Localizado no Mercado do Forno do Tijolo, nos Anjos, o altLab é um hacker space. Isto é: uma coletividade de artesãos digitais e de partilha de conhecimento, que está de portas abertas a todos os que quiserem reinventar uma máquina antiga, materializar projetos pessoais, soldar componentes electrónicos ou, simplesmente, conviver e aprender com outros “makers”. À parte disto, o altLab defende que o sistema de ensino deveria ser alvo de um “hack”. O Corvo foi descobrir porquê.

 

Texto: Pedro Arede             Fotografias: Hugo David e Pedro Arede *

 

É de noite. Falta menos tempo para começar o dia de trabalho que está para vir do que aquele que efetivamente passou, desde que o relógio bateu nas 18 horas. Na sala, perto de 10 pessoas. 10 makers, embrenhados nas suas criações, discutindo, partilhando e imaginando.

 

Por onde quer que olhemos, há caixas com indicações escritas a marcador, placas electrónicas e uma parafernália de objectos, capaz de colocar, lado a lado, dispositivos tão diferentes como a torre de um computador, aquecedores, rebarbadoras, aparelhagens e até uma frigideira eléctrica.

 

Na parede, afixadas, estão ventoinhas de computadores antigos e motherboards que já tiveram mais que fazer enquanto estiveram ligadas à corrente. Agora, para além do efeito decorativo, aquelas placas estão ali prontas a ser usadas, para ajudar a reavivar outro equipamento qualquer.

 

Altlab Lisboa

 

“Se tivéssemos um modelo político dentro do altLab, chamávamos-lhe qualquer coisa como a Do-it-o-cracia, ou seja, quem mais faz, mais valor tem, mais pode definir e dizer”, explica ao Corvo Vinícius Silva, coordenador do altLab, espaço situado nas traseiras do Mercado do Forno do Tijolo, nos Anjos (freguesia de Arroios). “Aqui, o valor não é atribuído pelo estatuto ou pela tua linda cara. É pelo conhecimento que ajudaste a criar e pelo suor que meteste em determinado trabalho”, acrescenta.

 

A liberdade é um dos princípios inerentes às atividades desenvolvidas pelo altLab. Na coletividade, que não tem qualquer fim lucrativo, todas as criações e desenvolvimentos são para ser partilhados através das comunidades digitais, abominando patentes e dando os devidos créditos aos seus criadores. “Um dos principais objetivos dos hacker spaces é passar o conhecimento de uns para os outros, mantendo as origens e dando valor a quem criou. Só assim conseguimos cristalizar o conhecimento”.

 

Não é, portanto, de estranhar que os membros deste e de outros espaços do género sejam designados por makers. Aliados ao movimento com o mesmo nome, estes são os “fazedores”, ou seja, os criadores dos novos tempos, capazes de aliar os conhecimentos das tecnologias digitais com técnicas associadas à mecânica, à electrónica e à carpintaria, por exemplo, que foram caindo em desuso no dia-a-dia.

 

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(foto: Pedro Arede)

 

No altLab é obrigatório fazer, descobrir e questionar em vez de comprar feito. O hacker space de Lisboa é um local de encontro e partilha entre programadores, engenheiros informáticos, entusiastas da tecnologia ou simples curiosos, dispostos a desmontar máquinas e inventar novos usos para todo o tipo de objetos, reaproveitando, por exemplo, peças de máquinas usadas, materiais digitais de acesso livre e componentes fabricados a partir de impressoras 3D.

 

“O conceito de hacker que exploramos aqui nada tem a ver com a conotação negativa que geralmente se atribui aos piratas informáticos. Está sim relacionado com o facto de querer desmontar algo para o compreender melhor. Tomar consciência daquele objeto para o poder reutilizar em áreas completamente diferentes”, explica Vinicius Silva.

 

Altlab Lisboa

Vinicius Silva, coordenador do altLab

 

Fundado em 2009, o altLab já ocupou outro espaço em Lisboa, no Prior Velho, e chegou mesmo a instalar-se do outro lado do Tejo. Agora, de regresso à capital, debaixo do mesmo tecto que o FabLab, um laboratório de fabrico digital aberto ao público, conta atualmente com cerca de 15 membros activos que, dia após dia, enchem o espaço com as suas criações e acolhem todos aqueles que quiserem aprender e construir tudo e mais alguma coisa, desde que haja vontade.

