Pátios & Vilas-01

Muitas já desapareceram e outras estão em vias de ser demolidas, mas Lisboa chegou a ter 350 pátios e vilas, habitações que salvo raras excepções foram construídas em finais do século XIX, inícios de XX, para as classes mais pobres. O Corvo propõe uma visita pelas vilas que ainda existem, começando pelas mais inesperadas, como é o caso da Vila Musgueira.

Texto: Fernanda Ribeira   Fotografia: Carla Rosado

 

Faz parte do património da Lisboa republicana mas quase ninguém dá por ela. É a vila Musgueira, que conta mais de 110 anos e tem senhoria. Os poucos moradores que resistem conhecem-se todos, mas já não convivem como antes. Há plantas no pátio, mas a vida parece ter-se escapado para outras bandas. E a solidariedade também.

 

Na Vila Musgueira, ao Alto do Pina, bem perto da Alameda, há um pátio inesperado, que dá para a Rua Barão de Sabrosa. Celeste é uma das poucas moradoras que resistem nesta vila centenária. Está a fazer o almoço para ela e para o marido, João Gonçalves, mas quando O Corvo lhe bate à porta, mostra-se logo disponível para uma conversa à janela.

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Cá fora, há diversos objectos a decorar o pátio. Um cão dálmata em louça, em tamanho real e de dimensões bem maiores do que as do cão verdadeiro que vive portas adentro com a “Família Gonçalves” – anunciada no pequeno azulejo na parede. Há também plantas, algumas verdadeiras e outras artificiais, feitas de um material que provavelmente nem sequer existia quando a mãe de João Gonçalves foi morar para a Vila Musgueira. “Se a minha mãe fosse viva tinha agora 110 anos, e ela já nasceu aqui”, conta João, que tem já 80 anos. Não sabe dizer se o nome da vila se relaciona com o nome do senhorio. “A. S. Musgueira era a quem antigamente pagávamos a renda e o nome da vila talvez venha daí”, explica. Apesar da doença respiratória que tem, por muito ter fumado, como diz, João ainda gosta de conversar e falar dos tempos em que viver na vila Musgueira era uma animação constante. “Éramos mais dados, mais amigos e convivíamos muito”. Sobretudo nos santos populares, em que cá fora se assavam sardinhas e havia bandeirinhas e balões coloridos no pátio.

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A casa onde moram tem três divisões e uma cozinha. “A marquise e a casa de banho fomos nós que fizemos, porque não havia. Fizemos as obras e mesmo assim a senhoria aumentou-nos a renda, já pagamos mais de 100 euros”, diz Celeste. “Há 50 anos pagávamos 50 escudos”, relembra João que nos seus tempos de vida activa teve várias profissões. “Trabalhei em malhas, mas também já fui taxista”. Celeste era costureira e trabalhava na Tricot, uma empresa que já não existe.

Celeste e João têm um filho que cresceu ali mas que agora vive em Quiaios, na Figueira da Foz. “O meu filho queria que nós fossemos viver com ele, mas eu, se saísse daqui, então é que morria ainda mais depressa”, diz o homem.

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A vida já foi muito mais animada e comunitária na Vila Musgueira. “Éramos como uma família. Havia gente nova. Agora está tudo velho”, diz, com um sorriso malandro. João também já não frequenta muito o bairro. Antes saía e ia tomar café ali por perto. “É a bebida que eu mais gosto, mas agora uma bica custa 120 escudos, não se pode”, diz. Além disso, as pernas também não lhe permitem grandes passeatas. “Canso-me muito, com esta coisa da doença. Quando saio, é só para ir ver se o carro ainda está no mesmo sítio”.

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À hora de almoço são poucos os que se encontram na vila Musgueira. E há quem viva em aflição constante.

Maria Manuela Santos está em casa, mas porque a isso é obrigada. Tem o marido muito doente e quando sai é para o acompanhar ao hospital. As idas e vindas aos hospitais são mais que muitas para esta mulher que tem “83 anos, a caminho dos 84” e sem ninguém de família para a ajudar. O gato, que se esgueira à porta quando O Corvo aparece, é a única companhia que Manuela tem.

“Amanhã tenho de chamar um carro (táxi) para ir com ele ao Santa Maria. E no dia seguinte temos de ir a Santa Marta para ele fazer a coagulação do sangue e depois à consulta da dor, ao Hospital dos Capuchos. É difícil, porque o meu marido já não anda”, diz com tristeza.

“Isto já foi bom, agora é uma porcaria”, desabafa Manuela. Nos bons tempos e ainda antes da doença, o marido era trabalhador da Carris, onde era mecânico e Manuela trabalhava em malas, na firma de Teodoro dos Santos, o empresário que em 1958 foi um dos fundadores da Sociedade Casino Estoril. Mas isso é passado. A empresa há muito fechou. “O que é bom acaba-se”, diz a mulher, que agora se vê praticamente sozinha. “No fim da vida, a gente tem uma aflição e ninguém nos liga nenhuma”, afirma Manuela, à porta da casa onde viveu 50 anos e dias bem melhores.

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O gato vem espreitar a dona, que chora. Cá fora, na Vila Musgueira, subitamente o tempo virou. O sol ficou encoberto e o céu sombrio. Os sinais de vida esbatem-se na vila republicana.

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Comentários
  • Sérgio
    Responder

    Bela Reportagem Fernanda!

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