O corte de três tílias no Jardim das Amoreiras, iniciado nesta terça-feira (20 de Outubro), está a ser fortemente criticado pelos membros da Plataforma em Defesa das Árvores, que vêem na operação um “crime ambiental”. O abate das árvores, realizado por uma empresa ao serviço da Câmara Municipal de Lisboa (CML), a pedido da Junta de Freguesia de Santo António, acontece na sequência dos danos causados pelo vendaval ocorrido na noite de sexta-feira para sábado passados. O mau tempo fez com que a árvore de maior porte não resistisse às rajadas de vento, partindo-se e caindo em cima das outras, mais pequenas, que terão ficado com a sua estabilidade comprometida.

 

“A árvore grande tinha fungos no seu interior e, além disso, o piso onde estava encontrava-se remexido, logo sem a devida sustentação. Com os ventos fortes, torceu, partiu e caiu em cima das outras. Não podíamos, por isso, fazer outra coisa que não fosse o corte das árvores, que estavam a colocar em perigo a segurança das pessoas”, diz ao Corvo Vasco Morgado (PSD), presidente da Junta de Freguesia de Santo António, explicando que a situação causou ainda uns arranhões menores numa viatura ali estacionada. Não se registaram danos humanos, mas foi criada um quadro potencialmente perigosa. Foi por isso que a junta decidiu avançar para o corte das referidas árvores, por uma mera questão de segurança. Pediu então a intervenção dos serviços da CML, a quem reembolsará os custos.

 

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“Não posso arriscar numa situação destas. Não vou pôr em risco a vida das pessoas, sabendo que pode haver perigo de queda. Prefiro cortar as árvores e lidar com as críticas”, diz o autarca, ciente de que uma operação deste tipo causa sempre apreensão por parte de algumas pessoas. “Encaro isso com naturalidade. É sinal de que as pessoas estão preocupadas com a sua cidade. Mas prefiro receber um telefonema de alguém descontente com o abate das árvores, do que ter uma chamada dando conta de uma situação trágica”, afirma Vasco Morgado, lembrando que operações deste tipo são sempre sustentadas em pareceres técnicos.

 

Um argumento que não parece ser suficiente para os elementos da Plataforma em Defesa das Árvores – grupo formado, na primavera passada, por diversos cidadãos e associações, como a Associação Lisboa Verde, Quercus, o Geota, Fórum Cidadania LX, Grupo dos Amigos do Príncipe Real, entre outros, na sequência de um conjunto de podas realizadas um pouco por toda a cidade. “É muito, muito grave o que se está a passar no Jardim das Amoreiras, aquele que era um dos últimos refúgios para árvores na cidade de Lisboa, a alegada queda de um ramo não pode justificar o abate de árvores centenárias sem que se apresentem quaisquer justificações ou avisos e muito menos ser pretexto para que se abatam mais…”, lê-se num post colocado, na manhã de quarta-feira (21 de Outubro), no blogue da plataforma.

 

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No referido artigo, de apenas um parágrafo e escrito na primeira pessoa do singular – apesar de assinado pela Plataforma em Defesa das Árvores -, diz-se ainda: “Sinto uma tristeza imensa em viver numa cidade que nada faz para evitar crimes ambientais destes, e lamento que os moradores daquele jardim permitam atrocidades destas. São afinal eles também responsáveis pelo que se está a passar”. Mas um dos moradores de um rés-do-chão situado mesmo em frente a uma das árvores, ontem ouvido pelo Corvo, dizia concordar com o abate. “Quem faz essas críticas devia cá estar quando o vento derrubou a árvore”, afirmou, dizendo que os moradores se sentem agora mais seguros.

 

A forte contestação às operações de poda e corte do arvoredo levadas a cabo, na primavera passada, pelas juntas de freguesia – agora com competências nessa área, na sequência do processo de descentralização de competências -, mas também pela CML em alguns casos, originou não apenas o nascimento da plataforma como uma promessa de alteração de procedimentos neste campo por parte da câmara. O novo Regulamento Municipal do Arvoredo de Lisboa esteve em consulta pública até 30 de Setembro e deverá ser, em breve, conhecida a sua configuração final. Uma primeira versão havia sido levada a discussão camarária e retirada por não ter sido sujeita ao parecer das juntas de freguesia.

 

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O projecto do regulamento sujeito a discussão pública prevê que as operações de abate, transplante ou outras que possam vir a fragilizar a árvore sejam sempre alvo de parecer vinculativo da CML. A excepção a tal obrigatoriedade surge face a “árvores que representem um risco para pessoas e bens atento o seu estado de conservação fitossanitária”. Aí, as juntas de freguesia poderão sempre invocar tratar-se de uma emergência e procederem ao corte. Apesar de o regulamento não estar ainda em vigor, a intervenção agora realizada pela Junta de Freguesia de Santo António no Jardim das Amoreiras poderia ser justificada ao abrigo deste regime excepcional.