 

No altLab, como em qualquer hacker space, são exploradas duas vertentes: a dos projetos pessoais, onde são apoiados trabalhos individuais a partir de novas ideias, mas também os chamados hacks de interface, que essencialmente passam por fazer pequenas alterações a equipamentos existentes, de forma a transformá-los por completo.

 

“Dentro do Lab, há uma cultura de aceitação e de humildade”, aponta Vincius Silva. Segundo o coordenador, como há pessoas com todo o tipo de formação dentro do altLab, que estão “expostas a áreas diferentes daquelas que desenvolvem habitualmente”, existe uma grande abertura para aprender, “mesmo a partir de pessoas que, se calhar, até sabem menos que eles”.

 

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(foto: Pedro Arede)

 

João Alves tem 43 anos e é o criador do CESduino, um pequeno dispositivo inspirado no Arduino, uma plataforma de prototipagem digital, desenvolvido em placa única, que pode ser ligado a diversos dispositivos para programar uma multiplicidade de funções desejadas.

 

“Profissionalmente, precisava de desafios, de um escape, e comecei-me a dedicar a esta coisa da electrónica. Comecei a ir a workshops de Arduino e a fazer placas. A dada altura, como queria fazer os meus próprios projetos, acabei eu por criar uma placa muito barata que me permitisse fazer uma utilização descomprometida”, explica ao Corvo.

 

“A minha perspetiva em relação a isto foi aprender. Mas, assim como a comunidade me ajudou a aprender, eu quis também devolver algo à comunidade. Por isso, tu não precisas de mim para nada, se quiseres fazer esta placa. Os passos e os componentes necessários estão todos explicados no site”, conta João Alves.

 

Realizar a virtualidade

 

 A noite avança. “Quem é que quer café?”, atira alguém para o ar. Os interessados levantam o braço, ao mesmo tempo que uma saboneteira é pousada sobre a mesa. Sobre ela, uma lata de atum das grandes, cheia de água, vai fervendo através de um bico de fogão improvisado com meia lata de Coca-Cola e álcool etílico. Está tudo pensado até ao mais ínfimo pormenor. Enchem-se os copos, adiciona-se o café e está pronto. Aqui, até a “máquina de café” foi reinventada.

 

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(foto: Pedro Arede)

 

No altLab, a tecnologia anda de mãos dadas com o mundo concreto e real. Apesar do advento dos novos tempos, onde os formatos digitais e as interações virtuais estão cada vez mais presentes nas nossas vidas, hacker spaces como o altLab procuram uma forma palpável e orgânica de promover um desenvolvimento tecnológico mais humano. Quem o refere é Luís Dinis, um dos membros mais antigos do colectivo. “Hoje em dia, as pessoas falam todas em realidade virtual, mas nós queremos é que as coisas sejam reais. Não é por acaso que nos juntamos todos aqui. Podíamos fazê-lo todos num chat, certo?”

 

“Isto aqui no altLab é como como voltar a corrigir todo o mundo virtual que andámos a construir, incutindo nas pessoas uma proximidade real com as comunidades”, explica Luís Dinis.

 

Vinicius Silva vai mais longe e aponta mesmo que o surgimento de espaços como o altLab fazem parte do início de uma nova fase do desenvolvimento económico e tecnológico, que apelida de “neo-renascimento”. “Já passámos a fase industrial em que se produziu em massa, sem que as pessoas soubessem como as coisas funcionam. Agora, estamos numa altura em que começas a ter problemas com o lixo que produzes, onde há muito mais gente preocupada em reciclar e reaproveitar, do que simplesmente deitar fora”, explica o coordenador.

 

Altlab Lisboa

 

E como poderão os hacker spaces ter um impacto real nas sociedades? Começando pelo ensino, continua. “Um dos problemas do ensino e da educação, neste momento, é o facto de não motivar as pessoas. É técnico. É uma coisa quase vitoriana e medieval, que ensina a pensar que errar é errado”.

