Quem a veja, não lhe dá a idade que tem. Parece uma menina, corpo franzino, poses de bailarina, com 87 anos. Mantém o espírito curioso de uma criança e a vivacidade de uma adolescente. Ainda corre mundo nas ruas da Baixa, onde já mora há muitos anos. Abriu as portas de casa ao Corvo e contou histórias de uma vida atribulada e aventureira.

 
Texto: Fernanda Ribeiro           Fotografia: Carla Rosado

 
Dentro da casa que já era de seu pai, um terceiro andar de um prédio antigo da Rua dos Fanqueiros, reina a arrumação. As janelas da sala estão abertas, deixando entrar a luz da manhã. Não se pensaria que Maria Clotilde pudesse ali viver sozinha, com a idade que tem. Mas já há dois anos que assim é. O marido, embora fosse mais novo, morreu e Maria Clotilde, agora com 87 anos, gosta de manter tudo em ordem, como antes. Não quis ir viver com a filha em Brejos de Azeitão e preferiu manter o seu cantinho, na Baixa, onde morou boa parte da sua vida.

 
“Nasci na Rua Cidade de Cardiff, mas as 14 anos vim morar para a Rua dos Fanqueiros. Saí para casar, depois enviuvei e vim para cá outra vez. Estive três anos. Até que casei de novo e fui para África, para Lourenço Marques, em Moçambique. O meu marido era de lá”, explica.

 
Na sala há retratos de quase toda a família, que hoje está repartida pelos quatros costados: um neto, que é médico, na Cidade do Cabo, África do Sul, uma neta na Austrália. Apenas a filha vive em Portugal, em Brejos de Azeitão, onde Maria Clotilde passa os fins de semana.

 
“Ela não gosta que eu esteja sozinha e eu passo lá os fins-de-semana. Vou à sexta, apanho barco do Barreiro e o meu genro vai-me buscar à estação. Depois volto segunda-feira de manhã e faço o mesmo percurso. Ele deixa-me no barco e eu saio na estação de Sul e Sueste”, diz esta mulher que, aos 87 anos, ainda sobe e desce escadas com facilidade e corre mundo nas ruas da Baixa.

 
Teve uma vida que mais parece saída de uma roleta russa. E poderia ter sido muitas outras coisas, ter estudado muitas outras artes e ter tido outra profissão. Mas quando o pai enfrentou problemas financeiros, ela teve de deixar o liceu, para que o seu irmão mais velho pudesse prosseguir estudos. Passou a frequentar a escola politécnica onde tirou um curso que lhe deu habilitações para ser professora de economia doméstica. Essa tornou-se a sua profissão.

 
E parece ter tirado proveito nos ensinamentos. Tem a casa num brinco. À medida que vai mostrando ao Corvo as várias divisões, vêem-lhe à memória histórias de períodos bons e maus da sua vida.

 
“Quando era criança, gostava muito de subir as escadas a dois e dois”, conta. Agora já vai com mais calma, mas ainda as sobe mais do que uma vez por dia. A receita para tal jovialidade Maria Clotilde não a saberá dar, porque se há coisa que não teve foi uma vida fácil. Os acidentes de percurso foram duros e pesados. O pior foi a morte do filho, de 11 anos, num acidente de automóvel, que a deixou a ela às portas da morte, sem conseguir andar e com amnésia durante vários meses.

 
Foi depois disso que conheceu Gustavo,  um moçambicano por quem se apaixonou, mal recuperou a saúde e com quem casou. “Sai do hospital em Dezembro e em Abril casei-me. Foi um grande cheque em branco que eu lhe passei”, conta. Mas acha que valeu a pena correr o risco. “Com ele tive uma vida feliz”, diz, de sorriso aberto.

 
Em toda a sua vida de casada, apenas esteve separada de Gustavo durante seis meses. Viveram em Lourenço Marques até à independência. Ele era um moçambicano branco. E ambos receberam ordens para abandonar o país em 24 horas. “Caso contrário, disseram-nos, iam a casa prendê-lo”. Fugiram. Primeiro foram para a Rodésia, depois para a África do Sul e por fim Portugal.

 
Até hoje, Maria Clotilde guarda essa mágoa de ter tido que fugir de um lugar que amava. “Vocês gostam muto do 25 de Abril não é? Pois eu não. Tive de abandonar o lugar onde era feliz”, faz questão de dizer. “O meu marido é que nunca se adaptou a Portugal e voltou para a África do Sul. Mas em toda a nossa vida só estivemos separados seis meses, porque eu acabei por ir ter com ele”, conta.

 

Foi lá que o marido começou a sofrer do coração e a ter problemas que, em 1980, o obrigaram a uma intervenção cirúrgica. “Foi operado pelo Dr. Barnard (Christian Barnard, médico sul-africano que em 1967 fez o primeiro transplante de coração). Ele disse-lhe que ele podia ficar descansado, porque durante 20 anos não iria ter problemas”. E, de facto, o célebre “Dr. Barnard não se enganou”, assinala Maria Clotilde: “o meu marido esteve bem até ao ano 2000”.

 
Maria Clotilde sente falta de Gustavo, isso sente-se quando fala dele, até lhe brilham os olhos. Mas não é chorosa, nem faz coros de lamentos. Parece que tudo na vida, para ela, é superável. Uma destemida, em corpo franzino, que ainda abre as portas da sua casa a quem a queira conhecer, uma mulher excepcional.

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