Amanhecer à porta da Segurança Social

CRÓNICA
António Caeiro

Texto

Joana Martins de Carvalho

Ilustração

VIDA NA CIDADE

Alvalade

13 Novembro, 2015

Crónica

Naquela longa fila de espera não se via ninguém com auscultadores nos ouvidos ou agarrado ao ecrã do telemóvel: eram pessoas de outro tempo, à espera da senha para ser atendidas no Centro Nacional de Pensões (CNP), em Entrecampos.

Às 5h30 – quase quatro horas antes de o serviço abrir – já havia três pessoas à frente e durante a hora seguinte chegaram mais vinte ou trinta, entre as quais uma mulher que veio de Setúbal, acompanhada pelo marido, reformado há um ano.

– Levantei-me às quatro – disse a mulher, vestida como se fosse inverno.


Vimos os candeeiros de rua a desligar, todos ao mesmo tempo, tipo curto-circuito, e vimos distribuidores cheios de energia a despejar pilhas de jornais e de revistas à porta dos quiosques ainda fechados. Às 7h00 apareceu o sol, a pasteleira em frente abriu, ouve-se o som de estores a subir, pneus a chiar, mais carros e pessoas a caminho do emprego. É uma sequência muito rápida, empolgante, o começo do dia numa grande cidade.

Quem distribui as senhas de atendimento é o segurança do edifício, um emigrante brasileiro, atlético e brincalhão, contratado por uma empresa privada do ramo. “Às vezes, ele até abre as portas mais cedo, para as pessoas esperarem lá dentro”, contou uma veterana destas filas de espera: “No inverno, isto é muito frio e, se chove, não temos onde nos abrigar”.

 

Faltavam poucos dias para as eleições. Entre as conversas de ocasião, depois de esgotados os temas relacionados com o futebol e a meteorologia, surgiu uma das grandes questões da campanha – a “sustentabilidade da Segurança Social”. Ninguém utilizou essa expressão, mas era disso que se tratava.

– Por enquanto ainda há dinheiro. Qualquer dia, não sei… – opinou um homem.

– Não acredito nisso, há muito dinheiro por esse país fora – contestou o marido da mulher que veio de Setúbal. Mesmo aqui dentro – continuou, apontando para o edifício do Centro Nacional de Pensões – qualquer diretor tem carro com motorista e cartão de crédito.

Uma mulher que ia votar no PS tentava convencer outra a fazer o mesmo.

– O meu único partido é o Benfica, respondeu a outra.

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