Na Baixa de Lisboa, os hotéis nascem como cogumelos. Neste momento, existem 90, 80 dos quais licenciados. Cerca de 30 esperam licenciamento, e este número aumenta para 130, se se tiver em conta as colinas do Chiado e de Alfama/Castelo. Ao mesmo tempo, proliferam lojas de bugigangas turísticas. Há quem fale da descaracterização do coração da cidade.

 

Texto: Isabel Braga      Fotografias: Fernando Faria

 

Os onze estabelecimentos hoteleiros com projectos de arquitectura aprovados na Baixa – na Rua da Prata, Rua dos Correeiros, Rua dos Douradores, Rua dos Fanqueiros, Rua 1º de Dezembro, Rua de São Julião, Rua Nova do Almada, Rua do Comércio, Praça D. Pedro IV (Rossio), Poço do Borratém e Campo das Cebolas – representam 1.166 camas. Na mesma zona da cidade, três hotéis, a que correspondem 261 camas, estão em obra: na Rua da Prata, Rua dos Correeiros e Rua João das Regras. O total das camas disponíveis chega às três mil.

É difícil encontrar uma rua da Baixa onde não exista um hotel. E, cada vez mais, os novos empreendimentos são de charme, na sua grande maioria com quatro estrelas, de luxo, portanto, embora, eufemisticamente, em linguagem de hotel se fale apenas de “comfort”. O mais recente surgiu a 1 de Junho, chama-se Hotel Santa Justa Lisboa, situa-se na esquina da Rua de Santa Justa com a Rua dos Correeiros, e tem 55 quartos, o mais caro dos quais custa 299 euros por dia.

Cerca de um mês antes, na Praça da Figueira, a poucos metros de distância, foi inaugurada outra unidade hoteleira onde o preço dos quartos é semelhante: o The Beautique Hotels Figueira, que ocupa os dois prédios que separam a Rua dos Douradores da Rua da Prata.

Os alojamentos mais caros, quer sejam hotéis ou apartamentos em prédios residenciais, são, em grande parte, propriedade de fundos imobiliários estrangeiros, com destaque para os espanhóis. Os seus clientes são na grande maioria europeus, representando os portugueses uma percentagem que não ultrapassa os cinco por cento.

O presidente da Junta de Freguesia de São Nicolau, António Manuel, não se conforma com o que está a suceder na Baixa de Lisboa: “O que presidiu ao Plano de Pormenor e Salvaguarda da Baixa Pombalina foi a reabilitação do seu edificado e a regeneração da sua actividade económica e habitacional. Não foi transformá-la num condomínio fechado de hotéis de charme, ligados a fundos imobiliários nacionais e estrangeiros, que estão a destruir o tecido económico e empresarial da Baixa”. E acrescenta: “Estamos a assistir à gentrificação da baixa”.

Gentrificação é uma palavra de origem inglesa que, à letra, significa enobrecimento e, em sentido mais lato, um fenómeno de renovação urbana através do qual os habitantes de menores recursos de uma determinada zona, geralmente no centro histórico das cidades, são desalojados e as suas casas transformadas em condomínios de luxo.

Este processo tem reflexos no comércio, uma vez que as lojas tradicionais que serviam a antiga população dão lugar a outras mais adequadas aos novos habitantes. No caso da Baixa de Lisboa, isso também se verificou.

 

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Terão comprado uma camisola do CR7 ou uma Nossa Senhora de Fátima fosforescente?

 

O presidente da Junta de Freguesia de São Nicolau cita alguns exemplos: em 2008, desapareceu da Rua dos Correeiros o último correeiro de Lisboa, que até era “fornecedor da coroa britânica”, quando começou a ser construído o Hotel Santa Justa Lisboa. Este mesmo hotel foi, aliás, construído no local onde antes funcionavam as Galerias Lanalgo, de grande tradição no comércio do pronto-a-vestir lisboeta até ao 25 de Abril.

António Manuel também prevê que, quando o quarteirão Corpus Christi (abrangendo o convento do mesmo nome, com entrada pela Rua dos Douradores) der lugar ao hotel de charme que já se encontra licenciado, desapareça a Adega dos Lombinhos, que em 2015 completaria 100 anos.

Na Rua da Conceição e limítrofes estão a fechar muitas das retrosarias onde gerações de lisboetas iam comprar linhas, lãs e botões.

Na Câmara Municipal de Lisboa, não há ainda estudos feitos sobre o tipo de comércio que está a tomar o lugar do antigo, explicou a O Corvo um responsável camarário que preferiu manter o anonimato.

“Apenas temos uma noção empírica do que se passa. Não é de agora o encerramento de estabelecimentos na Baixa. Havia muito comércio desactualizado, que se ia mantendo mesmo que não abrisse todos os dias, porque as rendas eram muito baratas. Com a nova lei das rendas isso mudou”, diz a mesma fonte.

