Talvez que o sonho que mais recorrentemente me persegue seja o que sempre envolve um inesperado roubo da minha bicicleta.

Esta noite, uma vez mais, vi-me a sonhá-lo.

 

A cena era-me conhecida. E ouso descrevê-la apelando a referenciais que são essencialmente meias palavras, geometrias infixas, olhares esquivos, fundos esfumados. Campos que abrem para sítios claros e inexistentes, povoados por gente que sorrido que lhes conto mas não ajuda nada ao meu caso. Imagino assim, como quem talvez recorde, o palco do sonho. Em lugar indeterminado do Largo da Graça, em Évora, encosto a bicicleta. Curiosamente, o sonho não referencia os “meninos” – essas quatro figuras medonhas e protectoras talhadas em granito, dominando o largo do alto do frontão da igreja do antigo Convento. O desaparecimento da bicicleta é como sempre acompanhado pelo sentimento de uma penosa auto-recriminação por excesso de confiança quando a estaciono: sem quaisquer amarrações, não me ocorre a evidência que poderão, por esse simples facto, levá-la. O sentimento de culpa por escusada incúria aumenta cada vez que sou forçado a confrontar o lugar vazio.

 

O sonho, curiosamente, absorve todos os sonhos anteriores e permite-se até evocar situações de perda da bicicleta que foram reais. Chamo ao sonho então aquela vez em que, tendo eu visto a bicicleta entrar no pequeno avião que nos transportava da ilha cabo-verdeana de São Vicente para a ilha de Santiago, verifiquei com uma espécie de atenuado terror que, no desembarque, não apareceu. (Mais tarde vim a ser esclarecido que, apesar das repetidas garantias no embarque, a bicicleta teve que ficar em terra para abrir espaço a umas influentes caixas de lagosta). Não discuto a prioridade. Apenas anoto que, como consequência, sofri durante as quarenta e oito horas seguintes da ansiedade própria de quem fica amputado do meio essencial para prosseguir uma viagem longamente planeada para ser feita de bicicleta.

 

Em busca da bicicleta perdida, admiti no sonho que poderiam ter sido miúdos do tipo dos que, em Mansilla de las Mulas (um lugarejo no Camiño de Santiago onde, ao fim da tarde montei tenda), me tinham tirado o computador e, com ele, o testemunho dos 600 km em cinco ou seis dias a pedalar desde Saint Jean Pieds de Port, nos Pirinéus franceses. Pior: vi e vivi como com um mecânico clicar de crianças à procura de um jogo que ali não morava se podia instantaneamente arrasar mais de metade da glória sofrida, contada em centenas de quilómetros de uma peregrinação vencida a pedal. Nessa altura – recordo –, uma ardilosa proposta envolvendo a promessa de oferta de uma t-shirt desencadeou nos pequenos ladrões de bicicleta o remorso ou a comiseração que permitiu reaver o conta-quilómetros – ainda que com todos os quilómetros da minha glória traumaticamente reduzidos a zero.

 

Nunca um simples registo de máquina ao esfumar-se deixou em mim (que eu recorde) uma perda tão inexplicavelmente física…

Agora, porém, continuo em pleno Largo da Graça, que monstros ineficazes de granito roído pelo tempo guardam. Indago junto de gentes e estabelecimentos que o sonho para ali deslocou. Esbarro com seres mudos, humanos que sorriem. Imediatamente, reconheço neles a qualidade de gente simplesmente comum saindo de sítios dificilmente iluminados por luz amarela. Abanando a cabeça, complacentes e vagos. E, delicadamente inconclusivos, chega a parecer-me que me dão ouvidos mas não acreditam de todo numa existência real da bicicleta, por delicadeza apenas não pondo em questão a minha sanidade mental…

 

O desespero a assomar no meio do sonho, que poderá não ter durado mais que uns segundos, ocorre-me ainda que a saída do Largo da Graça seria para o invisível ladrão da bicicleta favorecida pelas ruas múltiplas e labirínticas como a que, distorcida agora à minha frente, me parece muito só e improvavelmente estreita.

Ainda a desmontar de angústias – acordei.

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Texto e fotografia: Luís Lobo

 

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