Um turista que visite Lisboa e queira encontrar as marcas que, na cidade, evocam Santo António, o santo padroeiro de Portugal, um dos mais amados de toda a cristandade, grande teólogo medieval, missionário e orador inspirado, autor de sermões em que defendia os pobres e censurava os ricos, fica desiludido.

A igreja que lhe é dedicada, construida entre 1767 e 1787 sobre as ruinas do templo primitivo, do qual só restou a cripta depois de arrasado pelo terramoto de 1755, ergue-se no mesmo local onde, segundo reza a história, se situava a casa onde o santo nasceu, em 1195, poucos metros abaixo da Sé de Lisboa. É um monumento discreto, fechado e à espera de obras, situado num pequeno largo onde, também fechado e à espera de obras está o Museu Antoniano, cuja entrada surge meio oculta no canto formado pela igreja e o renque de prédios pombalinos, na vertente voltada a Sul.

Na pequena praça, não exactamente no centro, mas mais encostada aos prédios, pode ver-se uma estátua do doutor da Igreja que foi canonizado no ano seguinte à sua morte, tal era a fama que alcançou entre os seus contemporâneos. Feita em ferro e de pequenas dimensões, esta estátua – do escultor Soares Branco, recentemente falecido, também autor, entre outras obras, do monumento a Sá Carneiro, no Areeiro, e do busto de Duarte Pacheco, que se pode ver no final do viaduto do mesmo nome – está de costas voltadas para a igreja e assenta num bloco de pedra lisa, que se esforça, com pouco êxito, para que Santo António ganhe altura e visibilidade.

O contexto em que a estátua se insere não é de molde a levar os turistas que, poucos metros acima, são despejados à porta da Sé por autocarros e pelo eléctrico 28, a tomarem consciência de que acabaram de passar pelo largo dedicado ao santo mais popular de Lisboa.
A humidade e a degradação são bem visíveis nas fachadas da igreja e do museu, e, em lugar de grande evidência, no largo em frente, estão geralmente três grandes caixotes do lixo, que, mais do que a estátua do santo, parecem fazer as honras do local.

O pedestal da estátua não seria bonito nem feio, já que é feito de pedra lisa, caso não servisse de base para as inúmeras velas que os devotos acendem em louvor do santo, cuja popularidade se deve, em grande parte, à arte que lhe é tradicionalmente atribuida para conciliar casais em desavença. As velas ardem e desfazem-se em cera, que escorre pela pedra abaixo, formando manchas suspeitas de terem origem em líquidos de  origem menos nobre.

Quando as velas, de raro em raro, são retiradas e a cera raspada, deixando manchas na pedra, um pensamento sacrílego pode ocorrer a quem contempla a base da estátua: será que alguém aproveita o precário abrigo que o monumento proporciona para aliviar as suas necessidades fisiológicas? Não, mesmo tendo em conta que Lisboa é uma cidade onde qualquer cantinho serve para esse fim, isso representaria um ultraje intolerável ao santo.

Mas, como muitas vezes sucede na vida, a realidade encarrega-se de ultrapassar a imaginação mais desenfreada, como o Corvo teve ocasião de constatar quando, há algumas semanas, viu um turista com uma criança às cavalitas e máquina fotográfica em punho, parar de apontar a câmara às portas fechadas da igreja para contemplar o homem que, mesmo ao seu lado, urinava, indiferente sua presença, em direcção a um dos caixotes do lixo.

O santo não se manifestou, habituado talvez a uma prática que não é menos intolerável pelo facto de ser habitual em Lisboa, sobretudo por parte do sector masculino da população, algo que se deve a razões de ordem física, sem dúvida, porque, em termos de educação cívica, homens e mulheres estão em pé de igualdade.

Isso mesmo foi confirmado por um novo espectáculo, a que o Corvo também assistiu, há poucos dias, cerca das quatro horas da tarde, e que foi proporcionado por uma mulher de cerca de 60 anos. Esse sim, foi de molde a fazer qualquer santo perder a compostura.
Era uma quinta-feira, o tempo estava mais ou menos seco, e na rua que leva à Sé, o trânsito automóvel e pedestre era incessante. Nada que impedisse a mulher, que aparentava pertencer à classe média, de colocar cuidadosamente a sua mala de mão em cima de um dos caixotes do lixo, levantar a saia, puxar os “collants” e as cuecas para baixo e agachar-se, a verter águas, nas barbas de Santo António e dos transeuntes.

A seguir, sem pressas, devolveu as peças de roupa aos lugares próprios, e sacudiu a saia para a libertar de eventuais salpicos.
O santo não protestou. Assistiu ao espectáculo, impotente e hirto na rigidez do ferro de uma estátua que não faz  justiça à grandeza do homem que pretende retratar. E a praça de Santo António, que só ganha algum “glamour” uma vez por ano, quando as  televisões para lá se precipitam, a filmar os casamentos apadrinhados pelo santo, lá ficou, remetida ao seu deplorável anonimato diário.

Texto:  Isabel Braga

Deixe um comentário.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com