Um Bazar Circular para Lisboa: como criar uma plataforma para reutilizar o nosso lixo

por • 27 Outubro, 2017 • AMBIENTE, Reportagem, SlideshowComentários (0)451

A cidade é uma fonte inesgotável de materiais e de matéria-prima que, uma vez descartados, podem ser usados de novo, permitindo assim alargar o seu ciclo de vida, reduzir drasticamente a quantidade de desperdícios que criamos e minimizar o impacto ambiental que o atual sistema de produção tem para o planeta.

 

Falamos de madeiras, cerâmicas retiradas de edifícios, plásticos e lonas usados em eventos, componentes de computadores – com quantidades pequenas, mas em grande volume, significativas, de metais raros ou valiosos –, torradeiras estragadas, ferramentas antigas, comida e um longo etecetera que só termina onde acaba a imaginação dos artistas e criadores podem ter nova vida.

 

É nisto que se baseia o conceito de economia circular e é por esta razão que a associação Circular Economy Portugal (CEP) está a organizar um ciclo de conversas na Biblioteca de São Lázaro, em Arroios, em volta do tema “A Cidade enquanto Mina”, ou a cidade como fonte inesgotável de materiais, matéria-prima, objetos e peças obsoletos que podem ser recuperados e reutilizados vezes sem conta. A primeira conversa vai acontecer nesta sexta-feira (27 de Outubro), pelas 18h, e vai focar-se “na arte do respigo”.

 

Nesta sessão, será lançada a ideia de um possível Bazar Circular – ou Centro de Reutilização e de Ecodesign. Um projeto ainda em fase de desenvolvimento, que pode começar com um provável espaço físico e, certamente, será uma plataforma online. Mas como nada está decidido, quem estiver interessado em participar de alguma forma nesta ideia, pode aparecer hoje para debater todos estes assuntos e falar sobre o que já se faz em Portugal, o que ainda se pode fazer e quem está a fazer o quê.

 

 

Mais adiante, ainda sem data prevista, haverá lugar para outra conversa “em volta do tema do urban mining”, adianta Andreia, explicando que “vai andar à volta das muitas estruturas obsoletas – canalizações, cabos, madeiras e outros materiais – e de como ir buscar essas coisas e o que se pode fazer com elas”. E haverá ainda outra sessão, em data ainda a anunciar, sobre outro tema ainda por definir.

 

Trocado por miúdos, o urban mining e outras tendências, artísticas ou funcionais são tudo processos que fazem parte deste grande balão a que se chama Economia Circular. No fundo, são termos novos, atualizados aos novos materiais que nos rodeiam no nosso dia a dia, mas com origens em ofícios tão antigos como o de sucateiro, ou em práticas como a pouco nobre – mas muito útil –andar à gandaia.

 

Graças ao filme de Agnès Varda “Os Respigadores e a Respigadora” (2000), nos últimos anos, passou a usar-se o termo “respigar” (colher o trigo na seara ou ir apanhando coisas “aqui e além”) para denominar a atividade daquelas pessoas que vêm no lixo e nas coisas abandonadas verdadeiros tesouros e os recolhem. Sendo que “a arte do respigo” é hoje considerada uma parte fundamental no conceito da Economia Circular.

 

Andreia Barbosa, da CEP, explica a O Corvo que “deste conceito do respigo, há praticas muito diferentes, como a recolha para sobrevivência, as práticas artísticas ou os upcyclers, que vão buscar materiais abandonado para criarem novos objetos ou obras de arte.” Daí que a ideia de um Bazar Circular faça sentido. “O objetivo genérico é funcionarmos como um intermediário entre a oferta de desperdício e quem o procura. É uma forma de fazer chegar as coisas às mãos de quem as possa utilizar para novos projetos e quem as possa transformar”, diz.

 

 

Segundo o Relatório do Estado do Ambiente publicad0 pela Agência Portuguesa do Ambiente no ano passado, 55% dos resíduos urbanos têm como destino a incineração ou aterro. “A economia circular reúne um conjunto de estratégias que permitem resolver esta questão fundamental, que toda a gente reconhece, que é a impossibilidade de produzir, consumir, desperdiçar e produzir desta maneira”. Mas, reconhece Andreia, “ainda é complicado mudar comportamentos, mudar os processos, e modelos económicos, que funcionam muito bem, está assente em premissas que não são sustentáveis. Está obsoleto”.

 

Alguns exemplos do que se pode fazer, e do que o próprio conceito engloba, encontram-se o trabalho do artista Bordallo II, que usa plásticos e materiais recuperados do lixo para fazer os seus murais. Os projetos Fruta Feira e Refood são outros dois exemplos de como é possível aproveitar a comida que sobra e que, de outra forma, acabaria no lixo.

 

A APRRUPP – Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Proteção do Património, tem a funcionar uma Rede de Repositórios de Materiais de Construção (https://aprupp.org/), que serve para “reunir e centralizar num serviço de consulta web as relações entre as várias entidades que guardam estes materiais e quem os procura”. Os sapatos veganos das marcas NAE ou MDMA Shoes (feitos com pneus, garrafas, airbags ou restos de tecidos), todas as formas de mobilidade partilhada encaixam também neste conceito.

 

De acordo com a porta-voz da CEP, “uma das estratégias deste modelo de economia é a transformação dos produtos em serviços. Eliminar, sempre que possível, a ideia de que temos de ser proprietários (de um carro, de uma máquina de lavar), para pensarmos que podemos reduzir o número de objetos se todos usarmos os mesmos.” Isto traduz-se numa maior durabilidade dos produtos, já que os fabricantes e proprietários “têm vantagens em criar produtos que durem mais tempo, reduzindo assim a mão-de-obra em manutenção e, por outro lado, os desperdícios.”

 

Entre os outros objetivos que a associação CEP tem para o futuro, estão o de promover “projetos de reutilização do princípio ao fim, para demonstrar que certas necessidades que a cidade tem podem ser supridas com os materiais que provêm da sua reutilização”. O que ainda não sabem é se será por concurso ou por convite. Mas prevêem lançar um concurso de ideias e também estão em conversações com o Hub Criativo do Beato para “identificar e fazer uma espécie de curadoria para o reaproveitamento de alguns dos materiais, máquinas e objetos que estão lá, e que não têm valor patrimonial, para depois equipar o próprio local.”

 

Texto: Margarita Cardoso de Meneses

 

 

Ciclo de Conversas: A Cidade Enquanto Mina 
Biblioteca São Lázaro

Rua do Saco 1, Lisboa

Entrada livre. A próxima será a 12 de janeiro, às 19h, no mesmo local, sobre o conceito de “urban mining”.

Circular Economy Portugal
www.circulareconomy.pt

 

Pin It

Textos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *