Uma loja de livros e discos para provar que o Intendente não é só copos e turismo

por • 16 Dezembro, 2016 • Reportagem, SlideshowComentários (18)1306

“Aquilo de que gosto mesmo é conversar com as pessoas, trocar impressões e conhecimentos, ficar a saber um pouco mais sobre discos dos quais, às vezes, não tinha sequer ouvido falar. Por causa disso, ando sempre com um bloco de notas”. Nuno Efe, 41 anos, voz pausada e barba longa, sabe que a satisfação dos ouvintes de música mais curiosos exige dedicação. E não é apenas pelo negócio, que agora explora com o sócio Frederico Lima no Largo do Intendente, mas sobretudo por uma muito particular devoção a algo de que gosta imenso. Aberta desde o último domingo (11 de dezembro), a loja Megastore – nome prenhe de ironia para um pequeno espaço – apresenta-se como uma espécie de catálogo afectivo de ambos, sob a forma de discos de vinil e de livros. “O meu critério é não ter aqui livros de que não gosto”, diz Frederico, 51 anos – além dele, também a Vintage Warehouse, do David Lopes e Joana Pinheiro, fornece o acervo livreiro.

 

Os dois amigos decidiram agora avançar com esta loja de livros e discos em segunda mão porque, apesar de todas as dúvidas que ainda possam subsistir sobre a definitiva revitalização daquela zona, acreditam que ainda vale a pena insistir em algo que lhe acrescente valor, fugindo aos estereótipos da vida noturna e do turismo. “Lisboa está a deixar-se massificar pelo turismo, a gentrificação da cidade, que era coisa que eu pensava poder evitar-se há um par de anos, está efetivamente a acontecer. Temos, por isso, que contrabalançar isso e encontrar alternativas”, afirma Frederico Lima, também dono da loja Retrox, especializada em objectos antigos e colecionáveis, a funcionar a poucos metros, na Rua dos Anjos, desde Outubro de 2014. “Isto não pode ser só alojamento e lojas para turistas, hotéis. Daqui a pouco, é tudo igual. Corremos o risco de isto ficar subordinado a este fenómeno global”, diz, criticando o que apelida de “mesmismo”.

 

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A busca pelo que é diferente, longe do gosto padronizado e do sabor passageiro das modas, definiu os percursos de ambos os sócios. Até os unir neste novo espaço comercial, situado na porta ao lado do Largo Café. E é por essa característica que desejam ser procurados na Megastore, a funcionar de segunda-feira a domingo (abre ao meio dia, fecha às 19h, de domingo a quinta, e às 20, à sexta e ao sábado), com a disposição de deixar satisfeito quem ali entra, num registo caloroso, a prezar a convivialidade e a proximidade, contra a normalização comercial. Uma abordagem tida por Nuno Efe desde que, em 2010, começou a vender na Feira da Ladra uma pequena parte do seu imenso acervo discográfico. “Tinha muitos discos, várias coisas repetidas”, recorda, enquanto do gira-discos ao canto reverbera o encanto de Another Green World, álbum de Brian Eno editado em 1975.

 

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A comercialização de vinil usado, mas também de CDs, passou de um hóbi à actividade principal de Nuno. Além do Campo de Santa Clara, começou a vender também noutras feiras e na internet. Arranjou clientes regulares e intensificou o conhecimento sobre o que eles gostam e, em muitos casos, também ele passou a admirar. “Comecei a conhecer os gostos de cada um e a procurar coisas que possam corresponder”, recorda. Um diálogo que culminou no actual estado de enamoramento com a produção musical nacional. “Já passei por muitas fases do gosto musical, desde o punk, ao metal, reggae ou música electrónica, mas, neste momento, desde há dois anos, o meu principal interesse é o de desenterrar pérolas da música portuguesa”, confessa, dando conta de uma afeição construída entre a devoção musical de alguns dos seus relacionamentos pessoais e a curiosidade quase-arqueológica de estrangeiros que passam na Feira da Ladra. Tanto pode ser um disco raro de Fernando Tordo como um single de garage-psicadélico nacional editado em 1972.

 

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Um ecletismo também cultivado por Frederico Lima nas suas escolhas dos livros à vista nas prateleiras da Megastore. O acervo é diversificado e tanto pode incluir uma tradução com mais de quatro décadas de Não Matem a Cotovia, de Harper Lee, que, como quase todos os livros ali expostos, é vendida por cinco ou seis euros, ou algo bem mais raro e caro, como uma edição original de O Libertino Passeia por Braga, A Idolátrica, O Seu Esplendor (1961), de Luiz Pacheco, por 25 euros. Um orgulho para um homem que se habituou, desde cedo, a uma casa cheia de livros.

 

É verdade que esta não é, em bom rigor, a primeira loja onde se podem comprar livros e discos no regenerado Largo do Intendente – ao lado, existe a bem conhecida Vida Portuguesa -, mas a Megastore assume-se como a primeira onde se combate o “mesmismo“.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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18 Responses to Uma loja de livros e discos para provar que o Intendente não é só copos e turismo

  1. Como conseguiram mandar vir com o turismo num artigo sobre uma loja de discos fascina-me um bocadinho.

  2. Ainda não fui a esta Pedro …

  3. Excelente iniciativa! 🙂

  4. Existe algum contacto da loja? Email ou site?

  5. Há contacto da loja?

  6. Uma loja de livros e discos para provar que o Intendente não é só copos e turismo | O Corvo | sítio de Lisboa https://t.co/rZU70SE22D

  7. Entretanto a o alfarrabista de Benfica “O Leiloeira Ulmeiro Old Books and Things, está em vias de fechar, por não ter dinheiro para pagar a renda !!! (^^^) 3:)

  8. Carlos Morais diz:

    Texto algo depreciativo para as cooperativas e associações locais de cariz social e cultural. E não é preciso ir muito longe, no próprio prédio encontram-se duas cooperativas que fizeram parte da revitalização do Intendente, preservando as pessoas e “rituais” contra a gentrificação. A Cooperativa Largo, ligada às artes, e a Cooperativa POST que promove a mobilidade. Que tal um artigo sobre estes, e todos os esforços que têm envidado para manter a Mouraria histórica e imune ao turismo?

    • O Corvo diz:

      Se fosse leitor regular do Corvo, não faria tais comentários. Desde o início que acompanhamos toda a realidade de bairros como a Mouraria. A Cooperativa Largo, a propósito, foi quem cedeu o espaço para a loja se instalar.