Fazer um caderno de encargos ilustrado com desenhos foi a melhor maneira que o embaixador de Dom João V na corte papal encontrou para mostrar ao rei que não estava a enganá-lo nas contas. Esse documento, o Álbum Weale, pode ser visto pela primeira vez em Lisboa, no Museu de São Roque, na exposição “De Roma para Lisboa”, até 25 de Outubro. Um livro redescoberto há alguns anos, num episódio com contornos a aparentar os do Código Da Vinci.

 

Texto: Isabel Braga

 

Um curiosíssimo documento da autoria de um embaixador português que pretendia salvar a sua honra, e que esteve desaparecido durante mais de duzentos anos, é o ponto de partida da exposição “De Roma para Lisboa”, patente até 25 de Outubro, no Museu de São Roque, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

 

Trata-se do Álbum Weale, elaborado por Manuel Pereira de Sampaio, o último embaixador de Dom João V junto da Corte Pontifícia, que reúne os desenhos das peças encomendadas pela coroa portuguesa aos mais notáveis artistas de Roma e destinadas a duas grandes obras de iniciativa régia em curso na época, em Portugal: a Patriarcal, junto ao Palácio da Ribeira – a qual, se tivesse sobrevivido ao terramoto de 1755, seria um Vaticano em ponto pequeno -; e a Capela de São João Baptista, que faz parte da Igreja de São Roque, em Lisboa, então a casa-mãe dos jesuítas em Portugal.

 

A acompanhar o desenho de cada encomenda, Pereira de Sampaio juntava uma folha com o respectivo preço, discriminado em pormenor, juntamente com o nome dos vários intervenientes e as tarefas por estes realizadas. É a esse conjunto de desenhos de 101 peças e respectivos custos, originalmente designado por “Libro degli Abozzi de Disegni delle Commissioni che si fanno in Roma per Ordine della Corte”, que hoje se chama o Álbum Weale. Uma designação retirada do nome do editor John Weale, de Londres, em cuja posse este precioso documento permaneceu durante o século XIX. Foi ele quem compilou num único volume as 160 folhas dispersas de Manuel Pereira de Sampaio que, até então, constituíam o álbum.

 

Porquê tantas cautelas da parte deste diplomata? Manuel Pereira de Sampaio, embaixador de Dom João V junto do Papa entre 1740 e 1750, não era visto com bons olhos na corte portuguesa: filho bastardo de um pequeno fidalgo do Algarve, era considerado de origem social demasiado modesta para ocupar tão alto cargo, em representação de um monarca que queria afirmar o seu país como uma grande potência imperial.

 

Mas Dom João V confiava nele para esta missão. Manuel Pereira de Sampaio era um homem cultíssimo, cosmopolita, e conhecia muito bem o meio artístico de Roma, onde vivia – fora governador da Igreja de Santo António dos Portugueses – numa das residências privadas mais belas da cidade, o Palazzo Colonna, que era frequentada pelas personalidades mais influentes, incluindo o próprio Papa, Clemente XII.

 

A corte portuguesa desconfiava dos montantes gastos em Roma com as encomendas régias. Há que dizer que, mesmo para um monarca como Dom João V, de cognome “o Magnânimo”, que tinha governado com o ouro do Brasil, as somas envolvidas eram avultadíssimas. Para se ter uma ideia, o preço de uma baqueta em lápis lazuli e prata, encomendada ao ourives Antonio Arrighi para a Capela de São João Baptista, foi superior ao dinheiro pago pela Quinta de Belém – uma propriedade adquirida por Dom João V, que incluía o palácio onde funciona a Presidência da República, e respectivos jardins, já ornamentados com a estatuária que ainda hoje lá existe, explica Teresa Vale.

 

Fólio Album Weale 2

 

Cada encomenda régia representava um gesto diplomático. E Dom João V confiava em Manuel Pereira de Sampaio para esta missão, devidamente contabilizada no Álbum Weale ou “Libro degli Abozzi…”. Este cumpriu a sua função, justificou os montantes gastos, mas teve uma vida atribulada. Empacotado com o resto da biblioteca real, quando Dom João VI viajou até ao Rio de Janeiro, fugindo das invasões francesas, poderá não ter atravessado o Atlântico, já que reapareceu em Londres, na posse de John Weale. A seguir, foi comprado por um arquitecto e coleccionador de Paris, de nome Lesoufaché.