 

Desta forma, tal como é possível adaptar, por exemplo, um equipamento a uma nova realidade, também o ensino deveria ser hackeado, ou seja, transformado, para ir de encontro às motivações e potencialidades dos alunos. “Temos um programa, o Eduhacking, que basicamente o que pretende fazer é um hack ao ensino. Ou seja, agarrar e desmontar o conceito todo do que é uma escola e depois readaptá-lo de forma mais lógica”, conclui.

 

Altlab Lisboa

 

Assim, segundo o coordenador, a vantagem de um espaço como o altLab, onde existe um ambiente “em que errar é bom”, é poder ajudar a desbloquear conhecimento. “As pessoas vêm porque estão motivadas, porque querem aprender, à maneira delas, coisas de que gostam. É uma forma alternativa de ensino”, conclui. “No final, tornam-se eles próprios melhores ferramentas para a sociedade e melhores seres humanos”.

 

A dada altura, o coordenador do altLab Lisboa não hesita em dizer que o ideal mesmo era que “o mundo fosse um altLab gigante”, onde as pessoas partilhariam, respeitariam e dariam valor ao que os outros fazem, sem se preocupar só com elas. “O que realmente me dá gozo aqui é ver aquele sorriso verdadeiro na cara das pessoas, quando falamos nestas coisas e elas dizem: fantástico! Não há coisa mais humana”, confessa ao Corvo.

 

Altlab Lisboa

 

Por isso mesmo, conta, uma das palavras que melhor traduz o altLab é “serendipidade”. O que quer isso dizer? A palavra, um anglicanismo, foi cunhada pelo escritor britânico Horace Walpole, em 1974, no conto infantil persa “Os três príncipes de Serendip”. Na história, os três príncipes de Ceilão descobriram a solução para inúmeros dilemas impensados, que nada tinham a ver com o seu real objetivo.

 

“O objetivo é um ponto. Não o caminho”, afirma Vinicius Silva. O caminho é o que realmente interessa: devemos aproveitar o conhecimento que adquirimos para melhorar e não para ficarmos chateados por não termos chegado ao nosso objetivo. Se o teu objetivo fosse morrer, nascias, morrias e depois o que é que tinhas vivido? Nada!”. “O objetivo na vida, tal como no que fazemos aqui, é viver, conhecer e fazer o caminho. É criar e melhorar o conhecimento”, remata.

 

  • V.Silva
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    Reportagem altLab no Corvo. – Thanks Pedro Arede > #altLabNosMedia > https://t.co/BOH5YytaAM

  • Afonso Muralha
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    RT @X3msnake: Reportagem altLab no Corvo. – Thanks Pedro Arede > #altLabNosMedia > https://t.co/BOH5YytaAM

  • Joao Alves
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    RT @ocorvo_noticias: altLab Lisboa: nos Anjos, reinventa-se o futuro e faz-se tecnologia com as mãos – https://t.co/VvaIXANK7y

  • Luis Correia
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    RT @ocorvo_noticias: altLab Lisboa: nos Anjos, reinventa-se o futuro e faz-se tecnologia com as mãos – https://t.co/VvaIXANK7y

  • Alexandre Pólvora ::
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    .@altlab #Lisboa: nos #Anjos, reinventa-se o futuro e faz-se tecnologia com as mãos | @ocorvo_noticias| https://t.co/OPwvbgl1PN #hackerspace

  • ubuntuportugal
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    “Localizado no Mercado do Forno do Tijolo, nos Anjos, o altLab é um hacker space. Isto é: uma coletividade de… https://t.co/7LZ8cMOLyh

  • Tiago Santos
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    RT @ocorvo_noticias: altLab Lisboa: nos Anjos, reinventa-se o futuro e faz-se tecnologia com as mãos – https://t.co/VvaIXANK7y

  • Luís Galvão
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    altLab Lisboa: nos Anjos, reinventa-se o futuro e faz-se tecnologia com as mãos | O Corvo |… https://t.co/zEsjevaQ4A

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