Um frenesim constante. Mesmo a horas em que seria de supor o contrário. Os vizinhos de um ginásio da Avenida Almirante Reis, junto à Alameda, andam com os nervos em franja. Por causa do deficiente ou inexistente isolamento acústico, têm passado horrores. A boa-forma e a saúde de uns custam as dos que vivem ao lado. Os donos do negócio prometem resolver o assunto. Mas o tormento dos últimos dois anos já ninguém pode apagar. Um caso paradigmático da dificuldade em aplicar a Lei do Ruído na capital.

 

Texto: Samuel Alemão

 

De início, foi um sobressalto. “Acordámos às sete da manhã, logo na primeira noite que aqui dormimos, com a música bem alta e ficámos sem perceber de onde vinha. Pouco depois, ouvimos pesos a cair”, descreve Maria (nome fictício), 31 anos, lembrando aquela manhã de Julho de 2013 em que uma massa sonora irrompeu pelo quarto onde ela e o companheiro descansavam pela primeira vez, depois de terem encontrado a casa que viam como a perfeita para uma nova fase da sua vida. “Só podia ser do ginásio, percebemos logo”, diz a moradora da cave do 168 da Avenida Almirante Reis, entre a Praça do Chile e a Alameda Dom Afonso Henriques.

 

Desde então, Maria pouco tem dormido. E isso percebe-se pelo ar cansado e o sublinhado das olheiras desta técnica informática e música, que prefere manter o anonimato. Tanto ela, como os vizinhos do piso de cima (rés-do-chão), o casal Mário João e Ana Rita, bem como um morador do primeiro andar do 174, têm sentido um incómodo crescente com a actividade do ginásio da cadeia Time do Fitness 24, a funcionar 24 horas por dia no rés-do-chão do 172, desde o início de 2013. A persistente massa sonora dali emanada passou a dominar a existência destes inquilinos, a ser assunto quotidiano de conversa.

 

Têm sido dois anos de perturbação, ao ritmo das músicas que saltam das colunas da instalação sonora do estabelecimento e do ruído causado pelo exercício físico dos seus clientes. Situação confirmada por inspecções camarárias e que poderá agora ser corrigida, se as obras que a administração da rede de ginásios entretanto encetou surtirem efeito. Outras intervenções no sentido de minorarem o barulho pouco ou nada resolveram. Mesmo com tal promessa, Maria pensa já em avançar para uma queixa judicial.

 

O calvário desta mulher e dos vizinhos tem-se vindo a agravar, à medida do aparente sucesso comercial do ginásio. Um cenário de desconforto construído laboriosamente, sempre em crescendo, tal como o ritmo de desempenho desportivo de um atleta é precedido por uma fase de aquecimento e depois, de forma gradual, sujeito a aumentos da dose de esforço. Até se atingir a velocidade de cruzeiro – e a aparente saúde de que hoje goza o ginásio, observável pelo número de praticantes que, a partir do exterior, se podem ver lá dentro.

 

“Às vezes, parece que tenho um cavalo a entrar pelo quarto”, queixa-se Maria, referindo-se ao que, percebeu depois do primeiro choque, era o som produzido pelo passo mais vigoroso de um indivíduo encorpado sobre a passadeira rolante em que realizava o exercício de corrida. Era e continua a ser. Com consequências sobre a saúde. Tanto que Maria sente estarem agravar-se, a cada dia exposta ao ruído do ginásio, aqueles que começaram por ser ténues sintomas de stress.

 

“Sinto que estou a ser sujeita a uma tortura do sono. Não consigo dormir mais do que três horas por noite”, relata, fazendo notar que nessa tentativas de repouso, muitas vezes frustradas, tem de usar tampões para os ouvidos. O resultado dessa prolongada privação de repouso nocturno, e da tensão emocional daí decorrente, ainda assim, não ganha sobre a determinação de Maria em morar na casa onde escolheu viver com o companheiro.

 

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Mário João aponta a fenda na parede causada pelas vibrações vindas do ginásio.

 

Mas faz mossa, como é evidente. “Começo a experimentar falhas de memória, tenho insónias, perco a concentração facilmente. Por isso, estou a pensar ir a uma consulta de neurologia”. O que já era grave para qualquer pessoa torna-se ainda mais incomportável para alguém que tem de lidar, todos os dias, com situações profissionalmente muito exigentes e de enorme importância.

 

Também Mário João (35 anos), do andar de cima, tem de recorrer ao bloqueio dos ouvidos a cada vez que se deita para repousar. “É horrível, nunca conseguimos dormir como desejamos. A casa está, quase sempre, sujeita a trepidações, por causa da música, dos aparelhos ou dos ares condicionados”, enumera este morador do 168, para onde foi viver em 2009. Muito antes de suspeitar que, ao lado, no 172, iria existir um ginásio, que o sujeitaria a regimes de vigília.