 

Doado por este, em 1889, à biblioteca da Escola de Belas-Artes de Paris, foi ali erradamente catalogado como manuscrito, e continuou a passar despercebido até que, já nos anos 90 do século XX, foi levado até à mesa de uma aluna francesa de mestrado que, na citada biblioteca, procurava informações sobre história de arte relacionadas com os artistas de Roma. Por coincidência, ao seu lado, na mesa da biblioteca, estava um grande especialista holandês em história de arte, Peter Fuhring, que sabia da existência do álbum. É ele que o reconhece e, a seguir, contacta a historiadora francesa Marie Thérèse Mandroux-França.

 

Começa assim, como explica Teresa Vale, a comissária desta exposição, uma investigação acerca “da mais importante das fontes iconográficas sobre o universo das encomendas artísticas joaninas” aos artistas de Roma, em meados da década de 1740, destinadas ao tesouro da Patriarcal e à Capela de São João Baptista.

 

Oitenta por cento dos desenhos do Álbum Weale dizem respeito a esta capela, encomendada, em 1742, a Nicola Salvi – o arquitecto que desenhou a Fontana di Trevi, em Roma – e a Luigi Vanvitelli – arquitecto oficial do papa. A capela trata-se de uma versão resumida da Basílica Patriarcal destruída em 1755, a qual, por sua vez, era a versão resumida do Vaticano. Construída e montada em Roma, foi benzida pelo Papa antes de ser transportada para Lisboa em três barcos, numa mega operação inédita na época.

 

A capela ficou assente em 1749. É uma obra-prima da arte italiana, construída com recurso a 24 variedades de mármore, incluindo lápis lazúli e apresentando mosaicos vítreos da autoria de Moretti, sobre cartões de Masucci, representando o baptismo de Cristo (no painel central, daí o nome da capela), o Pentecostes e a Anunciação. Os lampadários são extraordinárias peças de ourivesaria e os paramentos feitos para uso exclusivo da capela.

 

O Álbum Weale, que continua a pertencer aos fundos da Biblioteca das Belas Artes de Paris, foi então restaurado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e encontra-se exposto pela primeira vez. A comissária, Teresa Vale, optou por não mostrar, ao lado dos desenhos, as peças a que estes se referem, uma vez que grande parte delas estão ali mesmo ao lado, fazendo parte do tesouro da Capela de São João Baptista. Seria uma relação que lhe pareceria “demasiado óbvia”. “Achei mais interessante mostrar peças do mesmo universo, que estão dispersas por outras instituições e colecções privadas”, como o Museu Nacional de Arte Antiga, o Palácio da Pena ou até por colecções privadas, diz a investigadora.

 

Assim, na exposição podem ver-se retratos de personalidades envolvidas nas trocas entre Roma e Lisboa, cartas a encomendar peças específicas quer para a Basílica quer para a Capela de São João Baptista, e obras dos autores das encomendas joaninas, pertencentes a outros museus e instituições. São exemplos disso um retrato de Dom João V atribuído a Pierre-Antoine Quillard, cartas a encomendar a ourives romanos as grades para a Basílica; o modelo em terracota do monumento fúnebre de Pereira de Sampaio, concebido por Filippo della Vale para a Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma; um relevo em mármore representando a sagrada família, que pertence ao Palácio Nacional de Sintra ou um Ecce Homo (Roma, 1773) e obras de ourivesaria de autores como João Frederico Ludovice, entre outros.

 

Folio Album Weale 1

 

A energia e empenho que Manuel Pereira de Sampaio colocou no cumprimento da tarefa de que foi encarregado por Dom João V teve um corolário triste: o diplomata morreu subitamente, pensa-se que com um ataque de asma, em Fevereiro de 1750, no porto da Civita Vecchia, que serve Roma, quando tratava de enviar para Lisboa algumas das obras que o Álbum Weale documenta.

 

A exposição “De Roma para Lisboa”, a propósito do restauro do Álbum Weale, que o Museu de São Roque mostra até 25 de Outubro, integra-se no extenso projecto iniciado em 2007, com o estudo e o restauro da Capela de São João Baptista, objecto da exposição “A Encomenda Prodigiosa”, em 2013, feita em colaboração com o Museu Nacional de Arte Antiga. A concluir o projecto, está previsto um programa de conferências e o lançamento de uma monografia com textos de historiadores e restauradores portugueses e estrangeiros sobre a Capela de São João Baptista.

 

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