65 estabelecimentos que se candidataram a Lojas com História de Lisboa ficaram de fora

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Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

29 Agosto, 2018

Desde 2015, quando a Câmara Municipal de Lisboa (CML) criou o programa Lojas com História para proteger estabelecimentos comerciais em risco de fechar, já foram chumbadas 65 candidaturas. Até agora, a autarquia recebeu 178 propostas de lojistas e, destas, “44 foram distinguidas como Lojas com História e estão mais 19 em fase de consulta pública para distinção”, avança Sofia Pereira, coordenadora do grupo de trabalho responsável pela análise do processo de candidatura, em depoimento escrito a O Corvo. As restantes 50 encontram-se ainda em fase de instrução e análise. Antes da abertura das candidaturas, através de uma plataforma criada para o efeito, o município já havia distinguido por iniciativa própria 82 lojas. O projecto Lojas com História surgiu da necessidade de proteger os espaços comerciais antigos com importância na vida da cidade, numa altura em que todos os meses surgem notícias de encerramentos de lojas emblemáticas no centro histórico de Lisboa.

Para serem distinguidas como Lojas com História, as casas comerciais têm de obedecer a um conjunto de critérios estabelecidos no regulamento municipal. Há espaços, contudo, que reúnem todos os requisitos exigidos, mas não têm um parecer favorável do conselho consultivo – o órgão deliberativo criado para debater e tomar a decisão final do destino destas lojas. A sapataria Arte, situada na Rua Augusta, é um dos exemplos das lojas que obteve a pontuação necessária para ser distinguida, mas não foi aprovada por este órgão externo ao programa criado pela CML. “O conselho consultivo devia ter pessoas imparciais e não empresas em que cada um puxa a brasa à sua sardinha. Há interesses e pessoas que não percebem nada daquilo a decidir”, acusa Manuel Silva, 60 anos, dono da sapataria Arte, em declarações a O Corvo.

Paulo Ferrero, um dos membros do conselho consultivo, reage às acusações com surpresa. “É um órgão completamente imparcial, constituído pela Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), membros da União de Associações de Comércio e Serviços da Região de Lisboa e Vale do Tejo (UACS) e pessoas de áreas muito diferentes”, garante. Entre estas personalidades encontram-se os olisipógrafos Appio Sottomayor e Sarmento de Matos, a geógrafa Teresa Barata Salgueiro, a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, a arquitecta Ana Tostões, as jornalistas Maria Tavares Dias e Catarina Portas, entre outras.


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Manuel Silva, proprietário da sapataria Arte, não se conforma com a exclusão do seu estabelecimento.

O proprietário da sapataria Arte já tinha estado na reunião pública do executivo camarário, no passado dia 25 de Julho, a questionar a forma como o programa das Lojas com História está desenhado e a manifestar a sua indignação por a sapataria não ter sido distinguida. Após a intervenção, foi o próprio vice-presidente da Câmara de Lisboa, Duarte Cordeiro, a responder directamente ao comerciante. “De acordo com a equipa técnica da Câmara de Lisboa, a loja teve a classificação para ser uma Loja com História, mas o conselho consultivo entendeu que não se sentiam confortáveis em dar um parecer positivo à sua sapataria por considerarem que esta, entre outros aspectos, foi descaracterizada”, explicava. Questionada por O Corvo sobre a deliberação final, Sofia Pereira explica que “os membros do Conselho Consultivo foram de parecer que houve alteração ou retirada de elementos que faziam parte da arquitectura original da loja, com impacto no seu valor patrimonial, dando parecer desfavorável ao prosseguimento para consulta pública”.

 

A resposta não convence, porém, o lojista que garante que vai recorrer da decisão. “Se a loja estivesse como estava há 20 anos, já estava fechada, ninguém comprava sapatos. Tive de me modernizar. Queriam que tivesse as prateleiras em madeira com caixas de cartões, mas aquilo era horrível. Se as pessoas não evoluírem, morrem, o que é isso de descaracterizada?”, critica.

 

 

Apesar da sapataria ser uma microempresa e usufruir do regime de protecção das rendas, estando o senhorio impedido de fazer alterações do contrato em vigor, se alegar a necessidade de obras estruturais, o inquilino tem de sair. Foi este o motivo que levou Manuel Silva a concorrer ao programa da Câmara de Lisboa. “Há cinco anos, o proprietário do prédio sugeriu que a renda que pago actualmente, de 710 euros, subisse para 6 mil euros, mas não sabia que a loja era uma microempresa e não conseguiu fazer nada. Desde aí, fiquei com a sensação que ele quer que eu saia daqui e quis precaver-me, concorrendo ao programa das Lojas com História. Não estamos em risco de fechar, mas acho que devíamos ser distinguidos para termos mais tempo, em caso do senhorio querer fazer obras estruturais”, explica Manuel Silva, ali desde 1988, quando a loja de sapatos deixou de ser um negócio familiar. “A sapataria tem 67 anos, conseguimos a pontuação e não é justo a decisão final caber a pessoas que não estão a par do que se passa com o comércio local”, critica ainda.

 

A sapataria Arte, situada na Rua Augusta, ganhou “vários prémios” de montras na década de 70, calçou a selecção de futebol de 1966 – que, com Eusébio em destaque, conquistou o terceiro lugar do Campeonato do Mundo, então disputado em Inglaterra – e, durante mais de uma década, forneceu sapatos à companhia aérea TAP. “Já existem poucas lojas com 67 anos na Rua Augusta, têm fechado muitas. As grandes imobiliárias estão a comprar isto tudo, está totalmente descaracterizada. Só no mês de Junho, fecharam quatro. Qualquer dia, a Rua Augusta é uma rua de esplanadas, hotéis e de lojas de roupa sem qualidade. As lojas boas, como a camisaria Pitta, desapareceram. No prédio onde está a sapataria Lord, já há uma placa para venda. Vai fechar tudo, é uma questão de meia dúzia de anos”, lamenta.

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COMENTÁRIOS

  • Carlos
    Responder

    Lojas com História é tudo uma grande Tanga.
    A gajada socialista e o compadrio para amigos.
    Basta ver as lojas que continuam a fechar todos os dias.

  • Cristina Luz
    Responder

    Na minha opinião creio que as zonas consideradas nobres ou historicas das cidades assim se devem manter. O turista é um passante, não paga impostos e não está cá todo o ano para comprar no mercado tradicional. Todos temos gosto nas lojas que fazem historia nas nossas cidades, claro que precisam ser conservadas e preservardas e a camara deveria apoiar e ajudar na manutenção desses edifícios, afinal para quê IMI tão elevados?

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