O uso de metáforas, muitas delas de duvidosos gosto e eficácia, constitui um dos vícios maiores da linguagem contemporânea. Mas, por vezes, é difícil escapar-se-lhes. Como no caso do monumento ao 25 de Abril de 1974, existente no topo do Parque Eduardo VII. Inaugurada em 1997, a obra do escultor João Cutileiro foi, desde logo, alvo de enorme censura pública por fugir aos alegados padrões do gosto da maioria. Eram frequentes, por essa altura – que hoje nos parece remota, e em que o dinheiro abundava e escassos eram os que teciam conjecturas sobre a saúde do regime -, as piadas tendo por motivo a aparente forma fálica da escultura. O desamor pela mesma nunca se dissipou, apenas os vestígios da contestação – tal como sucedera, uma década antes, com o complexo de torres das Amoreiras, do arquitecto Tomás Taveira.

O que hoje se vê ali, para além da panorâmica generosa do local, claro está, é uma estrutura entregue a uma espécie de opróbrio envergonhado, como algo que gostaríamos de varrer para baixo do tapete, mas que, por força das circunstâncias, não podemos fazer. O sítio, apesar de procurado por muitos turistas, que ali vão para apreciar as vistas, apresenta sinais de uma confrangedora decadência, com a estagnação absoluta da água que circula entre o repuxo da peça principal e o lago artificial em redor. Em vez de fluidez cristalina, impera a sujidade em tons esverdeados. Quem ali chega expressa um ar de decepção. Os mais cínicos não resistirão em ver no estado do monumento de homenagem à revolução dos cravos, que está a comemorar 40 anos, um indício da degradação a que terá chegado o regime democrático. Porventura, será apenas uma problema de limpeza.

Texto e fotografia: Samuel Alemão

  • Paulo Bastos
    Responder

    Deviam era mandar abaixo o mamarracho.

  • Afonso
    Responder

    Eu estou no rol dos cínicos(cada vez são mais)que vê essa situação como apenas mais um exemplo entre muitos da degradação do regime.

  • Amélia Júlio
    Responder

    Lamentável !

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com