Os miúdos das várias classes sociais daquela zona estão unidos pelo rugby. Mas o campo que esperavam ver ali construído, através do projecto mais votado do Orçamento Participativo (OP) 2010-2011, vai afinal para outra área da cidade. Os moradores do Lumiar sentem-se enganados. Mas o Clube de Rugby de São Miguel (Alvalade), que beneficiará da obra de quase um milhão de euros, diz ter sido ele a lançar o projecto vencedor do OP. Um imbróglio iniciado com uma proposta de um “clube gay de rugby” e que também envolve impedimentos geológicos.

 

Texto: Samuel Alemão

 

A Associação de Residentes da Alta do Lumiar (ARAL) sente-se prejudicada e diz-se defraudada pela decisão da Câmara Municipal de Lisboa (CML) de avançar para a revitalização do Complexo Desportivo de São João de Brito, em Alvalade, com o recurso à verba de 900 mil euros que estaria destinada à construção de um campo de rugby municipal no Parque Urbano Sul da Alta de Lisboa, mesmo ao lado do Aeroporto. O projecto foi o grande vencedor do Orçamento Participativo (OP) de Lisboa 2010-2011, mas ainda não saiu do papel. A sua concretização, contudo, deverá arrancar este ano, diz a Junta de Freguesia de Alvalade. O que deixa decepcionados os moradores da Alta de Lisboa, que se sentem enganados.

 

É necessário retroceder ao início do processo para entender o que está em causa. Em 5 de Novembro de 2010, eram anunciados os projectos ganhadores daquela que era a terceira edição do OP de Lisboa. Recolhendo a preferência de 730 dos mais de 11 mil votantes do OP desse ano – iniciativa lançada em 2008, na qual haviam participado pouco mais de um milhar de pessoas -, o projecto vencedor foi o da criação de um “Campo de Rugby Municipal”, a construir na Alta de Lisboa – Parque Urbano Sul, com um custo estimado de 900 mil euros. Uma vitória renhida, já que obteve só mais 16 votos que a segunda proposta, a da construção da 3ª Fase do Parque Urbano do Rio Seco, que se previa que viesse a custar cerca de um milhão de euros.

 

Na altura, a vitória do projecto deu que falar nos jornais. Sobretudo porque, logo no mesmo dia em que foi anunciado o resultado, apareceram duas entidades a reclamar-se como autoras da proposta vencedora: o Clube de Rugby São Miguel e o clube Dark Horses. Mas, mais ainda, porque este último, também conhecido por Boys Just Wanna Have Fun (BJWHF), se assumia abertamente como tendo a primeira equipa de rugby composta na sua maioria por homossexuais. Uma novidade absoluta. Em declarações aos jornalistas, nesse dia, o então presidente desta equipa, Filipe Almeida Santos, queixava-se de a Câmara Municipal de Lisboa (CML) ter tentado desviar o clube do protagonismo deste dossier “através de uma jogada de bastidores”.

 

O dirigente do BJWHF dizia então estranhar “haver uma entidade que aparece como entidade gestora, quando a proposta é votada como campo municipal. Com a mobilização que fizemos para a proposta defraudámos as pessoas que confiaram em nós e que votaram numa estrutura de acesso municipal livre”. Uma referência à indicação dada no momento do anúncio de que a proposta seria da autoria do Clube de Rugby São Miguel, sediado no bairro do mesmo nome, localizado na freguesia de Alvalade. O responsável pela equipa que se assumia como aberta a jogadores gay criticava o facto de nenhum representante da mesma ter sido convidado para a cerimónia de anúncio dos vencedores.

 

A CML disse logo tratar-se de um “lapso” dos seus serviços e recusou qualquer sugestão de discriminação. Naquele momento, o porta-voz da autarquia dizia ainda à comunicação social ser “abusiva” a reivindicação da gestão do futuro equipamento por parte de qualquer entidade. Uma postura fundada no facto de, na verdade, o projecto ganhador do OP 2010-2011 ter ido a votos após os serviços camarários haverem decidido agrupar numa só as duas propostas distintas – uma de cada clube – para construção de campos de rugby. E parece ser aí, precisamente, que radica a disputa actual.

 

Como faz em todas as edições do OP, a câmara lisboeta, através do gabinete que acompanha o processo, analisa e filtra todas as sugestões feitas pelos cidadãos na fase inicial. É aí que se decide quais os projectos que, de acordo com os técnicos da edilidade, têm pernas para andar e poderão ser sujeitos ao escrutínio dos restantes munícipes – competindo entre si para receber as dotações orçamentais disponibilizadas pelo município.

