A magia do “melhor bolo-rei de Lisboa”

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

Luísa Ferreira

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Santa Maria Maior

22 Dezembro, 2014


Delfina Santos vai fazer 40 anos atrás do balcão da Confeitaria Nacional e já viu muito bolo-rei sair do estabelecimento que este ano comemorou 185 anos. Este Natal não será excepção. Aquela que, em Julho passado, foi eleita pela CNN como uma das melhores pastelarias da Europa não divulga a receita da confecção do bolo por si introduzido em Portugal, no século XIX. E que reclama continuar a ser o melhor da capital. Costuma haver fila à porta.

Certos rituais não se questionam. Por esta altura do ano, é sempre igual. “As pessoas aparecem para comprar o nosso bolo-rei e, muitas vezes, nos últimos dias antes do Natal, até chegam a fazer filas lá fora”. Delfina Santos, 61 anos, sabe bem do que fala, pois tem quase quatro décadas de experiência no atendimento ao cliente ao balcão da Confeitaria Nacional, na Praça da Figueira. E espera-se nova corrida ao monarca dos bolos e a outras gulodices da quadra, pelo menos até às 19h do dia 24.

“O nosso bolo-rei é diferente porque tem muito mais massa e menos frutas cristalizadas e açúcar na cobertura do que outros. E, por isso, é mais fôfo”, explica Delfina, enquanto vai dobrando e cortando finíssimas folhas de papel que hão-de servir de cama nas muitas caixas de bolos que costumam sair do estabelecimento que este ano comemorou 185 anos – sempre sob a égide da família do fundador Baltazar Castanheiro. “Temos clientes que cá o vêm comprar há décadas”, explica. A ele e ao bolo-rainha também.

A Confeitaria Nacional, fundada em 1829 e que também este ano foi distinguida pela CNN como umas das melhores oito pastelarias do continente europeu, reclama ser a primeira a fazer e vender bolo-rei entre nós. “A família Castanheiro pode orgulhar-se de o ter trazido para Portugal e tê-lo transformado numa instituição sem rival no mercado confeiteiro”, pode ler-se no seu sítio oficial, numa secção dedicada a esta especialidade de origem francesa. Apesar das dicas de Delfina, a receita da sua confecção mantém-se a salvo da curiosidade.

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Na segunda metade do século XIX, o bolo chegou mesmo a ser exclusivo da casa. Mas o gosto ficou e a produção espalhou-se por outros estabelecimentos, tendo-se massificado. O que não impede a tradicional pastelaria da Baixa de continuar a reclamar ser detentora do título de “melhor bolo-rei de Lisboa”. O gosto pode ser subjectivo, claro está, mas o certo é que, à medida que a festa da natividade se aproxima, as vendas vão crescendo. E o movimento na loja também.

Nestes dias, a Confeitaria Nacional está a fazer encomendas diárias de entre 600 a mil quilos de massa para a produção do seu bolo-rei, que é confeccionado a partir do fim de Setembro e até à semana da Páscoa. “Quando começa o calor, a massa seca”, explica Delfina Santos, momentos depois de a conversa com o Corvo ter sido, por instantes, interrompida por uma senhora que desejava saber informações sobre como e até quando podia encomendar o bolo. A antecipação é bem avisada e, este ano, a lista de encomendas fechou no dia 16 de Dezembro.

Mas o prestígio de uma confeitaria como esta – que faz com que “diversas figuras públicas” sejam clientes regulares – é também cozinhado com o esmero diário empregue na elaboração de muitos outros bolos. Que os clientes, os habituais e os passageiros, buscam com a certeza de um velho hábito ou se deixam seduzir pelo aspecto a prometer deleites pantagruélicos. As vitrines da Confeitaria são uma tentação sem remissão.

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Pode ser um turista que, surpreendido ante a variedade que o deixa indeciso, e após muita hesitação e pressionado pelo sorriso expectante do empregado, acabe por se decidir por um óbvio pastel-de-nata. Mas também uma senhora com mais de 90 anos que, impossibilitada de ir à sua pastelaria de eleição, delega na neta a sua certeza de querer uns bolinhos consumidos ali durante décadas mas de que desconhece o nome.

“A menina veio cá e disse que a avó queria uns bolos que têm chocolate e marmelada. E eu comecei a pensar ‘será sortido húngaro?’. Mas não era. Só depois é que percebi que eram rins de chocolate”, recorda Delfina, que em bom rigor entrou ao serviço da Confeitaria Nacional a 17 de Fevereiro de 1975, com apenas 20 anos. “Eu nem sabia bem andar nesta zona de Lisboa, era mais de fazer a minha vida em Benfica”, diz.

Começou a vender bolo-rei e tudo o resto mesmo antes do “Verão Quente”. E ainda por ali anda, enérgica, como sempre. Quando O Corvo lhe pergunta o que é que mudou desde essa altura, Delfina sorri e responde: “Para mim, não mudou nada. Vêm cá gerações da mesma família, filhos e netos de pessoas que eu já atendia”. Mais do que um mero lema, a tradição deverá ser isto.

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COMENTÁRIOS

  • Rui Barradas Pereira
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  • Reserva Recomendada
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  • Décio Carvalho
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  • Mercedes
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    Bom dia

    Vocês não trabalham com venda de bolo rei para o Brasil?
    Att
    Mercedes Pordeus

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