Crónica

As férias correram bem, ninguém se magoou, não houve intoxicações alimentares, nem excesso de sol, os elementos mais novos da família não lamentaram ter que trabalhar para sustentar as pensões dos mais velhos, que também não desfiaram demasiadas recordações de juventude… Mas o que estou para aqui a dizer? Somos uma família bem educada, conseguimos conviver sem atritos. Estou a falar das férias e apenas consigo lembrar-me de desgraças e chatices que foram evitadas, não das coisas boas que aconteceram. Sinal de que a minha fasquia está muito baixa em termos de expectativas, agora, para ficar contente, não preciso que me aconteça nada de novo, basta-me conservar aquilo que tenho, o dinheiro da reforma, uma boa noite de sono, uma articulação que funciona bem. Triste, mas é assim. Vou voltar ao propósito deste texto, contar a surpresa que tive no meu regresso de férias.

 

Depois de uma viagem cheia de sobressaltos, com filas intermináveis de trânsito que parava sem razão aparente, obrigando a muitas travagens inesperadas, entrei na ponte 25 de Abril e, por momentos, esqueci até que ia precisar de descarregar o carro, atulhado até ao tecto, numa rua onde talvez não houvesse lugar para estacionar. A cidade a espreguiçar-se nas margens do Tejo, branca e luminosa, surgiu, lindíssima, e assaltou-me por momentos aquela sensação que sempre tenho ao ver Lisboa do rio, de que sou uma privilegiada por viver aqui.

 

O sonho durou pouco, bastou-me chegar a casa para ser confrontada com a dura realidade que tinha esquecido durante algumas semanas, não há lugares para estacionar quando se vive numa zona central da cidade apreciada pelos turistas e, consequentemente, invadida por todos os que vivem a vender-lhes coisas e serviços. Como eu temia, foi preciso ficar à espera que alguém atingisse o “plafond” do cartão de crédito e abandonasse as compras ou se lembrasse de que tinha que ir passear o cão para deixar vago um lugar de estacionamento.

 

Vá lá, não demorou muito. Uma vez arrumado o carro, mãos à obra, toca a descarregar o automóvel cheio de inutilidades – as férias também servem par uma pessoa constatar que não precisa nem de um décimo das coisas de que vive habitualmente rodeado. A vontade de deixar metade junto do caixote do lixo é imensa, só contrariada pela ideia de que seria muito incivilizado abandonar lixo por separar, incluindo roupas que podiam servir a alguém necessitado. Um pensamento sensato, depois de alguns momentos de descontrolo.

 

Vencidos os muitos degraus até à porta de casa, que foi preciso subir e descer várias vezes, e uma vez as malas esvaziadas e a máquina de lavar a acabar o quinto programa, é hora de respirar fundo e descontrair, com uma cervejinha fresca a ajudar. Vamos lá a sentar na varanda e apreciar Lisboa que – sem segundos sentidos – se estende aos meus pés, do Rossio ao Castelo. Castelo…

 

Disse “castelo”? Mas onde está ele, o Castelo de São Jorge? Deixei de conseguir ver por completo aquele perfil de ameias, aquelas paredes que mudam de cor com as horas do dia e que, há décadas, presidem ao meu pequeno-almoço, almoço e jantar, testemunhas de muitos cigarros furtivos fumados à varanda, de noites tristes e alegres. Depois de esquadrinhar o horizonte, acabo por percebê-lo escondido atrás dos andaimes de uma obra iniciada há meses atrás do prédio onde vivo, cujas paredes subiram imenso na minha ausência.

 

Quando a obra começou, é um facto que receei que a paisagem de que usufruo há anos tivesse os dias contados, lembrando-me da senhora velhinha a quem comprei a casa nos anos 80, que lamentava que dela já não se pudesse ver o Tejo, por causa de um prédio gigante, nas nossas traseiras, construído, dizia ela, por “retornados de África”.

 

Nunca avistei o rio da minha janela, imagino que odiaria ter deixado de o ver, mas habituei-me ao castelo e não consigo conformar-me com o que considero ser um rude golpe na minha qualidade de vida. Por isso, fui até ao estaleiro da obra, tentar perceber quanto esta iria crescer ainda, a que se destinava, e quem era o dono, para eu poder odiá-lo, já que não há nenhuma lei que proíba uma pessoa de tirar a paisagem ao próximo.