 

Muitas vezes, e quando as sugestão são muito similares, os serviços optam por fundi-las numa única proposta. Foi o que sucedeu neste caso, em que existia uma para a “requalificação do parque desportivo de São João de Brito”, da autoria de elementos do Clube de Rugby de São Miguel, e outra para a “criação dum campo de râguebi municipal na cidade de Lisboa”, apresentada pelo BJWHF. Nasceu assim a candidatura que acabou por receber os tais 730 votos.

 

Durante mais de dois anos e meio – e após a curiosidade inicial acerca do “clube gay de rugby” ter ganho o OP -, pouco ou nada se soube sobre a concretização do projecto. Até que, em Junho de 2013, numa discreta sessão de apresentação do Programa de Apoio ao Associativismo Desportivo, presidida pelo então vereador com pelouro do desporto, Manuel Brito, os responsáveis municipais comunicavam aos presentes a alteração do que estava previsto: o campo de rugby previsto no OP 2010-2011 já não seria construído no Parque Urbano Sul da Alta de Lisboa, mas antes transferido para o decrépito complexo de desportivo de São João de Brito, que assim beneficiaria da verba prevista.

 

Na informação sobre o ponto de situação dos projectos, disponibilizada pela CML através do portal do OP, pode observar-se que “foi aprovada em sessão de Câmara a proposta de Contrato Programa de Desenvolvimento Desportivo que estabelece o acordo de construção e gestão do campo (requalificação do Parque Desportivo Municipal São João de Brito) ao Clube de Rugby São Miguel”. Ainda de acordo com esta informação, a proposta – que tem a designação “Criação de um Campo de Rugby Municipal na Cidade de Lisboa” – “aguarda deliberação da Assembleia Municipal de Lisboa e visto do Tribunal de Contas”.

 

Esta mudança de localização não caiu nada bem junto dos moradores da Alta de Lisboa, que reclamam um maior investimento em equipamentos desportivos e culturais como forma de minorar as grandes desigualdades sociais ali sentidas. “A proposta vencedora prevê a construção do campo de rugby exactamente na Alta de Lisboa e não noutro sítio. Ficámos muito admirados quando soubemos, por portas e travessas, que nos queriam tirar o campo de rugby. Trata-se de uma clara violação dos nossos interesses de moradores”, queixa-se José Almeida, dirigente da Associação de Residentes da Alta do Lumiar (ARAL).

 

 

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O rugby tem na Alta de Lisboa um importante papel social (foto: Rugby Alta de Lisboa) 

 

O dirigente associativo salienta o facto de “a candidatura ao OP ter servido como forma de ultrapassar o entrave de a SGAL (Sociedade Gestora da Alta de Lisboa) não ter construído um equipamento desportivo que estava previsto”. José Almeida diz que a questão é antiga e motivo de “um ping-pong entre a SGAL e a câmara”. O que, afirma, tem causado enorme transtorno aos residentes daquela área de Lisboa, nomeadamente às crianças e jovens, muitas delas pertencentes às classes mais desfavorecidas.

 

O Rugby da Alta de Lisboa começou em 2009 e tem agora seis dezenas de atletas em três escalões. “Trata-se de algo muito importante para as crianças e que junta filhos de pessoas de realojamentos com miúdos de famílias que ali compraram casa. O rugby tem ali, portanto, uma forte componente de integração social. Ao estarmos a desistir da construção do campo, estamos a passar mensagens sociais muito erradas”, acusa José Almeida, dizendo que, ante a falta do recinto, os atletas têm de treinar no campo de futebol do clube Águias da Musgueira ou num jardim público.

 

Também o Clube de Rugby de São Miguel, fundado em 1970 no Bairro de São Miguel, freguesia de Alvalade, reclama para si um forte papel social, tendo mesmo já desenvolvido um trabalho com crianças surdas-mudas. Razão pela qual Diogo Vassalo, presidente da direcção, diz não querer entrar num debate sobre onde seria mais útil a construção do campo de rugby, “até porque Alvalade também tem pessoas com problemas sociais”. “Não estamos a roubar o campo a ninguém”, diz o dirigente do clube ao Corvo, lamentando o que afirma ser um “mal-entendido resultante de alguma confusão conceptual”.

