Sentado num banco virado a nascente no inicio norte da alameda conhecida por Parque Eduardo Vll, com a bicicleta encostada na sombra do muro que faz face à  Estufa Fria, olho uma vez mais o monumento que a CML encomendou ao João Cutileiro para evocar os 25 anos do 25 de Abril

Constato em mim um paradoxo: quanto mais olho e vejo nele o que me desaponta, mais me agrada olhar o que nele me desaponta. É certamente um mistério circular que se resolve em nós .

Aberto a todos os trânsitos, parto para as pedras em busca da sua decifração.

O monumento submete-nos à evidência inicial de um gesto demolidor.

Com a energia rara de quem não hesita em mudar o rumo da locomotiva em marcha vigorosa, assim a evocação se atira ao destino anterior, escavacando a céu aberto a pedra de poiso. Que, sem sucesso, esperou a vinda do Condestável. Escavacar, vê-se na explícita atitude de fazer ruir, de esboçar o intento de não deixar pedra sobre pedra, até ficar bem à vista a pedra que alicerça em nós a inefável presença de um passado.

Espreito o plano de água onde jazem submersas e desgarradas algumas pedras. Podem ter-se desprendido na voluntariosa acção de transformar um pedestal em vestígio. Ou, simplesmente, registar o silencioso testemunho do que tomba quando se assume o exercício arriscado de evocar, levantando pedras do chão.

Um cravo jurássico (mais que quaisquer  nenúfares) emerge solitário e simbólico bem acima das águas e, despojo intacto de alguma pompeia ignota, duas colunas de mármore liso e branco dão-se como pórtico imperfeito às vistas que descem da cidade até ao rio..

Mas apontemos a narrativa ao centro do escândalo.

De pedras sobre pedras (13 se contei bem) se faz a erecção, mas logo se acreditará que não fora o poder das cinco escoras de sustentação em escala só pouco maior que a do Portugal dos Pequeninos e tudo seria dado à queda humilhante. Visto um pouco de longe, o monumento insinua-se assim como foguetão de mármore róseo que, incapaz da explosão comandada que o lançaria no Universo, se limita a despertar o sorriso dos reverentes turistas japoneses que vão descobrindo sem indagar como um foguete que ameaça partir mas nunca voará se traveste em um falus que ejacula mas não fecunda.

 Sem dúvida, pensam, há neste repuxo a vitoriosa construção de uma ruína.

A água, essa, por instantes, liberta pelo vento, voltará a cair no lago. Ou longe. E descoberta a queda como destino, não esgotará nisso o que o monumento comemora.

Luís Lobo

Luís Lobo
Ilustração: Sofia Morais

Comentários
  • Rui Andrade
    Responder

    DE ruína em ruína até á vitória final… vamos lá a deixar aqui as crónicas das bicicletas!

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