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O Corvo pediu a Rosário Pedreira, editora da Leya e poeta, que nos contasse como é a sua Feira do Livro.

 

Texto: Maria do Rosário Pedreira     Fotografia: Paulo Castanheira    

Ilustração: Sofia Morais

 

Pedem-me que fale da minha feira do livro, mas a verdade é que tive muitas. Ainda na Avenida da Liberdade, a feira marcou a minha emancipação, quando a minha mãe me deixou ir sem supervisão e com dinheiro no bolso, tinha eu uns quinze anos, comprar os livros que entendesse. Nessa altura, recordo-me da paixão pelos contos: comprei Torga e Sophia e ainda hoje, dessas colectâneas, sei aqueles de que mais gostei e me marcaram para sempre.

 

Depois, já no Parque, foi toda uma experiência de, primeiro, sair da Faculdade de Letras e ir positivamente todos os dias para a feira ver ou comprar; e, depois, já a trabalhar na edição, vender atrás do balcão nos velhinhos pavilhões onde entrávamos agachados e éramos às vezes surpreendidos pelo aparecimento de um cão mais atrevido ou pelas perguntas bizarras de quem lia pouco mas, numa feira ao ar livre, não se coibia de nos interpelar. Uma vez, uma senhora saiu-se com esta: “Ó menina, tem aí algum livro que explique como se deitam os canários?” Talvez quisesse fazer criação… Mas era bom apalpar o pulso aos clientes, auscultar tendências e esquisitices (lombadas sem vincos era uma delas) e assistir ao vivo à fantástica sabedoria dos que partilhavam o espaço comigo e que eram capazes de nomear todas obras que existiam no mercado sobre determinado tema (iogurtes por exemplo) e até de dizer qual era o pavilhão em que estavam à venda – livreiros como já não há.

 

Depois, num interregno, a feira – por causa do túnel do Marquês – foi parar ao Terreiro do Paço. E é um ano que registo para o resto da vida pois foi então que, por uma história que não importa contar, mas se calhar mudou o meu futuro, eu peguei em mim certa tarde e, irritada com a deslealdade e a falta de confiança do meu chefe, fui à feira avisar o seu sócio de que me ia embora, de que me demitia. Hoje tenho a certeza de que essa decisão me permitiu crescer profissionalmente e tornar-me, afinal, editora.

 

Actualmente, e de há uns anos para cá, a feira já não tem a mesma graça, está cheia de “papel pintado”, como diz com razão Pacheco Pereira. Vou lá sobretudo para me sentar ao lado dos meus autores em sessões de autógrafos, mas, como leitora que acompanha de perto o que vai saindo ao longo do ano, já não me serve de muito. Tenho menos tempo para uma incursão demorada nos pavilhões dos colegas e frequento sobretudo os dos pequenos editores, cujos livros é difícil encontrar à venda nas livrarias que frequento. E, mesmo que ainda compre umas pechinchas, as multidões e as caixas com filas acabam por desmotivar-me. A indústria substituiu a arte.

 

 

  • fernando
    Responder

    Gostei do texto. É bonito e poético, só lamento que quem ajuda a deitar fogo á mata, depois lamente o incêndio

  • Zélia Sakai
    Responder

    Gostei gostei muito…….
    Parabéns pela sua decisão que tomou e por a ter partilhado.
    Um abraço,
    Zélia Sakai

    PS: Tive o prazer de a conhecer em 2000, aquando da publicação do meu primeiro livro, Guia Ecológico das Plantas Aromáticas e Medicinais.

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