Há dois séculos que as varinas de Lisboa são um ícone popular a perdurar no imaginário nacional, mesmo depois de terem deixado de percorrer as ruas da cidade. Uma exposição no Museu da Cidade, no seu pólo do Campo Grande, abre uma janela sobre a história destas mulheres, que até motivaram profunda admiração por parte de Albert Einstein. Para descobrir através de um acervo rico e diversificado.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

“São mulheres de uma elegância que me fez parar muitas vezes para admirá-las. No grupo em que estava, fotografámo-las e pusemos na nossa mesa de refeição, a bordo, os retratos”. Estamos em 1925 e Albert Einstein aproveitou o dia da escala do seu navio em Lisboa para fotografar as varinas de Lisboa. Nem o mais famoso cientista do mundo resistia ao apelo das populares figuras que povoavam o imaginário lisboeta e nacional.

 

Faltavam cinco anos para uma lei interditar as varinas de Lisboa de calcorrearem descalças as ruas da cidade, uma imposição que só conseguiu apurar o equilíbrio e o engenho para fugir à polícia. A exposição “Varinas de Lisboa, memórias da cidade”, comissariada por António Miranda e Sofia Tempero, e que pode ser visitada no núcleo do Museu de Lisboa no Palácio Pimenta, ao Campo Grande, abre uma janela larga sobre estas mulheres.

 

São centenas de itens, entre fotografias de várias épocas, telas e tapeçarias de escolas diversas, naturalistas, modernistas, neorrealistas, de Almada Negreiros, Mário Eloy, Júlio Pomar, documentos oficiais, objectos, reportagens da imprensa, desenhos de jornais satíricos do seculo XIX, selos, a voz de Amália a cantá-las, programas de revistas do Parque Mayer ou desenhos com Beatriz Costa. Há também lugar para caricaturas da varina mais feérica e colorida, da imagem oficial com que o Estado Novo vendia Lisboa aos turistas, ou mais de pele tisnada e enrugada, nas fotos dos seguidores do fotojornalismo de Cartier Bresson.

 

Mas as varinas de Lisboa não são só paisagem, por detrás está uma história de forte mobilidade social que começa, de forma discreta, no início do século XIX. As varinas são as mulheres dos homens de Ovar, os varinos. Desembarcam em Lisboa para vir viver com os maridos e ajudá-los na faina do mar. O caminho-de-ferro, que a partir de 1864 liga Vila Nova de Gaia a Lisboa, permite juntar muitas famílias. Um painel da exposição dá fé do número de casamentos de membros da comunidade ovarina ocorridos na paróquia de Santos-O-Velho: passaram de 14, em 1810, para 369, em 1870. A Madragoa é o bairro de eleição.

 

Quando, na série de desenhos satíricos de 1974 com que João Abel Manta celebra o 25 de Abril e o pacto entre o povo e o MFA (Movimento das Forças Armadas), uma varina de peito generoso abre os braços a um marinheiro, estamos já a entrar no campo do ícone. As varinas, à medida que a malha urbana lisboeta se alterou, nas últimas décadas, desaparecem e estabelecem-se em bancas ou lojas. As filhas escolhem outras profissões.

 

Um vídeo, parte de um documentário a ser concluído em breve, recolhe os depoimentos orais das últimas mulheres que tiveram este ofício. As últimas gargantas a apregoar pelas ruas “Ó freguesa, quem me acaba o resto?”

 

Para além da exposição do Museu de Lisboa, a Casa Museu Bordalo Pinheiro, situada mesmo em frente, do outro lado do Jardim do Campo Grande, expõe “Vivinha a Saltar!”, onde se podem ver, numa quase assembleia geral, as varinas de cerâmica de Bordalo Pinheiro acompanhadas das respectivas sardinhas, também de Bordalo e de outros artistas contemporâneos que nelas se inspiraram.

 

A exposição “Varinas de Lisboa, memórias da cidade” está patente até 24 de Maio. A exposição “Vivinha a Saltar!” está patente até 21 de Junho.

 

Mais informações em www.museudelisboa.pt e www.museubordalopinheiro.cm-lisboa.pt

 

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