Aberto este ano, no dia 25 de Abril, o Museu do Aljube-Resistência e Liberdade é um espaço onde os portugueses se podem reencontrar com o que foi a repressão política durante o Estado Novo. Um museu que os lisboetas começam agora, lentamente, a descobrir, depois de uma inauguração discreta.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

O sol, quando nasce, é para todos, mas essa constatação será mais premente quando confrontada com a ausência de liberdade. São três horas, duma tarde em que Lisboa ferve. Estamos sentados na soalheira e convidativa cafetaria do Museu do Aljube, situada no edifício que foi antiga prisão, agora transformado num museu evocativo da Resistência e da Liberdade.

 

Cheira a novo, neste projecto de recuperação levado a bom termo pelos arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira. A vista que nos deslumbra é a mesma que os presos políticos avistariam das suas minúsculas celas, conhecidos como curros ou gavetas: primeiro, a Sé, depois, o estuário do Tejo.

 

A reconstituição de um desses espaços minúsculos faz parte do circuito proposto ao visitante nos andares de baixo, onde é possível seguir, em paralelo, a forma como o regime ditatorial se plasmou ideologicamente – aqui pode-se ver e ouvir o discurso de 1936, em que Salazar garante que a pátria, Deus, a família, a moral e a História não se discutem – em simulatâneo com uma forte arquitectura repressiva, de que o Aljube foi um eficaz instrumento.

 

Desde 1928 e até ao seu encerramento, em 1965, esta prisão serviu de depósito a dezenas de presos políticos, num movimento constante articulado com o edifício da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, onde os opositores ao regime eram interrogados.

 

Pausa, para um mergulho histórico mais longínquo: a toponímia do edifício está ligada ao nome árabe poço sem água, tendo sido prisão eclesiástica e, mais tarde, de mulheres – até as Mónicas, ali bem perto, substituírem o edifício nessa função.

 

Regresso ao século XX. No piso 2, dedicado à resistência política em nome da liberdade, ecoam os primeiros versos do hino de Caxias, escrito pelos próprios presos: “Ai Camaradas mais um passo/ Já uma estrela se levanta./ Cada fio de vontade são dois braços/ E cada braço uma alavanca.”

 

Numa parede, a luz acende-se para iluminar alguns presos que por aqui passaram. Alguns alunos de uma escola de Algés reconhecem dois rostos que já tinham visto nos manuais de História: Álvaro Cunhal e Mário Sores. Este último, como tem sido nas últimas semanas amplamente recordado, casou com Maria Barroso, por procuração, no Inverno de 1949, tendo as alianças sido trocadas durante uma das visitas permitidas às famílias dos presos.

 

O último núcleo da exposição permanente, antes de uma parede atapetada de cravos que anuncia o virar decisivo da história, é dedicado à evocação da Guerra Colonial e aos anos em que o regime se desagrega mas não dá sinais de ceder, continuando as prisões políticas cheias.

 

“Em dois meses, desde o dia 25 de Abril, já tivemos cerca de 5000 visitantes, mas estamos longe da velocidade de cruzeiro. Há pormenores que ainda temos de afinar na exposição, mas não queríamos deixar de abrir numa data simbólica. Havia uma vontade grande de começar a mostrar uma história que é de todos os portugueses”, confessa ao Corvo Luís Farinha, o director do espaço.

 

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Vista do Tejo, a partir da cafetaria do novo Museu do Aljube. 

 

Entre os pormenores a acertar, um acabará com a resistência que alguns visitantes precisam de ter para chegar à cafetaria, miradouro do último andar: em breve, o elevador estará a funcionar.

 

No piso térreo, a sala de exposições temporárias propõe a mostra “Manifestação, um direito”.

Mais informações em www.museudoaljube.pt

 

 

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