São muitos os desafios à generalização dos veículos elétricos e partilhados em Lisboa

por • 1 Novembro, 2017 • AMBIENTE, MOBILIDADE, SlideshowComentários (1)954

Apesar das conhecidas dificuldades nas deslocações em transporte individual na capital portuguesa, há quem continue a achar que esse pode ser um caminho a explorar. E olhe com um sorriso para o futuro. O qual até já estará em marcha, consideram os mais optimistas, apontando para soluções em que a electricidade, a partilha e a conectividade serão os elementos-chave. Tudo a funcionar através de apps instaladas nos telefones dos utentes. São vários os exemplos de empresas desse sector já a operar em Lisboa, incluindo a EMEL. A partilha de bicicletas, de automóveis e de scooters está, porém, ainda a dar os primeiros passos por cá. O Corvo foi à conferência “Mobility on The Move”, realizada na semana passada, ouvir o que aí poderá vir. Para agora, prevalece uma única certeza: há tanto potencial como trabalho por fazer.

 

Texto: Margarita Cardoso de Meneses

 

Deixar o carro em casa, ir de metro para o trabalho, pegar numa scooter elétrica partilhada, à hora do almoço, para ir ao ginásio e à loja X de produtos naturais, e regressar a casa de bicicleta, aproveitando para apanhar um pouco de ar fresco…Esta é a tendência em muitas cidades do mundo desenvolvido e é nessa direção que Lisboa caminha. Por cá, a mobilidade partilhada e em rede já conta com muitos adeptos, traduzidos no número de utilizadores dos diversos serviços oferecidos pelas empresas e start ups portuguesas já existentes.

 

Tal ficou claro na semana passada, na conferência Mobility on the Move, promovida pela Brisa para discutir o futuro da mobilidade em Portugal, à qual O Corvo assistiu. Um futuro que já chegou.

 

Partilha e conetividade são duas das palavras a reter, quando se pensa no que será a mobilidade nas cidades, daqui para a frente. É uma tendência que já vive, mas ainda há um longo caminho por percorrer. Estas propostas querem resolver problemas comuns a todas as grandes urbes, como o trânsito, o estacionamento e, um dos mais preocupantes, a má qualidade do ar. A esses dois conceitos, deve somar-se ainda uma solução: os transportes elétricos.

 

“O setor da mobilidade de pessoas e do transporte de bens vale hoje 15% de todas as emissões de gases de efeito estufa antropogénicas. Mas, se focarmos apenas nas emissões que estão associadas à energia, ou seja, que resultam da queima de combustíveis fósseis, o setor da mobilidade de pessoas e do transporte de mercadorias, representa 25% das emissões”. Foi desta forma que o secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, José Mendes, descreveu os efeitos gerados pelo atual sistema de mobilidade instalado nas cidades, durante a conferência da semana passada.

 

Entre um painel de especialistas em mobilidade (José Manuel Viegas), empresários do setor (Brisa, Drive Now, Galp), patrocinadores (Liberty Seguros) e fundadores de start ups e empresas bem-sucedidas (mobi.me by CEiiA, eCoolltra, entre outras), discutiu-se o futuro da mobilidade, as soluções existentes e a importância de reverter o padrão atual de modo a garantir a eficiência dos transportes e conseguir chegar às metas ambientais definidas em Paris, em 2015.

 

Grandes desafios e soluções à vista

 

O congestionamento é “a queixa mais frequente dos cidadãos aos presidentes de câmara em todo o mundo”, considera José Manuel Viegas, que o coloca entre os principais problemas da actual mobilidade urbana. O que, nota, tem um “reverso da medalha: os transportes públicos a funcionarem com dificuldade e a falta de acesso aos mesmos, que é um fator de exclusão social.”

 

A segurança rodoviária e os padrões de mobilidade mais complexos – “antigamente, 90% das crianças iam a pé para a escola, hoje não chega a 15%, além das atividades extra”, explica – são outras dificuldades com que nos deparamos. Isto para além da maior de todas, que é a barreira à mudança, já que “as cidades foram sendo redesenhadas e a nossa maneira de organizar o dia-a-dia foi sendo readaptada ao uso do automóvel”, diz o especialista em transportes.

