Um passeio pelos alfarrabistas de Lisboa

por • 1 Março, 2017 • CULTURA, Reportagem, SlideshowComentários (3)728

Estamos habituados a olhar para as suas montras, nos sítios do costume. Mas, se repararmos com atenção, em cada bairro, há pelo menos um alfarrabista a pedir que entremos e ousemos descobrir livros de todos os géneros e de todos os preços. O Corvo propõe um mini-roteiro informal por alguns alfarrabistas de Lisboa. 

Texto: Rui Lagartinho                 Fotografias: Paula Ferreira

O chá das cinco dos alfarrabistas: tertúlia e negócio.

Sábado, cinco da tarde, Chiado. Na Rua Anchieta, o grosso dos negócios que havia a fazer já parece ter terminado. Em pequenos grupos, na intersecção das bancas, grupos de alfarrabistas convivem em amena cavaqueira. São cerca de vinte. Conhecem-se e respeitam-se entre si. Se se estimam, já será outra conversa.

 

Júlio Correia é proprietário da Arquimedes. Não tem loja onde venda regularmente. Neste início de ano, pode encontrar-se na feira das quartas-feiras do Jardim Constantino, situado na zona da Estefânia, ou nas Caldas da Rainha ou ainda aqui.

Quando chega, de manhã bem cedo, a primeira coisa que faz é dar uma volta pelas bancas dos colegas. “Compramos uns aos outros, sabemos que temos cliente para um determinado livro e, por isso, compramos para depois vender”, diz. É um hábito aceite, que todos praticam. Às vezes, o mesmo livro muda de sítio três vezes. O preço, claro, aumenta a cada transacção.

O best seller é “Lisboa”, de Alfredo Mesquita, uma edição fac-similada do original de 1903. Custa 10 euros. “Os Devoristas”, de Vasco Pulido Valente, uma história de Revolução Liberal de 1834-1836, a 5 euros, também nos tentou.

 

A nova vida da Livraria Sá da Costa

Se há um local, no Chiado, onde se misturam de forma homogénea turistas e lisboetas, é aqui. A primeira sala da livraria Sá da Costa é um íman, com o seu charme de mapas coloniais, artefactos e milhares de livros de arte e história. Depois, há corredores estreitos que se abrem em salas, cantos e recantos de livros que não estão esquecidos, apenas usam como arma de charme o quererem parecer difíceis de encontrar e de ser levados.

Pedro Castro e Silva pertence à terceira geração da família que se dedica aos livros, e sente orgulho na recuperação de um espaço icónico na cidade, dedicado aos livros desde o século XVIII. Foi aqui, da livraria da família Borel, que saiu o exemplar da Bíblia de Gutenberg que a Biblioteca Nacional adquiriu.

No século XX, foi a família Sá da Costa que tomou conta do negócio de que muitos ainda se lembram. Vinham aqui ver Aquilino Ribeiro ou Almada Negreiros descer o Chiado, comprar mapas para a escola ou reservar cada nova edição renovada das receitas de cozinha da Isalita, uma bíblia das donas de casa.

Para o gerente, para além deste ser um espaço único, o mesmo cumpre a função única de oferecer a preços acessíveis livros que, de outro modo, só se encontrariam nas bibliotecas públicas. “Somos únicos nesta forma democrática e despretensiosa de dar nova vida aos livros”, conclui.

Num espaço com tanta oferta para todas as bolsas, não fazemos sugestões. Apenas apostamos que encontrará aqui, em especial se for de um autor lusófono, aquele livro que nunca teve ou a que perdeu o rasto.

Livraria Sá da Costa
Rua Garrett 100

 

A Livraria mais pequena do mundo?

São 3,9 metros quadrados. Para encontrar o Simão na livraria é preciso entrar e torcer o pescoço. Mas ele ali está, como sempre, desde que, há dez anos, comprou este pequeno armazém nas Escadinhas de São Cristovão, a meio da Rua da Madalena. Foi com naturalidade que este enólogo se adaptou à paixão pelos livros.

 

Enquanto conversamos dez minutos, encostados na escada, passam dezenas de turistas. Mais de metade faz fotos, muito poucos compram. Mas também passam clientes e vizinhos a quem o Simão propõe um livro que vão querer ter.

 

A poesia completa na bela edição da Relógio D’Água e na tradução rigorosa de José Bento custa 15 euros. E quando o filme “Silêncio”, de Martin Scorcese, ainda está nas salas, pode-se adquirir aqui a História da Companhia de Jesus no Japão. A edição da Gulbenkian custa 60 euros. E bastam que saiam dois livros para que o espaço fique mais descongestionado.

