O cinema King fechou mesmo. A intenção do programador Paulo Branco já havia sido anunciada no início do mês. E ontem concretizou-se. Mais um a juntar-se aos muitos que encerraram nas últimas duas décadas em Lisboa. Há dois anos, fechara o Saldanha Residence – do mesmo empresário. Há uns meses, fora o histórico Londres. Mas o King, sabiam-no os cinéfilos, era diferente. Pelo menos para aqueles que viam no cinema algo mais, uma coisa diferente de um produto normalizado. A curiosidade em descobrir obras distintas levou gerações a rumar ao trio de salas do King. E muitos nelas cozinharam uma parte significativa da sua afeição ao cinema, como o autor destas linhas, que ontem assistiu a uma das últimas sessões, “Eu e tu”, de Bernardo Bertolucci.

Apesar da discreta romaria, com muitas pessoas a irem despedir-se do local onde tinham passado tantas horas da sua vida e do qual guardam as melhores memórias, havia no ar um sentimento de resignada compreensão pela inevitabilidade do fecho das salas. É que o King dos últimos tempos, na verdade, já não era o mesmo de há uns anos. As salas cheias, as filas para comprar bilhete, a livraria da Assírio & Alvim e a cafetaria repletas eram já só memórias. O King tornara-se um local soturno e sombrio. Deixámos de ver pessoas, o silêncio ganhou cada vez mais espaço. A vitalidade e o entusiasmo haviam saído dali. O definhamento foi-se acentuando, como que num lento fechamento ao mundo exterior. Uma tristeza solene. Havia sessões com muito poucos espectadores.

Isso não é necessariamente mau para quem vê – algumas das mais memoráveis experiências cinéfilas tive-as em salas às moscas. Mas é-o para quem exibe um filme, porque o cinema também é um negócio. E ele não tem andado nada bem, com os números de espectadores sempre em queda, nos últimos anos, no mercado nacional. A crise pode explicar apenas parte da situação. O desinteresse e a preguiça das pessoas, que preferem ficar em casa a olhar para um ecrã ou deixarem-se contamiar pela massificação do gosto em salas que apenas passam “o que está a dar”, ajudarão a completar o quadro. Num mundo cada vez mais normalizado, fazem falta salas como as do King. A cidade já não é a mesma. Ficam as memórias, como sonhos em celulóide.

 

Texto e fotografia: Samuel Alemão

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