Segundo a mesma fonte, fecharam muitos cafés e snack-bares indiferenciados, mas abundam os pedidos de licenciamentos para novos cafés/restaurantes de melhor qualidade, assim como para gelatarias, um comércio que se tem revelado de grande sucesso em Lisboa, sempre com filas de clientes à porta.

As lojas que vendem bebidas e produtos de inferior qualidade para turistas, tipo camisolas com a cara de Cristiano Ronaldo e Nossas Senhoras de Fátima em plástico fosforescente, são cerca de 40, só na Baixa.

“São exploradas sobretudo por gente de países asiáticos, do Bangladesh e do Paquistão, mas é difícil saber quantas abrem e fechem porque os licenciamentos foram muito simplificados. A Câmara teve que intervir junto destas lojas, para as impedir de ocupar a via pública de forma selvagem”.

Lojas de vinhos e de produtos regionais mais qualificados têm também surgido, principalmente ao longo do percurso do eléctrico 28, considerado o eixo comercial mais importante da Baixa. O responsável camarário, entrevistado por O Corvo, resumiu: “Está tudo vocacionado para o turista”.

No entanto, a Baixa não se resume ao turismo: “Houve um ligeiro aumento de residentes na Freguesia de São Nicolau, que abrange praticamente toda esta zona”, admite a mesma fonte.

É com os residentes da Baixa que mais se preocupa o presidente da junta, António Manuel, que acusa o vereador do urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa, arquitecto Manuel Salgado, de não conhecer o novo quadro demográfico desta zona da cidade e de fazer, sobre esta, “leituras apressadas”.

O autarca contesta, com recurso a números – que remontam a 2008, é um facto –  ideias como a de que a Baixa está deserta e que os poucos habitantes que restam são velhos.

“Dos 1155 recenceados, só 342 têm mais de 65 anos. 228 estão entre os 18 e os 35 anos e 585 entre os 35 e os 65 anos”, afirma. E lamenta que que a maioria dos projectos de reabilitação realizados se destinem a “habitantes de curta duração”, os turistas.

 

  • o corvo
    Responder

    A Baixa de Lisboa está a mudar de rosto – http://t.co/cvBJUbDlHa

  • Nuno Rebelo
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: A Baixa de Lisboa está a mudar de rosto – http://t.co/cvBJUbDlHa

  • paulo
    Responder

    há que escolher o mal menor. será melhor um hotel com uma passadeira à porta ou uma ruína prestes a cair sobre quem passa?

  • António Rosa de Carvalho
    Responder

    “Febre hoteleira” está a destruir identidade da Baixa, diz autarca.

    Desde os tempos em que publicava sistemáticamente e diáriamente no Cidadania LX, antes da minha ruptura com o mesmo, (ler “Curtíssimo Comunicado” adjunto em : http://www.ovoodocorvo.blogspot.com) que tenho dedicado muita atenção à situação na Baixa … o leitor atento encontrará muitos testemunhos em “posts” aqui no Voo do Corvo que trasladei do CidadaniaLX, para aqui …
    Daí eu voltar a publicar, em baixo a seguir a este, um recente sobre o excesso obsessivo de investimento Turístico / hotel / residência temporária / … e respectivas consequências para o habitar/ residir / Bairro / vida quotidiana / carácter da Baixa.
    Ah … por sinal … Onde está Seara e as suas ideias, sobre estes importantes assuntos para o Futuro de Lisboa ?!?
    António Sérgio Rosa de Carvalho.

  • António Rosa de Carvalho
    Responder
  • Alexandre Nunes
    Responder

    A propósito da praga das lojas de “recordações”: http://cidadanialx.blogspot.com.es/2013/02/very-typical.html

  • Raquel Melo morais
    Responder

    Todos assistimos a estas mudanças na cidade de Lisboa. Ainda vamos a tempo de impedir essa triste descaracterização dos espaços. Gostamos da presença dos turistas, mas não queremos que a cidade se transforme num cenário. Os habitantes fazem a cidade. Para isso temos que disponibilizar espaços habitacionais e comerciais a preços acessíveis e que impulsionem a sua ocupação. Deveria haver um controle dessa massificacao de unidades hoteleiras por bairro. Os bairros funcionarão melhor com uma oferta diversificada de actividades distribuídas pelo tecido urbano.

  • IF
    Responder

    Terão de se fazer reservas (tipo reserva natural) para preservar as espécies autóctones (os habitantes e as suas lojas de ferramentas, botões,…).
    Tudo se pode perverter, haveria visitas guiadas para ver os animaizinhos?

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