Poucos terão dado por isso, mas está em debate público, desde 1 de agosto e até 31 de outubro, o Plano de Acessibilidade Pedonal de Lisboa, que caracteriza os principais problemas de circulação de pessoas na capital, sugerindo algumas alternativas. As passadeiras pouco têm ajudado a reduzir os atropelamentos.

 

Texto: Mário de Carvalho   Fotografia: Francisco Neves

 

São cinco volumes recheados de informação, onde é possível, por exemplo, conhecer os pontos negros dos atropelamentos registados nas passadeiras: Estação do Oriente, avenidas da Igreja e Arantes de Oliveira (Olaias), estradas de Benfica e dos Arneiros, ruas da Venezuela (Benfica), Pascoal de Melo e da Graça, Praça Paiva Couceiro, largos Martim Moniz e de Alcântara.
A Praça Dom Pedro V (Rossio), o Largo Luís de Camões e as ruas no coração da Baixa/Chiado surgem como as zonas críticas das passagens de peões com semáforos. Entre 2004 e 2011, foram atropelados nestas passagens um total 3921 pessoas. No período 2010/2011, os atropelamentos nestes locais somaram 1294.

 

O conjunto de ruas e avenidas de Lisboa perfaz 1770 quilómetros, na grande maioria possuindo passeios de ambos os lados, ligados por mais de 9 mil passadeiras.

 

Contudo, neste universo, nem todas as vias pedonais têm o mesmo valor. As mais importantes, pelo fluxo de transeuntes, estão naturalmente no centro da capital, nomeadamente na Baixa, nas colinas da cidade que se desenvolvem pelos eixos, das avenidas da Liberdade e Almirante Reis, até à zona de Entrecampos e Alvalade.

 

O Parque das Nações, Benfica, Alta de Lisboa e Alcântara são igualmente locais onde a circulação de pessoas é intensa, ao contrário das zonas do aeroporto e Monsanto.

 

Andar a pé, além de ser uma forma de combater o sedentarismo e a obesidade, pode – ainda de acordo com o Plano Pedonal, coordenado por Pedro Homem de Gouveia – ser um estímulo para a economia local. “Afinal, é a pé que as pessoas entram e saem dos estabelecimentos de comércio.

 

Em troca, as lojas animam as ruas e as montras dão cor e vida ao caminho percorrido. As ruas são para o comércio local o que os corredores do centro comercial são para as lojas aí localizadas. O que põe em evidência que a qualidade e a manutenção da rede pedonal (passeios e passadeiras) são importantes para a competitividade do comércio local”, diz o seu responsável.

 

Para a Organização Mundial de Saúde, os peões representam cerca de um quarto das mortes que anualmente ocorrem nas estradas do mundo inteiro.
Passadeiras, um local perigoso



 

Devido à falta de atenção às necessidades dos peões e à tendência para favorecer o transporte privado nas últimas décadas, os transeuntes têm um risco acrescido de morte, lesão ou incapacidade. Segundo a Polícia de Segurança Pública (PSP), nos atropelamentos em Lisboa, entre 2004 e 2011, verificou-se que as mulheres foram as principais vítimas, enquanto nos grupos etários foram os jovens (20-24anos) e os idosos (70-74) os mais atingidos. Cerca de 89% dos atropelamentos resultaram em ferimentos ligeiros, 10% em ferimentos graves e apenas 1% em mortes.

 

Considerando os três tipos principais de atropelamentos, vê-se que 28% dos acidentes ocorrem fora das passadeiras, 24% ao atravessar a “zebra” e 14% com o peão a circular ao longo da via sem a atravessar, sendo que a maioria dos atropelamentos verifica-se com bom tempo (86%), piso seco e limpo (76%) e durante o dia. “Em todos os anos da série, houve sempre mais atropelamentos a menos de 50 metros da passadeira do que a mais de 50 metros”, revela o plano.