 

O sistema da Drive Now, já em utilização em Lisboa. (DR)

 

De acordo com José Manuel Viegas, as mudanças que aí vêm são grandes. Em primeiro lugar está a conetividade digital, já que “o acesso virtual torna a relação entre a procura e a oferta muito simples e transformou radicalmente a forma como podemos movimentar-nos” diz. Em segundo lugar está a eletrificação, a acontecer mais depressa do que se previa há um ou dois anos. “A Toshiba diz que vai pôr no mercado, no próximo ano, uma bateria que tem o dobro da capacidade, que carrega 50% em 6 minutos”, dá como exemplo. Por ultimo, a automação dos carros, uma área em que diz estar a haver muitos progressos, embora haja “diferenças de opinião muito fortes”. “O presidente da General Motors diz que terá testes no terreno no próximo ano e quer ter carros no mercado em 2021. O presidente da Fiat diz que só lá para o fim da década de 20.”

 

 

Mas o que veio para ficar e parece ser a resposta mais abraçada por todos é a mobilidade partilhada. Referindo dois estudos sobre o assunto, feitos para o International Transport Forum e dos quais foi co-autor, usando os dados que tinha especificamente sobre Lisboa, José Manuel Viegas afirma que se obtiveram “resultados espetaculares de grande qualidade de serviços aos utilizadores”. Nesse cenário mais optimista, saído dessas projecções, “toda a gente tem transporte porta a porta ou esquina a esquina, a preços muito baixos porque ninguém tem custos”. Com duas vantagens muito claras, afirma: “uma redução das emissões em cerca de 35%, além de que, se substituíssemos todos os veículos privados e todos os autocarros, reduzíamos o espaço de estacionamento em Lisboa em cerca de 95% ou o equivalente a quatro quilómetros quadrados.”

 

 

Neste aspeto, parece que os problemas estão claramente identificados e as soluções estão à vista. E já estão a ser implementadas. No entanto, avisa o professor, para que tudo isto funcione, “é impreterível que haja coerência horizontal e vertical” – ou seja, do Estado e da sociedade -, mas também “longitudinal, ao longo do tempo”. “O principal desafio não é saber o que fazer, mas conseguir liderar o processo. Estas são medidas de curto e médio prazo e temos de ser capazes de as alinhar nas medidas de longo prazo, que são as alterações climáticas”, advoga.

 

 

Medidas políticas para um futuro mais sustentável

 

Para o secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, José Mendes, o desafio que se coloca é claro. “Até 2050, a atividade do setor da mobilidade vai duplicar”, avisa. “Isto significa que as 7,7 gigatoneladas que são hoje emitidas pelo setor vão escalar, se nada for feito, para 12 a 13 gigatoneladas por ano, em 2050”, prevê. No entanto, o acordo de Paris define que, para evitar o aumento da temperatura global em 2 graus centígrados, “é preciso que, até 2050, as emissões do setor sejam entre 2 e 3 gigatoneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano”, preconiza.

 

Obviamente, a situação é crítica. Mas o que fazer? Além da alteração radical dos comportamentos, o secretário de Estado considera que “Portugal está a fazer um bom caminho nessa matéria, sendo que o caminho a percorrer é ainda gigante”.

 

E elenca o que considera estar a ser bem feito: a meta de ter 1600 pontos de carregamento na rede pública no final de 2018 vai ser antecipada para primavera do ano que vem; apoiar áreas de carregamento para campus universitários – “temos um programa de instalar até 60 postos de carregamento semirrápidos (22kw) em campus”; mas “também na área da performance ambiental das motorizações, o grande programa de renovação de frotas de autocarros, no caso 516, dos quais 78 elétricos e 438 a gás”, avança. Isto graças a um investimento de 156 milhões de Euros, apoiado em parte pelo programa Portugal 2020.

 

Por fim, e talvez a medida mais interessante para captar potenciais utilizadores: “a possibilidade de dedução do IVA (6%) em sede de IRS nos passes de transportes públicos, e depois os novos modelos de negócios – aqueles que nos permitem introduzir este tema da partilha”, já prevista no Orçamento de Estado deste ano.

 

 

“Pretendemos que as pessoas que utilizam formas de mobilidade mais eficiente possam ter algum benefício fiscal”, diz o membro do Governo. Mas, para que isso aconteça, salienta, estas modalidades precisam de ter enquadramento legal, nomeadamente, o car sharing (com um limiar de uso previsto de até 12 horas ou até de 100 quilómetros) Isto “para as separar de outras formas, como por exemplo o rent a car”, explica. Uma vez aprovada a alteração a essa lei, que permitirá a formalização da modalidade de partilha automóvel, será possível deduzir estas despesas no IRS.