 

Para Diogo Vassalo, não há desvio de qualquer ordem em relação ao que foi aprovado pelo OP 2010-2011. “A nossa proposta foi, desde o início, a da recuperação do Complexo Desportivo de São João de Brito. Logo no início, elaborámos uma proposta que foi rejeitada, mas reclamámos, o que foi aceite. Depois, acabámos por ver o projecto ser junto a outro lançado pelo Dark Horses (ou BJWHF), que foi o vencedor do OP”, explica o presidente do Rugby São Miguel, que garante que o seu clube, com 250 atletas federados, “precisa de um campo mais à séria”.

 

Diogo Vassalo está, naturalmente, muito contente com a perspectiva de avanço das obras, há muito aguardadas. E aponta o final do primeiro trimestre de 2015 para o lançamento do concurso de adjudicação dos trabalhos – que estará a cargo da Junta de Freguesia de Alvalade, com reforçadas competências após a reforma administrativa da cidade. “Valorizo muito o trabalho que é feito com o rugby dos miúdos da Alta de Lisboa, os quais conheço muito bem”, afirma ainda o responsável do clube, que elogia a “atitude proactiva” da junta de Alvalade.

 

André Caldas (PS), o presidente desta junta, prefere não comentar a alteração do que havia sido decidido pelo voto popular no OP 2010-2011. “A decisão já estava tomada quando tomei posse, no ano passado”, argumenta, fazendo notar que a mesma partiu da câmara. Mas não se deixa de congratular com o facto de a freguesia ganhar um equipamento desportivo de qualidade, através da reabilitação de um complexo desportivo há muito a precisar de obras.

 

André Caldas não se mostra é tão optimista quanto ao prazo do lançamento do concurso público para a realização da obra – que deverá custar cerca de 800 mil euros, diz. “Nunca acontecerá antes do fim do primeiro semestre. Este é um concurso público de uma certa dimensão e, por isso, tem de cumprir determinadas regras da contratação pública”, afirma, explicando que os termos de contratação demoram algum tempo a ser definidos.

 

Já o seu congénere do Lumiar, Pedro Delgado Alves (PS), diz que não pretende entrar “numa competição de bairros”. Mas admite alguma decepção com a decisão tomada pela CML de não construir, como planeado, o campo de rugby no Parque Urbano Sul da Alta de Lisboa. O que, diz, “estará relacionado com problemas de drenagem dos terrenos escolhidos para a construção do campo”. Para fazer ali o campo desportivo, num terreno com uma vista ampla sobre a pista do Aeroporto de Lisboa, seria preciso fazer trabalhos “com custos superiores” ao cabimentado no OP, explica o autarca.

 

Mas Pedro Delgado Alves, apesar de entender a justificação camarária para a deslocalização do investimento, considera que a mesma podia ter sido evitada, pois “existiam alternativas de localização na área da freguesia”. Ainda para mais porque o Lumiar, a maior freguesia da cidade – com 45 mil habitantes -, “tem um clara carência de equipamentos desportivos”. Ainda assim, o presidente da junta está optimista em relação ao encontrar de uma alternativa conjunta com a CML para a construção de um campo onde os miúdos da Alta de Lisboa possam jogar rugby. Antes disso, e com mais prioridade, será construído um pavilhão polidesportivo.

 

O Corvo tentou, durante semanas, contactar um determinado dirigente do clube Boys Just Wanna Have Fun (BJWHF), mas este foi sistematicamente ignorando as combinações de conversa que ia fazendo, inviabilizando-as.

 

  • Bruno H Silva
    Responder

    Alta de Lisboa contesta desvio para Alvalade do projecto vencedor do Orçamento Participativo 2010-2011 http://t.co/GdTebYgsHS

  • Paula Barata
    Responder

    É completamente desnecessário o comentário sexista, sito: “Um imbróglio iniciado com uma proposta de um “clube gay de rugby” (…)”

    • O Corvo
      Responder

      Onde é que está o comentário sexista? O clube é que se assume publicamente como tal.

    • Ricardo Teixeira
      Responder

      A forma como a notícia está construída induz em erro. Sucedeu-me o mesmo que à Paula. No início, estranha-se a necessidade do comentário sexista, que só se percebe com a leitura seguinte. Depois, mudei naturalmente de opinião. São os próprios que se assumem como tal e quando assim é, só posso louvar! 🙂

  • pancrazio auteri
    Responder

    Alta de Lisboa contesta desvio para Alvalade do projecto vencedor do Orçamento Participativo… http://t.co/9SOq9LxHVY

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