Crónica

Naquela longa fila de espera não se via ninguém com auscultadores nos ouvidos ou agarrado ao ecrã do telemóvel: eram pessoas de outro tempo, à espera da senha para ser atendidas no Centro Nacional de Pensões (CNP), em Entrecampos.

Às 5h30 – quase quatro horas antes de o serviço abrir – já havia três pessoas à frente e durante a hora seguinte chegaram mais vinte ou trinta, entre as quais uma mulher que veio de Setúbal, acompanhada pelo marido, reformado há um ano.

– Levantei-me às quatro – disse a mulher, vestida como se fosse inverno.

Vimos os candeeiros de rua a desligar, todos ao mesmo tempo, tipo curto-circuito, e vimos distribuidores cheios de energia a despejar pilhas de jornais e de revistas à porta dos quiosques ainda fechados. Às 7h00 apareceu o sol, a pasteleira em frente abriu, ouve-se o som de estores a subir, pneus a chiar, mais carros e pessoas a caminho do emprego. É uma sequência muito rápida, empolgante, o começo do dia numa grande cidade.

Quem distribui as senhas de atendimento é o segurança do edifício, um emigrante brasileiro, atlético e brincalhão, contratado por uma empresa privada do ramo. “Às vezes, ele até abre as portas mais cedo, para as pessoas esperarem lá dentro”, contou uma veterana destas filas de espera: “No inverno, isto é muito frio e, se chove, não temos onde nos abrigar”.

Faltavam poucos dias para as eleições. Entre as conversas de ocasião, depois de esgotados os temas relacionados com o futebol e a meteorologia, surgiu uma das grandes questões da campanha – a “sustentabilidade da Segurança Social”. Ninguém utilizou essa expressão, mas era disso que se tratava.

– Por enquanto ainda há dinheiro. Qualquer dia, não sei… – opinou um homem.

– Não acredito nisso, há muito dinheiro por esse país fora – contestou o marido da mulher que veio de Setúbal. Mesmo aqui dentro – continuou, apontando para o edifício do Centro Nacional de Pensões – qualquer diretor tem carro com motorista e cartão de crédito.

Uma mulher que ia votar no PS tentava convencer outra a fazer o mesmo.

– O meu único partido é o Benfica, respondeu a outra.

 

Texto: António Caeiro        Ilustração: Joana Martins de Carvalho

 

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