“Há 26 anos que ando a pedir obras para a minha casa. Quero que arranjem o telhado, as rachas nas paredes e o tecto. Não aguento mais. Estou à beira de um esgotamento nervoso”. Uma inquilina de um andar da Câmara Municipal de Lisboa diz-se disposta a pagar uma renda maior, se a autarquia fizer as obras que aguarda há décadas.

 

Texto: Fernanda Ribeiro           Fotografias: Carla Rosado

 

O número 25 do Poço do Borratém, onde funcionava, até há bem pouco tempo, a Junta de Freguesia de Santa Justa e onde vivem, entre outros moradores, Maria Alice Agostinho e a família, é um triste exemplo de desleixo com o património municipal. Ao longo de várias décadas e que percorreu executivos com diferentes cores políticas. Há quem reclame obras há muito, mas sem sucesso.

 

Não será, no entanto, com o dinheiro das rendas que a câmara cobra naquele imóvel que as obras poderão ser feitas. Maria Alice paga 29 euros por mês. A renda mais cara daquele prédio é a comercial, do Hospital das Camisas, rondando os 300 euros.

 

A ausência de obras de manutenção reflecte-se, agora, na degradação do edifício e na qualidade de vida de quem ali vive. Transtorno que, no caso de Maria Alice, justifica um grito de revolta. Ainda que sejam muito baixas as rendas ali cobradas pela autarquia.

 

“Há 26 anos que ando a pedir obras para a minha casa. Moro no terceiro andar de um prédio que é da câmara e o que peço é que façam, pelo menos, o arranjo do telhado e das rachas que, ao longo dos anos, se abriram nas paredes e tectos. Tenho um pai acamado e uma mãe com Alzheimer e não aguento mais. Estou à beira de um esgotamento nervoso”.

 

O desabafo de Maria Alice saiu assim, quando se dirigiu o executivo municipal, a quem pediu socorro, na exposição que fez do seu caso, numa recente reunião descentralizada da câmara, realizada a 5 de Fevereiro.

 

Mas no número 25 do Poço do Barratém, entre o Martim Moniz e a Praça da Figueira, nem só esta inquilina vive em aflição, como constatou O Corvo, numa visita ao edifício municipal.

 

Passando o arco gótico que dá acesso ao prédio, logo à entrada, no rés-do-chão, vêem-se rachas nas paredes e sinais de que há zonas onde o edifício está a ceder, bem perto das instalações de A Lisbonense, empresa de limpeza de chaminés que ali existe desde 1861, como se lê no cartaz que a anuncia.

 

Já no interior do Hospital das Camisas – um estabelecimento com mais de 50 anos, onde se fazem arranjos e camisas por encomenda – chove como na rua. Mas com um pequeno desfasamento.

 

 

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No Hospital das Camisas espera-se com resignação pela cura dos males do prédio.

 

“Não é quando chove que a água entra, é um pouco depois que ela começa a jorrar. E isto acontece, sobretudo, desde que fizeram obras num prédio das traseiras”, diz ao Corvo José Aguiar, alfaiate e proprietário do Hospital das Camisas, mostrando o cenário da loja – onde já tem um contentor de lixo posicionado, à espera dos golfos de água que, repetidamente, caem do alto e lhe invadem o estabelecimento. Lá dentro, entre as máquinas, há dezenas de peças de tecidos, que convém que não fiquem debaixo de água.

 

José Aguiar não se queixou directamente à câmara, como fez Maria Alice Agostinho. As suas diligências foram feitas por outra via, junto de um cliente, Miguel Coelho, o novo presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior. “Miguel Coelho até é nosso cliente e eu já lhe expliquei a situação. Ele disse-me que iria falar com o presidente António Costa e agora estou à espera”, conta o alfaiate.

 

A hipótese colocada por José Aguiar, caso a câmara ou a junta decidissem, enfim, avançar com obras, seria mudar temporariamente a loja para o primeiro andar – onde funcionava o centro de dia de Santa Justa – enquanto durassem os trabalhos. Idêntica solução, mas ocupando o segundo andar, é defendida pela moradora do terceiro andar.

 

Maria Alice Agostinho tem 54 anos. Trabalha há 20 como empregada do Bingo do Sport Lisboa & Benfica, sendo obrigada a dividir o seu tempo entre funções múltiplas, a de trabalhadora e a de cuidadora dos pais, além de zeladora do estado “clínico” do terceiro andar onde mora. Vive numa casa muito ampla, de cinco assoalhadas com um grande pé direito, mas também muito degradada e onde, nalgumas zonas da habitação, se percebe haver situações de risco. Buracos no soalho, fendas que fazem temer derrocadas e rebocos de tectos a cair aos pedaços são algumas marcas da degradação.

 

Perigos que Maria Alice tenta contornar, desligando circuitos eléctricos nalgumas áreas da casa e não utilizando outras. “Ocupamos praticamente só metade da casa. E agora, no Inverno, o aquecimento é só no quarto dos meus pais, porque o quadro eléctrico não aguenta mais”, explica a moradora. Durante os dias de semana, Alice conta com o apoio da irmã, Maria da Conceição, a qual, na sua ausência, toma conta dos pais e da casa.

 

À angústia que lhe provoca o mau estado de conservação da casa, vem juntar-se a dificuldade em assegurar algum bem-estar aos pais: à mãe, a quem, afirma Maria Alice “os médicos já diagnosticaram demência”, e ao pai, “que é diabético e está acamado” e que tem de acompanhar “três vezes por semana, ao Hospital de São José, para fazer hemodiálise”. Por isso, reclama obras no prédio que não quer abandonar.

 

Na sequência do pedido de apoio feito à câmara, já recebeu a visita de técnicos municipais. “Veio um engenheiro e um arquitecto, estiveram aqui a ver a casa e o telhado. Mas, pelo que me pareceu, só querem fazer uns remendos. E isso não resolve o problema”.

 

Em ocasiões anteriores, em que pediu obras a outros executivos, também chegaram a ver a casa, mas as obras do telhado nunca avançaram. “Por isso, o prédio está cada vez mais degradado. E o pouco que foi feito”, recorda Maria Alice, “foi por iniciativa da Junta de Freguesia de Santa Justa, que nem sequer era aquela a que eu, como moradora, pertencia. A minha era a de São Cristóvão e São Lourenço”.

 

Agora, a câmara já lhe propôs a mudança para um apartamento com três assoalhadas, na mesma zona geográfica, mas Maria Alice não aceitou. “Em três assoalhadas, não cabem os móveis que tenho aqui”, argumenta.

 

O que quer é permanecer ali, mas em segurança. Diz ter já comunicado aos técnicos municipais que aceitaria um aumento de renda. “Eu até pagava 150 euros por mês. O que quero é viver aqui, sem medo que isto caia”.

Comentários
  • Paulo Ferrero
    Responder

    Triste sina, credo, esta cidade.

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