Este fim-de-semana, as galerias romanas da Baixa estão abertas ao público, acessíveis pela Rua da Prata. O Corvo aproveita a ocasião para recordar o importante legado deixado à cidade por aquela civilização.

 

Texto: Mário de Carvalho                 Ilustração: Sofia Bártolo

 

A Baixa de Lisboa é conhecida pelo seu intenso comércio diário e um valioso património arquitectónico, edificado, na sua maioria, na época do Marquês Pombal, na sequência de terramoto de 1755. Mas não só. Abriga no seu subsolo um impressionante acervo arqueológico da época do império romano, ainda por avaliar na sua total dimensão.

 

“A zona da baixa era um enorme complexo fabril de preparados de peixe”, afirma o arqueólogo Clementino Amaro, um dos principais investigadores em Portugal do período romano, por forma a demonstrar a dimensão do trabalho que ainda é necessário realizar para “reconstruir” Olisipo.

 

Olisipo foi o nome atribuído por Júlio César, no século II a.C, a Lisboa, com o estatuto de município de direito romano, reconhecendo-lhe a importância estratégica no tráfego marítimo entre o Mar Mediterrânico e o Oceano Atlântico. “Olisipo era uma importante zona de comércio, funcionando como entreposto do império romano de grande valor, demonstrado através do espólio até agora encontrado”, explica a O Corvo Clementino Amaro.

 

Na realidade, o município romano, que geograficamente ficava entre a porta de Alfama, a nascente, e os limites do estuário do Tejo, a ocidente, tinha já uma malha urbana centrada na zona da baixa. A demonstrar sua relevância está, segundo arqueólogo José d’Encarnação, a necrópole romana (século I- IV d.C.) que existia na Praça de Figueira.

 

Numa conferência sobre “Lisboa Romana através das suas inscrições”, que  recentemente decorreu na Academia das Ciências de Lisboa, José d’Encarnação lembrou que, durante as obras do metropolitano, em 1962, foi encontrada uma importante coleção de lápides funerárias epigrafas na Praça de Figueira. Tal indica que no local existiu “uma grande necrópole”, estando hoje parte do acervo em exposição no Museu da Cidade de Lisboa.

 

Contudo, José d’Encarnação não deixou de considerar um “atentado” a construção “à pressa” de um parque de automóveis na Praça de Figueira, o qual destruiu a necrópole por completo sem tempo para um trabalho prévio e adequado do espólio existente no local”.

 

A questão dos achados arqueológicos encontrados durante obras de intervenção no tecido urbano é um ponto sensível. Basta indicar a praça do Rossio, onde a cerca de seis metros de profundidade está um circo romano, lugar de corridas de cavalos. A descoberta ocorreu entre 1994 e 1997, mais uma vez, durante os trabalhos do Metropolitano de Lisboa. Permitiu encontrar restos de tanques de preparação de pasta de peixe, designada por garum, género alimentar que podia incluir a sardinha ou a cavala como parte dos condimentos. Misturados e esmagados em conjunto, formavam uma pasta deixada em salmoura durante algum tempo e depois exportada para a zona do Mediterrâneo, juntamente com outros produtos como vinho e o azeite. Funcionavam, assim, como um instrumento de aculturação do império romano.

 

Para Alexandre Sarrazola, da área de Projetos de empresa Era – Arqueologia, Conservação e Gestão de Património, uma parte importante das descobertas surge através de intervenções nos terrenos para recuperação e construção de edifícios ou na instalação de condutas de gás ou da EDP. “Por incrível que pareça, às vezes, estão a centímetros de superfície”. E lembra o caso que se passou junto ao Centro de Estudos Judiciários, numa intervenção da EPAL para alterar uma conduta de água, onde se deparou com um conjunto de ânforas no subsolo que eram utilizadas pelos romanos para transportar diversos produtos, desde garum até ao azeite, vinho ou mel.

 

Encarando a arqueologia como parte de memória colectiva, Alexandre Sarrazola realça a necessidade de existir articulação entre a política cultural e o ordenamento do território e “não com interesses divergentes, como hoje se verifica”, recordando que a Lei de Bases de Proteção e Manutenção  do Património Cultural, aprovada em 2001, ainda não está regulamentada.