 

 

Livraria do Simão

Escadinhas de São Cristóvão 18

 

 

De poucas palavras.

 

Qualquer mito, urbano ou não, parte sempre da realidade. E bastou uma volta aleatória pela cidade para descobrirmos o nosso alfarrabista de poucas palavras. Entramos na antiga Livraria do Carmo e percebemos que é com alguma relutância que José Ferreira aceita baixar o volume do canal de tv por cabo que transmite um concerto clássico.

 

Quando percebe ao que vimos, arrepende-se. Não gosta, nem fala com jornalistas, ele é mais livros. Enquanto o tentamos convencer a que fale connosco, vamos observando a desordem aprumada, onde há de tudo um pouco, na intersecção entre alfarrabista e antiquário. A montra espelha bem a especialização em esoterismo, maçonaria, Fernando Pessoa Pessoa e temas judaicos.

 

 

Se entrar, de certeza que será atendido com profissionalismo e sapiência. Mas, por favor, não diga que foi da nossa parte.

 

Livraria Antiga do Carmo

Calçada do Carmo 50

 

 

Pioneira

 

A escassos duzentos metros da estátua da Maria da Fonte, em Campo de Ourique, está o quartel general de Crisálida Filipe. Foi em 1990 que tomou de trespasse o espaço da Antiquária de Campo de Ourique.

 

Crisálida foi uma pioneira. Uma alfarrabista mulher não estava nos padrões do métier. Os pares apostaram que não duraria seis meses e fizeram-lhe a vida difícil desde o primeiro leilão. “Subiam os preços, só para me boicotar. É o que, na gíria, se chama picar. Quando perceberam que, a cada revés, aumentava a minha resistência, desistiram” explica.

 

 

Crisálida tem um gosto especial em comprar originais de teses de Direito. Na estante, há livros de quase toda a nata da academia nesta área, sobretudo os nomes da geração de ouro do século XX, que moldou o direito civil, penal e administrativo. Alguns discípulos mais jovens, como o professor Marcelo Rebelo de Sousa, são clientes.

 

 

Embora o direito, os livros de arte e de moda tenham a preferência da proprietária, tudo é admitido. Os olhos do repórter do Corvo pousaram na lombada reconhecida da “História da Revista à Portuguesa”, de Vitor Pavão dos Santos. Custa 20 euros. Outra tentação: a primeira edição de 1953 de “O retrato do semeador”, de Vitorino Nemésio. Um bom investimento, por 45 euros.

 

Antiquária de Campo de Ourique

Rua Saraiva de Carvalho 145E

 

 

A loja da esquina

 

A meio da Calçada da Estrela, está uma daquelas lojas pelas quais passamos mas não entramos, ou porque estamos com pressa ou porque apanhámos o eléctrico. Esta reportagem serviu de pretexto para ficarmos a conhecer o negócio alfarrabista de Diogo e Filomena Galopim, aqui instalado há três anos. Entrando no espaço, percebemos que aqui os livros estão sempre em transição: a ponto de serem arrumados e quase depois serem vendidos.

 

 

A história, a filosofia e a literatura são as áreas que os Galopim mais gostam de trabalhar. No dia em que o Corvo ali esteve, o cartoonista Augusto Cid não precisou de trocar muitas palavras com o livreiro que o atendia para encher um saco em poucos minutos. Neste tipo de negócio, a confiança mútua é, quase sempre, a alma do negócio.

 

 

Encontrámos em muito bom estado, e preciosamente resguardada em papel celofane, uma primeira edição da colecção juvenil do Colégio das Gémeas, de Enid Blyton, por 30 euros. Para recordar juventudes mais longínquas, recomendamos “Uma aventura em Cartago”. O herói chama-se Sandokan, o autor Emílio Salgari e a edição de cores garridas da Romano Torres custa 8 euros.

 

Galopim Livros

Calçada da Estrela 185

 

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3 Responses to Um passeio pelos alfarrabistas de Lisboa

  1. Paulo Branco diz:

    A Feira dos Livros da Rua da Anchieta realiza-se há quase duas décadas no local próprio. Um passeio de cultura a céu aberto.

  2. Antonio Rosa Nunes Pais diz:

    Caros amigas (os)
    Gostava muito de adquirir o livro ” Extremadura Portugueza ” parte 2 de Alberto Pimentel mas apesar de todo o meu esforço nao o tenho conseguido. Agora lembrei-me de recorrer a vocês pensando que talvez tenha sucesso. Vamos ver.
    Vou aguardar com grande esperança esperando que seja desta vez.
    Deixo o meu e-mail e telemovel para esclarecer qualquer duvida que surja.
    pais1948@gmail.com
    – 966311331