Ana Salazar, o fecho de uma loja mítica

ACTUALIDADE
Rui Lagartinho

Texto

DR

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Santa Maria Maior

24 Março, 2015

Os taipais da obra ao lado do número 87 da Rua do Carmo ainda marcam o ritmo das colecções de moda de Ana Salazar, mas o manequim da montra de uma cadeia multinacional de calçado desportivo, que há dias ocupou o lugar, corre em direcção oposta.

 

Pode-se dizer que a revolução no Quartel do Largo do Carmo começou de baixo para cima, dois anos antes da data oficial. No sopé das traseiras do edifício, no rés-do chão no número 87 da Rua do Carmo, nasceu em 1972 uma loja de roupa que marcava uma atitude e ditou uma tendência. “A Maçã” surgiu porque Ana Salazar queria ter um ponto de venda para as peças que importava de Londres. As mulheres bonitas que subiam a Rua do Carmo, e que os UHF cantaram, compravam, de certeza, roupa na Maçã.


 

Quando, já no início dos anos oitenta, Ana Salazar se afirmou como a criadora que revolucionou a moda portuguesa, dando-lhe um conceito de autor, a loja evoluiu para se tornar o espaço bandeira da marca.

 

O espaço imaginado, em 1988, pelos arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, depurado, transparente, mas quente e acolhedor, servia de forma eficaz as colecções da criadora e foi resistindo à ruína em que o Chiado se transformou depois do incêndio.

 

Mas a especulação imobiliária e a pressão das grandes cadeias internacionais que tomaram conta do Chiado renascido, hoje massificado de turistas com baixos orçamentos, conseguiu fechar as portas daquela casa, que reabriu na sexta-feira (20 de Março) como mais uma loja de artigos de desporto – a terceira num espaço de cinquenta metros.

 

Desentendida com os actuais accionistas da marca “Ana Salazar”, e afastada da sua gestão, a estilista soube do fecho da loja do Chiado pelas clientes da loja da filha, Rita Salazar. Ao Corvo, confessa a sua tristeza, mas não estranha o sucedido, pois, considera, “o espaço de afirmação dos criadores portugueses está condenado, num modelo que não lhes deixa espaço de manobra”. Hoje em dia, diz a criadora, “só vingam o grande luxo e as lojas muito baratas.”

 

O centro da cidade de Lisboa perde, assim, mais uma loja de referência portuguesa, que ainda distinguia a Rua do Carmo das artérias de outra qualquer capital europeia. Em Barcelona, em Paris, em Londres, lojas como esta, de valor histórico e cultural, estão devidamente sinalizadas e protegidas pelos municípios ciosos do seu património.

MAIS ACTUALIDADE

COMENTÁRIOS

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografias & Fotografia

Paula Ferreira
Fotografía

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Send this to a friend