Na zona mais “in” de Lisboa, as lojas de estilistas sobrevivem graças ao turismo. Sem dificuldades, na área do Príncipe Real, mantém-se o comércio de luxo.

 

Texto: Isabel Braga * Fotografia: David Clifford

 

As lojas de estilistas da zona “trendy” de Lisboa, junto ao Príncipe Real, habitualmente frequentadas pela classe média e média alta, só continuam abertas graças ao turismo. “Os turistas estrangeiros têm sido a nossa salvação. Os clientes portugueses nunca foram muitos, mas vinham com regularidade, agora deixaram de vir”, afirma Leonor Barbosa, gerente do Espaço B, na Rua Dom Pedro V, a mais cara e exclusivas das três lojas pertencentes ao grupo de José Luís Barbosa,  a funcionar na zona.
As roupas e acessórios minimalistas à venda no Espaço B, B Bazar ou B S. Mamede têm a assinatura de “designers” consagrados e atraem principalmente turistas oriundos da Europa, mas também australianos, americanos e alguns brasileiros. São também os turistas estrangeiros que permitem manter abertas as portas da loja da estilista portuguesa Alexandra Moura, um pouco adiante, na mesma rua. “Estamos 90 por cento dependentes dos estrangeiros, fazem compras aqui e também encomendam através do ‘facebook’ da loja. Entre ontem e hoje já mandámos pelo correio peças para a Austrália, Bélgica, França e Noruega”, afirma o gerente, Diogo Sousa.
No estabelecimento especializado em roupa para homem destinada à caça e à pesca, da marca inglesa Barbour, acontece o mesmo. “São os turistas que nos salvam. Os portugueses compram pouco, pedem descontos, perguntam quando fazemos saldos”, conta, num português perfeito, Zophia Tomczynska, a jovem  vendedora de nacionalidade polaca.
Os pequenos cofres com embutidos de marfim expostos na montra da loja de antiguidades AR PAB, iniciais dos donos, Álvaro Roquete e Pedro Aguiar Branco, na Rua D. Pedro V, entrevêem-se atrás de grades. A porta está fechada, é preciso tocar à campainha. Uma mulher com ar apressado vem atender e, à pergunta sobre a forma como o estabelecimento está a viver a crise económica, reage com um erguer de sobrancelhas surpreendido: “Crise? Não, não temos crise. Lamento, os donos estão fora, não posso falar consigo”. A porta fecha-se na cara da jornalista e O Corvo rumou ao outro lado da Praça do Príncipe Real.
Na loja de flores “Em Nome da Rosa”, o sócio gerente, Fernando Miguel, é peremptório. “Há crise, claro que sim. Onde sentimos mais foi nas vendas ao balcão, que tiveram uma redução drástica. O que nos vale são as avenças, mas também aí houve cortes”. E deu como exemplo o cancelamento, há seis meses, da avença que a Presidência da República mantinha com a loja, há vários anos. “Agora só querem trabalhos muito precisos. É a austeridade”, acrescentou.
Imune à crise parece viver o comércio de bens alimentares de luxo na zona do Príncipe Real. Um exemplo é o salão de chá de inspiração francesa, “Poison d’Amour”, inaugurado em Agosto de 2011 na Rua da Escola Politécnica. Lanchar ali, num ambiente vagamente barroco, custa bastante mais caro do que numa pastelaria convencional – o preço de um bolo varia entre três e cinco euros. Apesar disso, aos fins de semana, as pessoas fazem filas para encontrar uma mesa livre.
“Toda a matéria prima vem do estrangeiro, desde as manteigas às farinhas”, explica o dono, Pedro Pouseiro, um luso-francês licenciado em “marketing”, que se orgulha de fabricar “todos os dias” no “laboratório” do seu salão de chá, «os únicos verdadeiros ‘macarons” que se vendem em Lisboa». Sinais de crise? “Cada vez mais as pessoas partilham um chá e um bolo,  e isso é coisa que não acontecia antes. Mas somos compensados pelas encomendas que são muitas”. Quem encomenda na “Poison d’Amour»? Pedro Pouseiro responde: “Muitos particulares, para festas privadas. Mas não só. A embaixada dos Emiratos Árabes Unidos, aqui ao lado [na Praça do Príncipe Real], é um grande cliente nosso”.
Imune à crise vive também a Moy, mercearia e loja “gourmet”, a funcionar há sete anos na Rua D. Pedro V, onde  é possível encomendar caviar “Beluga” que custa seis mil euros o quilo,  ou comprar salmão fumado da marca “Petrossian”, uma das mais caras do mundo.  “Temos muitos turistas, mas os nossos clientes habituais são portugueses, sempre foram”, explica Manuela Ferreira, responsável pela loja desde a sua fundação há dez anos. “Crise, aqui? Não se faz sentir, de todo”, afirma, com um sorriso tranquilo.

 

Comentários
  • João Ribeiro
    Responder

    Ah pois não é não!

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