 

A empresa onde trabalha Sarrazola é uma das que maior número de intervenções tem na baixa de Lisboa. Apesar dos Planos de Pormenor (PP) terem um papel importante na preservação destes achados, o arqueólogo acha que o Plano Diretor Municipal de Lisboa (PDM) poderia ser mais incisivo neste aspecto.

 

“Naturalmente, existe uma dinâmica na cidade, num conjunto de obras que podem ser feitas sem afectar o património num contexto urbano”, diz. Mas, opina, “é preciso termos a noção que ninguém poderá conhecer a cidade, se não souber interrogar, interrogando-se a si mesmo”.

 

A riqueza patrimonial legada pelos romanos deixou significativas estruturas, só existentes em grandes cidades, como o Teatro Romano, entre a rua de São Mamede e a da Saudade. “Este tipo de estrutura só era possível existir numa grande cidade”.

 

O teatro foi construído no tempo do imperador Augusto, altura que a cidade recebeu o nome de Felicitas Iulia Olisipo (31 a.C.-27 a.C.). E, com isso, a extensão da administração territorial passou a margem sul do rio Tejo, até à Arrábida.

 

A incansável atividade construtora de Augustus pelo império – é nesta altura que Roma sofre alterações administrativas e arquitectónicas profundas – também teve os seus efeitos em Olisipo. Ganhou um novo enquadramento urbano, de traços monumentais, onde se incluem o Teatro Romano ou as termas dos Cássios, ambas as estruturas situdas junto da Sé de Lisboa, onde foram descobertas habitações da época.

 

A instalação de cabos telefónicos, com a abertura de uma vala de 60 centímetros de largura por metro e meio de profundidade, permitiu aos arqueológos aprofundar os conhecimentos sobre as Termos dos Cássios, com o aparecimento dos objetos de cerâmica. As termas situavam-se na rua de São Mamede, onde hoje funciona a sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), no edifício conhecido como o Palácio de Penafiel, construído no século XVIII, e onde já funcionou o Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.

 

Em zonas da cidade com tal acumulação de camadas históricas, e muitas vezes sujeitas a reabilitação, é comum o interesse dos investidores ou proprietários em conhecer e preservar ao máximo as descobertas feitas durante as escavações. Clementino Amaro teve a oportunidade de acompanhar alguns desses trabalhos para “não apagar a história”. E Sarrazola confirma que “ é sempre feito um levantamento com os registos encontrados na zona. Mesmo que não seja possível, nalguns casos, salvaguardar objetos ou estruturas, fica o registo da sua existência – o que é muito importante num processo de planeamento”.

 

Clementino Amaro cita o exemplo de uma pastelaria na baixa, na Rua dos Fanqueiros, onde foi o proprietário a alertar as autoridades para os trabalhos que estavam a decorrer na zona e que “pareciam estar a colocar em causa o património”. As escavações de emergência acabaram por confirmar a suspeita: no local, existiam objetos de cerâmica e um tanque rectangular (cetária) para a preparação de garum, o mesmo acontecendo na Casa dos Bicos, hoje Fundação José Saramago – onde, além da cerâmica, foram encontrados cinco tanques.

 

Os vestígios da presença romana são abundantes em Lisboa, como os templos das Virgens Vestais, no Convento de Chelas; de Minerva, no Alto da Colina do Castelo; de Cibela, no Largo de Madalena; de Thétys, na Igreja de São Nicolau; de Júpiter, na Ermida de Santa Bárbara; ou o Núcleo Arqueológico dos Correeiros, cujo  principal impulsionador foi Fernando Nogueira, ex-ministro e antigo presidente do PSD e atual presidente da Fundação Millennium BCP – que tem apoiado, como mecenas, diversas intervenções no campo da arqueologia no país.

 

Outras das referências são as galerias romanas na Rua de Prata – visitáveis entre ontem e amanhã -, que se julga serem criptopórticos que sustentavam um forúm municipal.  Apenas constumam abrir ao público duas vezes por ano, normalmente em Abril e Setembro.

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