Seria penoso supôr-me agora a travar algum tardio combate pela cidade onde circulo não mais que atento aos lugares geométricos que são designados ruas, becos com saída, largos abandonados, travessas perpendiculares. Nem sempre a subir, tão pouco a descer. Dentro do trânsito implacável ou movendo-me na solidão inesperada do sítio que exibe o seu silêncio macio e até absoluto –   logo após, bem vejo, breves tréguas rompidas pelo retorno de muitas  estridências.

Sempre (ou quase) o ciclista vai provido de um livre ser. Vai –  diz-se – como quem passeia e, pela curiosidade que sente mas não convoca, indaga no trajecto inesperado os surpreendentes pequenos prazeres. Grandes encontros com o inesperado, também. Libertando o esforço, anulo ou reduzo os assomos de dor física e, já a rondar os limites, outros trânsitos se estabelecem.

Frequento a situação sem lhe impor uma presença.  Anoto como ela modifica o uso que posso fazer da escassa força, da revelação da intimidade da rua quando a enchemos de silêncio.
A rua: quando a percorro sem lhe impor pontos de partida ou de chegada, o que é? Garanto: posso sempre transformar uma rua quando a percorro a pedalar. No que não permanece desvendo então o que é mais permanente.

Mediada pela bicicleta, que nunca se desvanece mas que, cada vez mais, me vai ficando invisível, sinto como a normalidade e a desatenção me encaminham para onde a memória tudo entrega ao esquecimento. Remanescem em lombas galgadas as topografias vencidas pela mecânica enigmática. A primeira ansiedade apenas se avista como lonjura e mal reporta já o tempo redesenhado pelas aventuras.

Mas guardemo-nos de todas as certezas: numa bicicleta nunca se anda longe da surpresa. Com sorte, aprendi esse ser imprevisível não no que irrompe do súbito mas em quanto advém do ser da paciência exercido em centenas e centenas de quilómetros de solitária navegação a pedais. Lentamente, longe do ponto de partida, vi em mim acumularem-se os impossíveis. Acrescentado de origens e destinos desolados aproximei a bicicleta inesperada do incomensurável calor vindo de verões antes de qualquer Verão. As distâncias ganham vulto por tudo quanto se exauriu em esforço e o que se perde em matéria vale bem o que se ganha em ânimo. Mas pressinto que não há ganhos sem perdas. O que me impele ainda então a pedalar?

Andar de bicicleta é tudo menos a linear aparência. O compromisso do corpo com a bicicleta abre o caminho. E alçado ao cimo das montanhas pode muito simplesmente descobrir-se que a máquina do movimento circular das pernas dá uma súbita objectividade aos constrangimentos.
O poder para os confrontar.

Antes de conseguir inventariar o que acontece pressinto que tudo caberá em pouco mais que uma mão aberta.
Não há que temer subidas, mau piso, portas de automóveis parados que abertas à passagem do ciclista são a negligência feita choque eminente. Ou, auto(i)móveis, sobre passeios, que vão interditando a passagem no último espaço aberto. Nem quando haja que escutar a ira de todas as buzinas. Nem o incapacitante vento contra ou, apagando os contornos do caminho, a inesperada chuva torrencial que deixa às rodas a adivinhação do melhor trajecto. Munido da complexa medida muscular das distâncias, aceito o equilíbrio precário, desenvolvo a percepção global da rua, aprendo que é real  tudo o que provém do possível. Consigo, pelo treino e auto-observação, uma crescente capacidade de economizar a energia quando, com alento, descubro o privilégio de renovar o que não é infinito e a força forte das fracas forças.

Texto: Luís Lobo    

Luís Lobo

Ilustração: Joana Martins de Carvalho

 

  • luislobo
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    parabens á JOANA pela magnífica ilustração!!

  • ANTÓNIO BALTAR LEITE
    Responder

    biciclando, deambulando nos quarteirões dessa geométrica urbe da imaginação, Lúis circula, parado, no espaço confinado de memórias de outros tempos mecânicos, fundindo-se com os pedais e as rodas que dão a volta ao passado, projecta nas vivências presentes o ímpeto do corpo adolescente em viagem. Circular pensamento às voltas nas rodas e nas correias que o movem, absorve o espaço citadino no seu próprio corpo: por altos, baixos, ondulados e sinuosos passeios, linhas rectas ou perpendiculares vai em crescebdo a sua vontade de agir sobre os lugares à espera de raios novos nas novas rodas dessa imaginável bicicleta.

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