 

Mais grave é que 39,2% de todos os atropelamentos graves e mortais durante este período tiveram lugar quando o peão estava na passadeira. Por isso, o plano conclui: “a passadeira parece ser, em Lisboa, um local perigoso”.
“O peso relativo dos atropelamentos em zebra é sempre superior aos ocorridos em passadeiras com sinalização semafórica”, refere ainda o documento.

 Neste ponto, o plano sugere um reforço da sinalização junto a alguns dos 2129 semáforos e da sua temporização, pois “em várias passagens de peões “ não estão de acordo com a lei, além de ser “comum essa desconformidade agravar-se durante as horas de ponta do tráfego rodoviário”.

 

A legislação determina que “o sinal verde de travessia de peões deve estar aberto o tempo suficiente para permitir a travessia, a uma velocidade de 0,4m/s, de toda a largura de via ou até ao separador central, quando ele exista”.

“Decorre desta norma que por cada metro que o peão tenha de percorrer na faixa de rodagem, o semáforo deve conceder-lhe 2,5 segundos de verde (por ex., se o peão tiver de atravessar seis metros, o verde para o peão deve estar aberto 15 segundos).”

 

Na explicação, o plano pedonal, observa que “a insuficiência de tempo concedido aos peões decorre de um desequilíbrio no quadro mais amplo das políticas municipais de mobilidade: a regulação semafórica favorece principalmente a mobilidade automóvel, com frequente prejuízo da segurança e da fluidez da circulação pedonal”.

Também há problemas com a sinalização sonora que complementa a temporização de 282 semáforos.

 

O plano nota que, “se à partida a implementação desta temporização em Lisboa levantava, de facto, dificuldades, a Câmara Municipal de Lisboa não só nunca se pronunciou formalmente a este respeito, como acabou por se pronunciar, mais de uma vez, através de deliberações municipais, em sentido inverso”.

 

A legislação de 1997 sobre a matéria não é respeitada pela autarquia juntando-se à resolução este problema o do envelhecimento da população, que “ fará com que o sistema de gestão de tráfego fique cada vez mais desajustado das necessidades dos lisboetas. E cada vez mais perigoso”.

 

O plano em consulta pública enumera igualmente os atropelamentos nas 24 freguesias da cidade. As Avenidas Novas surgem em primeiro lugar com um total de 345 acidentes, seguindo-se Alvalade com 305 e Arroios com 290. A freguesia do Beato foi a menos acidentada no período entre 2004/2011, com 35 atropelamentos.

 

Sobre as 55 passagens desniveladas da cidade constata-se que das cinco subterrâneas (as restantes são superiores), nenhuma está em bom estado. Nas restantes cerca de 40% estão num estado “razoável”.

“Em Lisboa, o que se observa, de facto é que as passagens existentes ‘não resolverem o problema’ para pelo menos 103 peões atropelados a 100 metros (ou menos) das suas passagens”, adianta o volume “Via Pública” do documento.

 

Este extenso trabalho analisa ainda a questão dos passeios em Lisboa que o Corvo abordará em breve.

  • Miguel Marques
    Responder

    Excelente artigo. O facto de terem aprofundado a pesquisa com dados estatísticos, veio credibilizar em muito o artigo.
    Não fazia ideia que as mulheres eram as mais afectadas. Parabéns.

  • António Rosa de Carvalho
    Responder

    ‘O que, avisa, implicará acabar com a calçada portuguesa em alguns locais da cidade.’
    RUA DA VITÓRIA
    “O socialista apontou um objectivo para um eventual próximo mandato: concretizar o Plano de Acessibilidade Pedonal que está neste momento em consulta pública, eliminando barreiras arquitectónicas e criando “percursos cómodos e confortáveis”.
    Bem, no caso da Rua da Vitória, trata-se acima de tudo por parte de Manuel Salgado de afirmar por contraste de materiais no pavimento, de forma hierárquica, a axialidade do eixo estação Baixa Chiado / Elevador do Castelo , tal White Marble Road com respectiva assinatura / ‘Arquitolas’/ Great Wizard of Lisbon.
    António Sérgio Rosa de Carvalho.

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