“Casas com escritos – Uma história da habitação em Lisboa”, da historiadora de arte Margarida Acciaiuoli, é uma obra singular e preciosa para compreender a cidade que habitamos. O livro, publicado recentemente, tenta contar a evolução de Lisboa através do seu carácter residencial. Em vez de se focar em palácios e palacetes, prefere olhar para coisas como o estatuto do porteiro e das criadas ou o triunfo tecnológico que representou a vulgarização do elevador. Ou seja, fala da vida das pessoas comuns.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

Seria sempre o livro certo, publicado na altura certa. Se há realidade social mutante em Lisboa, nesta época e em todas as outras, ela é a da habitação.

 

O título do estudo de Margarida Acciaiuoli é, em si, uma provocação: em primeiro lugar, pela capacidade que muitos lisboetas terão de recordar como os rectângulos de papel brancos que adornavam as janelas significavam que o locatário actual estaria de partida e a casa a caminho de poder ser de novo arrendada. Por outro lado, como se explica no prefácio, o título é uma vontade de chamar a atenção para a falta de dinamismo do mercado do arrendamento, numa altura em que cada vez menos gente pode comprar casa própria.

 

Lá mais para o fim do livro, que é uma história e, por isso, segue uma cronologia, vamos perceber o que tramou o modelo mais exemplar da construção, para uso mais comum: o chamado prédio de rendimento, que foi um investimento activo e seguro até mais ou menos cinquenta anos atrás.

 

O capítulo dedicado à cidade depois do terramoto de 1755 é denso e profusamente ilustrado. Segundo a autora, foi com o Marquês de Pombal que a cidade se pensou como algo colectivo. Foram anos em que “a contingência andou de mãos dadas com a oportunidade.”

 

A entrada no século XX, com a definição da construção em torno da recente Avenida da Liberdade, é outro capítulo do livro onde cabem, por exemplo, algumas curiosidades da época. É o caso da primeira tentativa de construção em altura, à época um prédio de dez andares projectado por Artur Júlio Machado, não aprovado pelo município. Alegou-se que, embora aquele tipo de construção “pudesse representar o futuro, não cabe nas leis do presente”.

 

Também do princípio do século passado é instituição do Prémio Valmor, uma tentativa de “introduzir uma espécie de moralização na construção, que tendia a expressar-se através de exemplos dos edifícios que se distinguiam.”

 

Por esta altura, já os compradores de terrenos de um bairro entalado entre uma quinta conhecida por Prazeres – e que dera origem a um cemitério – e um quartel tinham autorização para construir. Entre os investidores iniciais em Campo de Ourique contava-se a casa de câmbios Espírito Santo, que estaria na origem do banco com o mesmo nome.

 

Depois, segue-se o modernismo, que beneficiou muito da invenção e da generalização do betão armado, e a sua estética, umas vezes progressista outras retrógrada, que acompanhava as brechas e hesitações do regime do Estado Novo – ou o luto causado pelo seu fechar em si mesmo. Avenidas Novas, Bairro Azul, Alvalade, Olivais e o triunfo da propriedade horizontal, está tudo nestas páginas.

 

Margarida Acciaiuoli assume que esta é uma obra que recusa o ordenamento cronológico de uma “história da habitação feita de palácios e palacetes”. Por isso, a tipologia das casas está rodeada de uma análise social viva e documentada, como o são as referências ao estatuto do porteiro e das criadas ou o triunfo tecnológico que representou a vulgarização do elevador.

 

Este é um livro essencial para ter em casa, à mão, quando regressamos de um passeio demorado e observador por Lisboa e nos perguntamos: que cidade temos e que cidade queremos? Nessa altura, os versos de Ruy Belo com que o livro começa servem-nos de guia: “Terei eu casa onde reter tudo isto/ ou serei sempre somente esta instabilidade?

 

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Casas com escritos – Uma história da habitação em Lisboa

Margarida Acciaiuoli

Editoral Bizâncio

784 p.p.

PVP: 27,5€

 

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