diversas vezes, na sequência de danos sofridos ao longo dos séculos. Só depois do terramoto de 1755, que danificou a igreja inicial, é que ela passou a existir no Largo de São Julião, onde agora voltou a estar – ainda que dessacralizada, desde 1933, quando foi comprada pelo Banco de Portugal.

A primeira reconstrução, concluída em 1810, durou pouco tempo intacta. Seis anos depois, um grande incêndio destruiu todo o recheio do templo. Por isso, voltou a entrar em obras, que se prolongaram até 1854. Em 1868, o Banco de Portugal começou a adquirir parte das construções e em 1933 instalou ali a sua sede.

A mais recente intervenção, concluída em 2012, permitiu recuperar muita da cantaria original do edifício pombalino, considerada de elevada qualidade. E ajudou também a conhecer melhor a história da antiga igreja, que será narrada no centro de interpretação que está a ser criado na área onde foi encontrada a muralha de Dom Dinis.

 

Texto: Fernanda Ribeiro      Fotografias: (1) Igespar  (2) Fernanda Ribeiro

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