Crónica – Pecado Capital

 

Não é sentimento estranho para quem se envolve nas brumas da vida nocturna. Há, infalivelmente, alturas em que damos connosco a pensar: “O que faço eu aqui?” Procurar a resposta não é, muitas vezes, tão importante como encontrar uma saída. Airosa, quando possível; discreta, se der; rápida, quase sempre. Mas quando não temos saída e o tempo sobeja para dúvidas mais ou menos metafísicas, não há como travar a cavalgada imparável das interrogações.
Sim, o que fazia eu ali? A primeira resposta, minha e dos companheiros de infortúnio, foi: solidariedade. Ali estávamos, a apoiar um amigo. O problema é que não sabíamos exactamente que apoio podíamos dar ali fechados numa sala, comunicando em sussurros e meio embotados pelo álcool. Durante muito tempo, numa casa completamente estranha, três já-não-assim-tanto adolescentes a partilhar silêncios e pontos de interrogação. E agora?
À noite de copos no Bairro Alto seguira-se a boleia rumo ao subúrbio. Mas então o dono do carro – o mais velho e único com carta – avisou que ainda tínhamos de passar num sítio. Anunciou-o com ar grave, mas sem drama excessivo.
O carro parou, entrámos num prédio indiferenciado, subimos alguns lances de escadas, mas, a pedido do mentor da visita, esperámos no patamar inferior que ele batesse ao leve na porta e entrasse, após uma longa espera seguida de leves murmúrios. Hesitámos. Ninguém nos tinha convidado e, se era coisa rápida, mais valia esperar por ali do que na rua, onde o frio se metia nos ossos.
Minutos passaram, longos, silenciosos. E então decidimos avançar. A porta, apenas encostada, dava entrada, sem o sabermos, para um filme de série B em que nos estavam reservados apenas papéis de figurante. Daí para a sala, foi uma questão de pernas doridas e já alguma falta de paciência. Do quarto, nem um sinal.
Os cigarros estavam a acabar e mesmo as duas cervejas pilhadas do frigorífico – assim em jeito de tributo por aquele abuso de solidariedade cega – não davam para muito mais. Tínhamos sono e queríamos ir para casa, mas não havia dinheiro para táxi. Reféns da boleia que se entocava num quarto silencioso, navegávamos, cada um à sua maneira, num mar de tédio e incerteza.
Então apareceu o amigo. Falou pouco, por meias palavras e sem aparente nexo. Tínhamos de o apoiar. A situação era dramática. Como assim? Depois explico, pá, depois explico. E desapareceu novamente. Os minutos deram lugar a horas e já se via luz a espreitar pelas frestas das janelas quando ele voltou.
Uma ex-namorada neurótica, crise de ciúmes, solidão e comprimidos, amigos para sempre, lágrimas e gestos nervosos, não há nada que se beba, agora adormeceu, alguém ainda tem um cigarro… Fragmentos cochichados de uma história rebuscada. E, antes de sairmos, uma explicação final: “Quando lhe telefonei, ela disse que ia cortar os pulsos…”
Com estas coisas não se brinca. Em conformidade, antes de nos rasparmos porta fora e descermos pé ante pé, não fosse algum vizinho dar pela passagem daquela atarantada trupe pelas escadas do prédio, decidimos limpar a casa de tudo o que pudesse facilitar o alegado projecto de atentar contra a própria vida. Comprimidos pela sanita abaixo, facas e tesouras escondidas nos mais diversos armários. E, já agora, garrafas de cerveja no lixo e cinzeiros despejados, que isto de acordar com uma casa virada de pantanas é um notório convite à depressão…

(Conheci a rapariga algum tempo depois. Não me pareceu particularmente afectada pelos supostos acontecimentos dessa noite. Acho é que ainda hoje deve andar à procura do x-acto que atirei para dentro do autoclismo…)

 

Texto: Luís Francisco

 

Luis Francisco

 

Ilustração: Joana Martins de Carvalho

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