 

Na altura, estava ali instalada uma agência bancária do Banco Santander. Mas a mesma encerrou em finais de 2012. Logo início do ano seguinte, começaram as obras nessa fracção. “À porta, até costumava estar um carro de matrícula sueca, o que nos chamou a atenção. Fomos perguntar, por curiosidade, o que iria ali instalar-se e disseram-nos que era um ginásio”, recorda Mário, lembrando o contacto tido na altura com o empresário sueco que decidira ali abrir uma das lojas da sua cadeia de ginásios. “Coisa que, de início, até não nos pareceu mal”, acrescenta.

 

Por volta de Fevereiro ou Março de 2013, abria então o novo estabelecimento, na altura com a designação comercial “Workit24h”. Não foi preciso esperar muito para começar a ter dúvidas sobre a nova vizinhança. “Logo no início, ligaram as colunas com a música bem alto. Fomos lá e confrontámo-los com o incómodo que tal situação nos causava, mas a resposta que obtivemos foi uma pergunta irónica. ‘Então, não gostam deste tipo de música?’. Vimos logo que iríamos ter problemas”, rememora Mário.

 

Tal começo de relacionamento, por estranho que agora, há distância de dois anos, possa parecer, estava ainda longe de deixar adivinhar o que aí viria. Até porque, admite o morador da Almirante Reis, apesar de uma certa verve irónica, o dono do ginásio “sempre foi uma pessoa acessível”. Um traço de carácter que, asseguram os outros vizinhos queixosos, é comum aos seus empregados. Ou seja, são sempre muito simpáticos, mas as dores de cabeça causadas pela actividade atlética confinada aquelas paredes nunca cessaram. Muito pelo contrário, têm-se intensificado.

 

Uma realidade confirmada por José Mendes, 49 anos, residente no 1ºC do 174, há duas décadas. “O barulho tem-se agravado. Isso deve ter que ver com o facto de eles terem vindo a angariar novos clientes”, diz o morador, que se queixa do ruído causado pelos exercícios feitos pelos clientes do ginásio agora denominado Time to Fitness 24. “Sente-se claramente as pessoas na passadeira”, afirma. Quem mais sofre, diz, serão as suas duas filhas, em idade escolar, pois a parede do quarto delas está encostada à zona onde funcionam aqueles aparelhos de manutenção física – dos quais acaba por funcionar como câmara de eco.

 

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José Mendes diz-se desgastado com a permanência do ruído junto às paredes da sua casa. 

 

Ao contrário dos outros, porém, José Mendes só mais tarde começou a ter razões de queixa do ginásio. “Inicialmente, até achava piada. Nos primeiros meses, não me apercebi de nada. O problema foi quando começou a vir mais gente. Começámos a ouvir barulhos estranhos à noite. Percebemos, depois, que eram as pessoas em cima das passadeiras”, explica este empresário, que, sempre que pode, tentar escapar-se para uma segunda habitação, noutro local, para não ter de aturar o incómodo.

 

“Logo de início, quando me apercebi que isto se estava a passar, fui lá falar com eles. Entretanto, desde aí já lá fui mais de uma dúzia de vezes, tive sempre a promessa que iam resolver esta caso, mas fica sempre tudo na mesma. As melhorias nunca se fizeram sentir”, explica. E faz notar que, em diversas ocasiões, se deu ao trabalho de “às duas, três, cinco da manhã, entrar no ginásio para sensibilizar os utilizadores que lá estavam para o incómodo que estavam a causar. “Alguma coisa tem de ser feita , eu e a minha família estamos desgastados”.

 

Do mesmo se queixam Mário João, a companheira Ana Rita, e Maria e o companheiro. E Mário até admite que, quando o ginásio começou a funcionar, se inscreveu nele. Isso mesmo. Se a ideia de ter um local para fazer desporto ao pé de casa era agradável, numa primeira fase, ela rapidamente se converteu numa visão utilitária. “Como associado, podia entrar ali a qualquer hora e, assim, baixar o volume da música”, explica. Uma espécie de sabotagem legal. Algo que, aparentemente, se mostrava viável, porque, nota, havia pouca gente no ginásio.

 

Mas a tormenta sonora foi-se apoderando da vida de Mário. Até ao ponto de causar mossa na sua qualidade de vida. “Pedíamos constantemente para baixar o som. E, sempre que falávamos com as pessoas, diziam-nos que iriam tratar do isolamento acústico”. Algo que, a ser feito, nunca sortiu o efeito que seria desejado por parte de quem estava sujeito ao ruído. Surgiram então as queixas à PSP, que se afirmava impotente ante tal situação, e também à Câmara Municipal de Lisboa (CML), através do sítio “Na Minha Rua” – instrumento ao qual recorreu também Maria, a vizinha da cave, depois de se queixar à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE).

