Os taipais da obra ao lado do número 87 da Rua do Carmo ainda marcam o ritmo das colecções de moda de Ana Salazar, mas o manequim da montra de uma cadeia multinacional de calçado desportivo, que há dias ocupou o lugar, corre em direcção oposta.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

Pode-se dizer que a revolução no Quartel do Largo do Carmo começou de baixo para cima, dois anos antes da data oficial. No sopé das traseiras do edifício, no rés-do chão no número 87 da Rua do Carmo, nasceu em 1972 uma loja de roupa que marcava uma atitude e ditou uma tendência. “A Maçã” surgiu porque Ana Salazar queria ter um ponto de venda para as peças que importava de Londres. As mulheres bonitas que subiam a Rua do Carmo, e que os UHF cantaram, compravam, de certeza, roupa na Maçã.

 

Quando, já no início dos anos oitenta, Ana Salazar se afirmou como a criadora que revolucionou a moda portuguesa, dando-lhe um conceito de autor, a loja evoluiu para se tornar o espaço bandeira da marca.

 

O espaço imaginado, em 1988, pelos arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, depurado, transparente, mas quente e acolhedor, servia de forma eficaz as colecções da criadora e foi resistindo à ruína em que o Chiado se transformou depois do incêndio.

 

Mas a especulação imobiliária e a pressão das grandes cadeias internacionais que tomaram conta do Chiado renascido, hoje massificado de turistas com baixos orçamentos, conseguiu fechar as portas daquela casa, que reabriu na sexta-feira (20 de Março) como mais uma loja de artigos de desporto – a terceira num espaço de cinquenta metros.

 

Desentendida com os actuais accionistas da marca “Ana Salazar”, e afastada da sua gestão, a estilista soube do fecho da loja do Chiado pelas clientes da loja da filha, Rita Salazar. Ao Corvo, confessa a sua tristeza, mas não estranha o sucedido, pois, considera, “o espaço de afirmação dos criadores portugueses está condenado, num modelo que não lhes deixa espaço de manobra”. Hoje em dia, diz a criadora, “só vingam o grande luxo e as lojas muito baratas.”

 

O centro da cidade de Lisboa perde, assim, mais uma loja de referência portuguesa, que ainda distinguia a Rua do Carmo das artérias de outra qualquer capital europeia. Em Barcelona, em Paris, em Londres, lojas como esta, de valor histórico e cultural, estão devidamente sinalizadas e protegidas pelos municípios ciosos do seu património.

 

  • Desirable Lifestyle
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    :-/

  • Ana Rita Francisco
    Responder

    até me arrepiei quando deixei de a ver lá

  • Maria Vidigal
    Responder

    será que é uma decathlon? espero que sim. sempre que preciso de comprar polares a 7,90€ feitos na indonésia, tenho que ir de carro até alfragide.

  • Joana Moura
    Responder

    :((

  • Helena Galamba
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    É triste ver este espaço fechado.

  • Francesca Pompilio
    Responder

    🙁

  • João Barreta
    Responder

    O comércio que a procura mais previligia (entenda-se, frequentando, comprando, consumindo, …) é o que sobrevive!
    São múltiplas as razões que levam os consumidores a “mudar”, a “escolher”, a “alternar”, … ou até a … não comprar!!.
    Já lá vão quase 20 anos existiu, no seio do Ministério da Economia, o denominado Observatório do Comércio que, entre outras coisas, podia estudar estes fenómenos, mas agora parece que já nem é preciso … estudar… . Todos percebem de tudo e como tal, diz-se que é … o “mercado a funcionar”!!!!!!!!!!

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