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O Corvo pediu a Ana Maria Pereirinha, editora na Planeta e leitora diária do Corvo, que nos contasse como é a sua Feira do Livro.

 

 

Fotografia: Teresa Carrington      Ilustração: Sofia Morais

 

 

Sim, é verdade que havia muito menos coisas. É verdade que até certa altura não havia televisão – e quando passou a haver tinha horários de emissão limitados. É verdade que havia crises de asma e maleitas, e até ocasionais pneumonias, e que a melhor maneira de esquecer os dias enfadonhos era ler, ler nas doenças, os livros todos dos Cinco e dos Sete, e depois outros, a certa altura já dois ou três por dia, “tragam-me livros!”, dizia às colegas de escola que vinham em visita, esgotadas as reservas domésticas, ler nas longas férias, ler porque o vício, uma vez instalado, era imparável.

 

Não sei se hoje em dia as crianças ainda fazem mealheiro para comprar coisas. Sei que lá em casa, todo o dinheiro dos tios, avós, padrinhos, dos natais e aniversários, ia somando no mealheiro, apontando certeiro a um objectivo: a Feira do Livro.

 

A minha Feira do Livro sempre foi esta – a do Parque. Porque todas as grandes descobertas que lá fiz já foram nesta (e não na da Avenida). Foi no Parque que começaram as peregrinações diárias à caça dos Livros do Dia, foi no Parque que, com o nariz ainda pouco acima do tabuleiro, quando a inclinação do terreno era a desfavor, me “cheirou” que aquela oportunidade do dia na barraca da Guimarães intitulada “O Leão e a Feiticeira Branca”, de um misterioso C.S.Lewis, era de aproveitar (e depois digam-me lá que não se deve escolher um livro pela capa e que eu não sou uma rapariga de gostos clássicos e irrepreensíveis!), que a “Zora a Ruiva e o Seu Bando”, de um tal Kurt Held, na Civilização, merecia o meu pecúlio (leram a Zora, a Ruiva? Pois foi uma das heroínas da minha infância, a minha primeira heroína feminista, antes de imaginar o que isso fosse!); no Parque que passei horas a fio mergulhada em livros quando os dias eram longos e o tempo meu para todas as descobertas, no Parque que vi nascer a Difel, que me parecia de repente conter todos os livros dos meus desejos – os verões da Duras, a descoberta do Eco, os anos 80 da minha adolescência e devorarem tantas, tantas descobertas que fui fazendo, fundamentais, fundadoras.

 

A Feira, é justo que se diga, ficava a cinco minutos de casa – e, por isso, permitia as excursões quotidianas num tempo já estival, já praticamente de férias. Dificuldade, só mesmo vencer, com vento contrário e pólens em estado de euforia, a rampa que agora fica na lateral do Corte Inglés – a infame “Rampa da Trampa”, assim baptizada pelos dois manos asmáticos, que éramos nós: em casa de asmáticos, quem não tem resistência aos ventos não vai longe. E nós queríamos livros.

 

Há dois dias, agora do lado dos profissionais, e já não dos visitantes, em conversa com um dos “meus” autores, fiquei espantada com o seu espanto por ter havido um tempo em que na Feira os autores não faziam sessões de autógrafos todos os fins-de-semana, desta forma transversal e instituída (ok, confesso que tenho ainda uma colecção das Cartas do Júlio Roberto, das Edições Itau, todas autografadas a dizer que eu era linda e que tinha uns totós encantadores, mas era um fenómeno, o Júlio Roberto…).

 

A minha Feira é a do Parque: a dos tremoços e das farturas, mais do que dos menus de dietas camonianas e pessoanas, das barracas de chapa, fortes e feias, que tinham aquela porta frontal que era um chamariz irresistível para tudo o que fosse miúdo se esgueirar a ver o que se passaria lá dentro, do espaço homogéneo onde todos estavam por igual, antes da invenção das “praças”, dos “túneis” e dos alarmes. A minha Feira será sempre no Parque, e querer encafuá-la e alcatifá-la a bem do conforto burguês é como dizerem-me que é preciso abater árvores na cidade porque os asmáticos não suportam os pólens primaveris – não cola, não é, pura e simplesmente, credível.

 

Hoje, ainda faço descobertas na Feira: muitos, muitos livros depois, vou comprando mais do que a conta ao longo do ano, nas livrarias (sempre nas livrarias!), mas é na Feira do Parque que visito as barraquinhas dos amigos que reservo para esta altura, como um ritual: a Frenesi, a Letra Livre, a Antígona, os alfarrabistas, os pequenos editores… Espaço de descobertas, sempre, a minha Feira do Livro. No Parque, claro. Mesmo com anti-histamínicos e um camisolão para a noite.

 

Ana Maria Pereirinha, editora, 49 anos de idade e, pelo menos, 40 de Feira do Livro…

 

 

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