 

Na sequência das queixas, a Direcção Municipal de Ambiente Urbano (DMAU) avançou com avaliações acústicas nas duas casas, em ocasiões distintas. E concluiu pela razão dos queixosos. Em Outubro passado, a DMAU intimava os responsáveis pelo negócio gerador de incómodo para que, num prazo de 30 dias, realizassem as correcções acústicas necessárias para pôr cobro à situação de incómodo que têm vindo a causar – cumprindo assim o estipulado pelo Regulamento Geral do Ruído. Mas os efeitos de tal decisão ficaram longe do pretendido. A barulheira continuou.

 

 

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Já este ano, e pela persistência das queixas, os serviços da autarquia voltaram a realizar aferições acústicas. Que terão confirmado as razões de queixa. Em simultâneo a todo este processo junto dos serviços de fiscalização da câmara, os moradores das laterais do ginásio, e por diversas vezes, lá foram e solicitaram o livro de reclamações, onde lavraram o seu descontentamento ante a situação – que, na casa de Mário João, já causou uma extensa fenda na parede contígua ao ginásio.

 

Entretanto, na passada sexta-feira (24 de Abril), e para tentar resolver de vez o problema, os responsáveis do Time to Fitness 24 começaram “obras de melhorias”, informando os clientes de que, por esse motivo, as passadeiras passariam a encerrar às 22h e o estabelecimento às 23h, reabrindo às 6 horas. Contactada pelo Corvo, Sónia Costa, a responsável pela gestão desta rede de ginásios, admite a necessidade da intervenção.

 

“Fomos fazendo obras, com diversas melhorias sentidas. Ainda assim, o barulho continuou a incomodar as pessoas”, reconhece a gerente. Em consequência, a empresa encomendou um “estudo acústico feito por engenheiros do Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ), que prescreveram um rol de medidas. Entre elas estão a passagem dos balneários para o nível superior, por troca com as máquinas que aí se encontram. O ginásio apenas voltará a funcionar em pleno quando os referidos técnicos entenderem que a situação esteja resolvida.

 

Até lá, Maria vai continuar a tomar os comprimidos para dormir que uma amiga lhe indicou. É que ainda lhe continuam a ressoar na cabeça os acordes da canção “I gotta feeling”, dos Black Eyed Peas, que há uns tempos esteve a tocar ininterruptamente durante 72 horas, paredes-meias com o seu quarto. Por isso, Maria pensa em, primeiro, tentar encerrar aquele espaço e, depois, talvez pedir uma indemnização pelos danos já causados na sua saúde. É que ela e o companheiro, tal como Mário João e Ana, e José Mendes, entendem que têm direito a viver em paz no sítio que escolheram para tal. Coisa simples.

 

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] A tortura de viver ao lado de um ginásio aberto 24h/dia e, por isso, não dormir http://t.co/j2F51srVLp

  • Paulo Ramos
    Responder

    Alguém com as mãos bem untadas de “fotocopias” na CML

  • Julio Amorim
    Responder

    Empresário sueco na terra das liberdades…humm. Gostaria de o ver tentar fazer o mesmo no seu país, a ver quantos dias o negócio mantinha as portas abertas. Cambada…..

  • Afonso F. Garcia
    Responder

    Casa perfeita para nova fase da vida: uma cave na Almirante Reis. Gente com poucos horizontes, portanto. http://t.co/TsT2J3bA7n

  • Maria
    Responder

    Apenas pretendo ressalvar que é mentira a informação que a gerente do Ginásio Sónia Costa deu ao Corvo acerca do ginásio não estar a funcionar em pleno, porque ainda anteontem filmei um sócio a treinar às 05h00 da manhã e tive como testemunhas dois elementos da PSP que foram chamados ao local.

  • Maria
    Responder

    O ginásio continua a não limitar o acesso aos sócios durante a noite.

    • Raquel Brito
      Responder

      o ginásio tem licença para funcionar durante a noite certo? Estando na situação em que está nunca poderia funcionar durante a noite…a única coisa que devem fazer neste momento é por uma ação em tribunal…qualquer medida acustica que eles tomem não vai valer de nada… o prédio não está preparado para ter um ginásio…insistam na queixa na camara municipal..

  • João Paiva
    Responder

    Ao proprietário Sueco:
    Bem-vindo a Portugal. É ilegal, mas pode-se fazer durante pelo menos 2 anos porque não acontece nada… que vergonha.

  • Raquel Brito
    Responder

    A camara tem de atuar numa situação dessas..se o assunto ainda está por resolver o condomínio tem de por uma ação em tribunal contra o ginásio só assim se consegue medidas efetivas, avancem com uma ação contra o ginásio! O descanso em nossa casa vale todo o dinheiro do mundo, eu sei o que é isso porque estou a passar por uma situação idêntica a essa…

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