Um poema, um euro  

por • 18 Novembro, 2015 • Crónica, Segunda ChamadaComentários (3)937

Crónica

 

Íamos a descer a Rua Garrett, distraídos com as montras e o movimento das pessoas. Era o fim da tarde, os últimos raios de sol a bater no Castelo, por cima dos Armazéns do Chiado. De repente, fomos interpelados por uma mulher de túnica vermelha que trazia na mão uma pasta azul de plástico.

– Gostam de poesia?

Sem esperar pela resposta, abriu a pasta e tirou lá de dentro uma folha A-4 com dois poemas escritos em letra de computador.

– Escrevi-os hoje de manhã.

Parecia estar a vender castanhas, “quentes e boas”. Mas não: era poesia – uma poesia de “fabrico próprio”, como os bolos de algumas pastelarias, assinada por uma mulher de trinta/quarenta anos, lábios pintados e unhas arranjadas.

– São um pouco tristes, comentou a Maria João acerca dos poemas.

A autora não confirmou nem desmentiu.

– Quanto está a pedir por eles? – perguntei.

– No mínimo dois euros. Não aceito menos.

Nunca tinha regateado preços com um poeta.

– Tenho apenas um euro, retorqui.

A mulher voltou a abrir a pasta e entregou-nos outra folha, só com um poema. Ato contínuo, arrecadou a moeda de um euro e bazou pela Rua Garrett acima, na direção da “Brasileira” e do Camões. O poema tem versos assim: “Insubmissa/Tenho por bussola/A inquieta sede”.

 

Texto: António Caeiro      

 

Pin It

Textos Relacionados

3 Responses to Um poema, um euro  

  1. … venho do Nicola, vou p’ro outro mundo, se dispara a pistola 🙂

  2. Também já comprei e gostei muito.

  3. Tuga News Tuga News diz:

    [O Corvo] Um poema, um euro   https://t.co/fzdb2jYMeq #lisboa