 

 

Portugal muito à frente nas soluções, mas atrás na coordenação com as cidades

 

As propostas apresentadas na conferência da semana passada, produtos de start ups portuguesas saídas de aceleradoras ou de grupos de trabalho de empresas com as universidades, cobriam desde a mobilidade nas cidades até a empresas de logística, transporte de mercadorias ou mesmo para a área da saúde pessoal. Algumas delas, como o CeiiA (Centro de Excelência para a Inovação da Indústria Automóvel) ou eCooltra, já estão a funcionar em vários países.

 

A massificação de tantas soluções e modalidades de mobilidade “é, com certeza, uma boa notícia para as pessoas, enquanto indivíduos. E também para a economia”, defende o secretário de Estado. O problema é que com tanta oferta – e ainda agora começámos -, a planificação nem sempre é a mais fácil. Qual o serviço que funciona melhor para mim? Ou que está mais perto? Quanto é que me vai custar? Apesar de todos os serviços e soluções oferecerem apps ultrapersonalizáveis, acessíveis através de qualquer smartphone ou tablet – a tal conetividade digital –, até não acertarmos com os serviços mais adequados para nós, o excesso de oferta e o tempo que se perde podem tornar-se avassaladores.

 

 

André Dias, o Head of Intelligent Systems do CEiiA, tem uma resposta para gerir a oferta de serviços de mobilidade. Esta empresa de soluções ligadas ao setor automóvel, fundada em 1999, foi ampliando o seu raio de ação e hoje opera em esferas como a aeronáutica e a mobilidade. Criou a plataforma mobi.me, que “permite integrar vários serviços, de operadores diferentes através de um interface único”. Como explica a O Corvo o empresário: “Os clientes do mobi.me não são as pessoas, mas os operadores de serviços de mobilidade, ou uma cidade que pretenda criar uma visão integrada dos seus transportes”.

 

São eles que gerem o serviço MobiCascais, por exemplo, o qual oferece aos utilizadores a possibilidade de usar os vários meios de transporte – público e partilhado, e mesmo os lugares de estacionamento ou o carregamento de veículos elétricos –, através de “avenças” ou pacotes pré-comprado. “O que se está a fazer em Cascais é muito interessante”, reconhece André Dias, “o problema é que se trata de fazer um caminho e estamos condicionados com a velocidade de conseguir chegar aos acordos com os diferentes operadores.” A verdade é que Cascais é, ainda, uma espécie de projeto-piloto, resultante de “um alinhamento de visão entre a Câmara e o CEiiA”.

 

Em Lisboa, o CEiiA “está a liderar as tarefas de mobilidade do projeto farol Sharing Cities”, uma iniciativa da União Europeia, que tem Lisboa, Londres e Milão como líderes e outras cidades europeias como seguidoras. “Em Lisboa, há cinco conjuntos de medidas contempladas neste projeto”, resume André: “as bicicletas partilhadas (as Gira); a componente dos postos de carregamento numa ilha da mobilidade que se está a pensar criar no Marquês de Pombal; a partilha da frota municipal com veículos elétricos; e também a área do smart parking e o carregamento de veículos elétricos; e, por fim, na área da logística urbana, associado à vertente de cargas e descargas”. Neste âmbito, continua, “vamos desenvolver apps que permitiram ao cidadão interagir de uma forma integrada.”

 

Para André Dias, porém, “Lisboa ainda não tem como utilizar o car sharing, até porque muitas vezes os veículos são sujeitos a contraordenação” e aponta para a questão da (des)articulação entre a administração central e a das cidades. Para o empresário, “não é só um problema do poder local. Existe muita desarticulação: uma pessoa vem a Lisboa e é de uma forma, em Cascais é de outra…”

 

Michael Pereira, da eCooltra, também abordou o problema do estacionamento na capital. Neste serviço de scooters elétricas partilhadas, que já funciona em Lisboa, Madrid, Barcelona e Roma, deparam-se frequentemente com situações de utilizadores que deixam as motas no passeio – por negligência ou por falta de espaço nos lugares para motas –, sofrendo multas ou queixas dos moradores. Sendo o eCooltra um serviço “free flow”, em que não é obrigatório estacionar em docas próprias, isto tornou-se um problema em Lisboa devido à ação da polícia. Mas, segundo apurou O Corvo, a empresa está em conversações com as entidades responsáveis para sensibilizar os agentes e tentar encontrar uma solução.

 

 

A conferência Mobility on the Move foi disponibilizada online e pode ser vista aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=jnKnW7u1oNk&feature=youtu.be

 

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One Response to São muitos os desafios à generalização dos veículos elétricos e partilhados em Lisboa

  1. Paulo Fonseca diz:

    Não é assim tão barato como dizem. Vejam bem o preçário.

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