 

As letras do letreiro que encontrei com o número do alvará de construção e outros pormenores relativos ao futuro edifício estavam sumidas, por isso falei com um operário, que tentou tranquilizar-me, garantindo que as paredes iam ficar por ali, não iam subir mais. Tal como estão, já me estragam a paisagem, argumentei, com a boa disposição que trazia das férias já um pouco abalada. O meu interlocutor não pareceu nada comovido com este argumento e também nada tinha a dizer sobre o dono da obra. “Só sei que é português”, explicou. E para que vai servir o edifício? perguntei ainda.

 

“Mas para que havia de ser!!!? Vai ser um hotel!”, disse o operário, voltando-me as costas, com ar de que me considerava uma completa idiota.

 

No regresso a casa, avistei o eléctrico reservado a turistas que anda quase sempre vazio, num triste vaivém, entre o Chiado e o Príncipe Real. A minha irritação aumentou. Ainda bem que não me cruzei com nenhum estrangeiro de mapa na mão a perguntar-me se falava inglês ou francês, e como é que se vai para o Rossio. Teria respondido que não, não falava nada e não sabia de caminho nenhum.

 

 

Texto: Isabel Braga                Fotografia: Fernando Faria

 

  • Sónia Vica
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    Lastimavel mas a gentrificacao ja comecou a muito em Lx.

  • Jorge Parente Baptista
    Responder

    É o futuro hotel Memmo Principe Real.

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] A vista do Castelo de São Jorge está a desaparecer da minha varanda! http://t.co/JePResCn8p

  • Mário Pereira
    Responder

    Passo lá por vezes e ultimamente não tenho visto ninguém a trabalhar, será que embargaram as obras ?

  • SUELI
    Responder

    bom dia,
    verifique se o prédio está a 1,5 metros da sua varanda. Consulte o ARTIGO 1360º (Código Civil
    LIVRO III – DIREITO DAS COISAS
    TÍTULO II – Do direito de propriedade
    CAPÍTULO III – Propriedade de imóveis
    SECÇÃO IV – Construções e edificações
    ———-
    Artigo 1360.º – (Abertura de janelas, portas, varandas e obras semelhantes)
    )

  • JMF
    Responder

    Acontece…
    Quando se vive em cidades as vistas vão-se alterando já que, felizmente, não são propriedade individual de cada um e é exactamente o dinamismo a caracteristica principal das mesmas… chama-se, pelo menos no resto do mundo, fazer cidade!
    Já agora gostaria de fazer um outro pequeno comentário. Surpreende-me bastante o tipo de “obsessão colectiva” que se está a desenvolver, alimentada pelos “velhos do Restelo” (que os há, há!!), sempre contra o progresso, fomentando a cada oportunidade que se preste o terror da mudança que nos é tão próprio… neste caso o crescimento do turismo! Essa praga avassaladora que se apodera sem dó nem piedade da nossa cidade!!…
    Naturalmente que o desenvolvimento turistico terá que ser regulado, e regularmente repensado e avaliado e as infraestruturas modernizadas e melhoradas , e haverão com certeza áreas da cidade que atingirão saturação antes de outras. Mas, inegavelmente, o crescimento turistico é uma mais valia para a nossa cidade e terá ainda muito que expandir. Lembremo-nos, como exemplos a ter em conta, que fomenta o emprego e a riqueza, promove a creatividade, as novas industrias e a inovação e promove e financia a reabilitação urbana. Causa algum transtorno? Sim claro, porque impõe mudanças! De atitudes e de comportamentos, de hábitos enraizados. Não creio contudo que isso seja negativo para Lisboa, esta nossa cidade adormecida, asfixiada e mole durante décadas, por falta de dinamismo, de ideias, de investimento, de ambição!
    Basta entrar nas antigas lojas, mercearias e restaurantes da Baixa ao Castelo, do Bairro Alto à Bica, da Mouraria a São Bento, da Estrela ao Principe Real, ao Chiado, à Madragoa, a Belém e por aí fora, moribundas durante décadas, devido ao abandono a que nós, lisboetas defensores de vistas e subitamente também defensores da utópica cidade genuina, as votámos em troca pelo modernismo dos hipermercados e centros comerciais, para se notar uma nova vida, uma nova motivação de quem delas depende para viver, um novo cosmopolitanismo, uma nova dinâmica! Bastará entrar nas novas lojas nos mesmos bairros para percebermos o dinamismo, a inovação, a criatividade e a ambição dos novos proprietários e investidores! Basta que se observe o movimento nas ruas, ruelas, praças e jardins até recentemente abandonadas e tristes, sem vida, sem esperança, sem alma…
    Lisboa renasce, reinventa-se, renova-se! Está mais viva, mais alegre, mais cosmopolita, mais Lisboa!
    Tenham paciência que o progresso não pode parar!!!!