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Almerinda Pereira
    Responder

    🙁

  • Sofia Moreira
    Responder

    Gente triste

  • Tuga News
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    [O Corvo] Abate de tílias no Jardim das Amoreiras é um “crime ambiental”, dizem activistas https://t.co/wju4jLOzPx

  • Paulo Ferrero
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    O mais giro, giro, é ouvir os digníssimos sujeitos a dizerem coisas como: “eu não vou cumprir o regulamento”. Já é tempo da CML ver a asneira que foi sacudir a água do capote e recuperar as competências ou então, muito simplesmente, considerar jardins como o presente e outras artérias importantes da cidade como estruturantes, que já chega disto.

  • Rosa
    Responder

    “A árvore grande tinha fungos no seu interior e, além disso, o piso onde estava encontrava-se remexido, logo sem a devida sustentação. Com os ventos fortes, torceu, partiu e caiu em cima das outras. Não podíamos, por isso, fazer outra coisa que não fosse o corte das árvores, que estavam a colocar em perigo a segurança das pessoas”, diz ao Corvo Vasco Morgado

    Há tanto mais para ser explicado nesta declaração do Presidente da Junta responsável pelo Jardim das Amoreiras: Que fungos tinha a árvore e porque é que uma árvore desta importância patrimonial (“árvore grande” como lhe chama o autarca) não era monitorizada e não foi tratada? Porque é que o piso se encontrava remexido? Torceu, partiu e caiu!? Ou tinha fungos que a fragilizaram?
    Não se podem tomar imponderadamente decisões radicais e irreversíveis, como abater árvores centenárias, o medo e a insegurança não podem ser a justificação. Esta reacção da Junta de freguesia foi uma fuga para a frente desastrosa. Podiam fazer outra coisa, sim! Mas tinham de ter parado para pensar um bocadinho nas importância das árvores.

  • Inês B.
    Responder

    Eu gostava de saber quantas pessoas morrem por ano em Lisboa devido a queda de árvores? Em contrapartida, quantas morrem atropeladas, sem que ninguém se lembre de proibir a circulação de carros? O abate de árvores centenárias faz-se com justificações simplórias e nada científicas. Resta repetir: Porque tinha a árvore fungos? Porque é que o piso estava remexido? Estas são as perguntas que não só munícipes, mas jornalistas deviam pôr-se e pôr aos presidentes de Junta dessa Lisboa. Isso, sim, era serviço público.

  • Rosa Casimiro
    Responder

    Até quando vamos aceitar que razões tão irracionais como o “medo das árvores” sejam justificação para as abater e mutilar?

  • Rosa Casimiro
    Responder
  • Rosa Casimiro
    Responder

    “O risco anual de um indivíduo ser morto por uma árvore é de 1: 10.000.000 (ou seja, 6 mortes por 60 milhões capita da população)
    Dados da HSE (Health, Safety, and the Environment ) atestam que as pessoas consideram um risco de «uma morte em um milhão”, como insignificante ou trivial na sua “vida diária ou normal».”

  • Rosa Casimiro
    Responder

    Infelizmente não conheço nenhum estudo feito em Portugal sobre este tema mas os valores não devem variar muito.

  • Isabel T. Sousa
    Responder

    Abate de tílias no Jardim das Amoreiras é um “crime ambiental”, dizem activistas https://t.co/nyQ44uzo2g

  • Paulo Ramos
    Responder

    CML em grande o mesmo se passou no Alto Ajuda S. Amaro

  • Vasco Duarte
    Responder

    Tal como refere o sr. Paulo Ramos, também no jardim do Alto de Santo Amaro se repetiu exactamente o mesmo princípio, pelas mesmas razões: cai um ramo de uma árvore que provoca estragos num automóvel? Corta-se indiscriminadamente os que resistiram.
    O que fizeram no dia de ontem no jardim do Alto de Santo Amaro, “É a melhor forma de acelerar a morte das árvores. Isto é um crime da ignorância e da incompetência. Isto é um desprezível acto administrativo”. Afirmação peremptória de um licenciado de agronomia.
    A ordem da técnica (da CML? da Junta de Freguesia de Alcântara? Ambas as entidades quando contactadas se escusaram da responsabilidade) que deveria ter dado assistência, mas que se ausentou foi: Libertem peso das árvores!
    Mas a máquina que efectuou o serviço ainda por lá permanece estacionada,
    parece que o abate ainda vai a meio…

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