  • Jorge Pinto
    Responder

    Belo texto, Isabel. Espero que as tais paredes não subam mais.

  • Helena Galamba
    Responder

    É mesmo verdade que as vistas podem ficar tapadas por prédios e sem consequências?

  • Nuno Cândido Vieira
    Responder

    Não deixa de ser curioso constatar a contínua proliferação deste tipo de empreendimentos numa cidade onde a taxa de ocupação média dos hotéis pouco supera os 50% (54,20% para ser mais exacto). Não obstante, ainda que a totalidade fosse atingida, seria imprescindível um aprofundado estudo que permitisse aferir qual a oferta máxima hoteleira pode a cidade ter, antes de termos uma metrópole subjugada ao turismo de massas, sem qualidade de vida, quer seja para os seus (poucos) residentes, quer seja para os seus visitantes. Para quando a falência de muitos destes empreendimentos, criando um cenário onde vários edifícios com uma volumetria construtiva que nunca deveria ter sido autorizada, jazem abandonados? Não deveríamos ter já retirado lições dos índices de edificabilidade criminosos, que podem ser observados por todo o território Algarvio? Não constituirá um dos principais argumentos a favor de Lisboa, o facto desse cenário (ainda) não se verificar?

    • JMF
      Responder
    • JMF
      Responder
    • Inês B.
      Responder

      Estudos da PWC ahahahahahahahahahaha…faça um favor a si próprio e vá ver o que Camões quis realmente dizer com o “Velho do Restelo”.

  • JMF
    Responder
  • Ricardo Peres Dias
    Responder

    E o prédio da senhora, não está a tapar a vista de outro?

  • Vasco
    Responder

    Essa foto não é muito esclarecedora. É preciso ter conta o terreno em questão e que tipo de prédios existem adjacentes.

  • joao
    Responder

    Reabilitar, manter a traça antiga, não porque bloqueia vistas, mas para manter a cidade…fazer da cidade uma cidade intemporal…os edifícios muitos já existem, façam deles outras coisas, esta coisa da reabilitação não é apenas fora com o velho e venha o novo
    Existem tantas formas de crescimento, e hoje já deveríamos saber que um dos pilares da condição humana é o seu “castelo”, ie a sua casa!…Uma coisa é a lei, outra a ética, uma o desejável e outra bem diferente o que conseguimos obter que é quase sempre o que resta da ganância dos outros!
    Aumentar volumetria só porque sim, e o promotor do hotel conhece alguém, que é primo ou casado com alguém que sabe de alguém que no final é amigo de alguém…isto nunca mais acaba…hehehe…falta é informação, de porque motivo é assim…mas muita informação mesmo…
    Hotéis infelizmente ou felizmente são necessários. Agora o relatório da Pwc nada diz, pois faltam dados como o crescimento previsto de turistas, em que medidas estruturantes se apoia esse crescimento, etc…O turismo possui muito espaço de crescimento em lisboa, falta desenvolver muitas formas de turismo, a para isso é preciso camas, e depois vêm muitas coisas mais.
    Tal como falta medidas para equilibrar o crescimento do turismo com a vida diária dos poucos não milionários que ainda vivem em Lisboa e dos que cá trabalham enfrentando filas, e estacionamento de rir, e transportes públicos anedóticos…

  • Vasco
    Responder

    O título da notícia nem é mau de todo: «a vista está a desaparecer da minha varanda». Sinal de que ainda existem varandas! Da forma como as coisas andam o título muito bem poderia ser: «a vista está a desaparecer da minha marquise».

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