Revolta na Baixa

por • 16 Março, 2013 • Actualidade, ReportagemComentários (4)1734

Na Baixa, há dezena e meia de lojistas em risco de perder tudo, para que no quarteirão onde se instalaram surja um novo hotel de quatro estrelas. Vão ter de sair até Setembro, tal como os inquilinos dos prédios. Estão revoltados com a lei que, dizem, permite destruir a vida de muitas famílias.

 
Texto: Fernanda Ribeiro  Fotografia: Carla Rosado

 
A revolta habita todo um quarteirão da Baixa, situado entre a Rua dos Fanqueiros e a Rua dos Douradores, onde perto de duas dezenas de lojistas e inquilinos enfrentam procedimentos de despejo, para que na zona seja erguido um hotel de quatro estrelas.

 
O quarteirão — onde outrora existiu o Convento Corpus Christi, também conhecido como o Convento dos Tanoeiros, por se situar na antiga Rua da Tanoaria — era propriedade da companhia de Seguros Tranquilidade que, em 2010, transferiu a propriedade dos três prédios contíguos para o Fundo de Investimento de Imobiliário Fechado “Corpus Christi”.

 
O fundo propõe-se recuperar os prédios, que constituem património classificado, e na zona mais nobre deste conjunto erguer um estabelecimento hoteleiro, como se lê no relatório de gestão de 2010. Alguns lojistas já deixaram os estabelecimentos que ocupavam, e nas lojas deixadas vagas decorrem actualmente escavações arqueológicas, por se tratar de património classificado.

 
Os comerciantes que ainda permanecem sentem-se revoltados, como contaram ao Corvo. “É uma situação muito injusta porque, tendo em conta que os proprietários se propõem fazer obras profundas, ao abrigo da nova Lei (do Arrendamento) eles podem despejar-nos, pagando-nos apenas um ano de renda. Como aqui temos umas rendas muito baixas, eu pago 147 euros, isso é quase nada”, afirmou Paula, dona da Artimoda, uma loja de fios e lãs.

 
“Investi aqui tudo o que tinha. Agora, com 50 anos, fico nesta situação e nem sequer tenho direito a fundo de desemprego. Não que quisesse ficar a receber do desemprego, o que quero é trabalhar. Tenho uma empregada há 21 anos comigo, que tem 60 anos e que é que vamos fazer?”, questiona.

 
“Sinto uma grande revolta. Nem estou contra os proprietários. Estou é contra a lei. Porque até admito que eles subissem as rendas, mas não, eles querem é o despejo e nós vamos embora sem nada”.

 
No segundo andar do mesmo prédio está a Associação Portuguesa de Barbearias, Cabeleireiros e Institutos de Beleza (APBCIB), cujo contrato de arrendamento é de 1937 e que enfrenta igual procedimento de despejo. Cristina Bento, da APBCIB, também entende que o problema está na lei que “abriu a porta escancarada para os senhorios fazerem negócios de milhões e deixa os inquilinos sem nada. Nem sequer nos pagam as benfeitorias que fizemos no prédio”.

 
“E o mais grave é que eles (o fundo) que têm um património avaliado em mais de 7 milhões de euros, ao constituírem o fundo ficam isentos de IMI”, sublinha Cristina Bento. “A nós, deram-nos seis meses para sair daqui. O prazo termina em Setembro e nessa altura a APBCIB terá que encontrar uma nova sede. Mas o pior é para alguns lojistas e comerciantes, que ficam sem nada”, considera.

 
Dezenas de famílias em risco

 
É o caso da Adega dos Lombinhos, na Rua dos Douradores desde 1917, outro estabelecimento em risco de fechar portas, para mágoa de muitos lisboetas que ali vão aos petiscos. João Amorim, que lá começou como empregado em 1981, comprou a quota de trespasse com o irmão há nove anos. Agora, nem o dinheiro que deu pela Adega lhe pagam. “Dão-nos um ano de renda, o que não é nada. E os advogados dizem-nos que vamos perder isto”, diz desanimado. Além dele e do irmão trabalham ali mais duas pessoas.

 
O mesmo se verifica com outros comerciantes que além de perderem as lojas ficam também sem dinheiro para indemnizar os empregados, o que afectará dezenas de outras famílias.

 
Os inquilinos dos andares já são poucos e a maioria com idades que rondam os 80 anos. Maria Natércia Bracinha, 74 anos, é uma delas e foi também alvo de uma acção de despejo. Mas meteu o processo em tribunal e ganhou, como contou ao Corvo. “Eles têm de me arranjar outra casa, só que me pedem que pague de renda 649 euros. Ora isso é quase o que eu recebo de pensão”.

 
Já na esquina da Rua da Vitória com a Rua dos Fanqueiros está uma loja de tecidos, detida por Jorge Gonçalves que ali começou a trabalhar como marçano aos 13 anos. Agora com 78, o dono da loja continua a não querer deixar de trabalhar. “Mas eles querem forçar-me”, diz. E o que mais o preocupa são os empregados que tem, um deles com 40 anos de casa.

 
Uns metros adiante, na Rua dos Fanqueiros, está uma loja de confecções, a V. Silva, propriedade de Emília de Sá que diz ter pago 300 mil euros pelo trespasse da loja onde a situação é idêntica. “Tenho uma empregada com 20 anos de casa. O que lhe faço se não vou ter dinheiro para a indemnizar? Vai ser mais uma para o desemprego. Eles estão a tentar aterrorizar-nos, mas eu não tenho medo”.

Pin It

Textos Relacionados

4 Responses to Revolta na Baixa

  1. helena soares diz:

    A minha opinião não há-de ser muito popular, mas estes lojistas só se lembram que um ano de renda de indemnização é muito baixo agora. Enquanto pagaram 147 euros (!!) de aluguer por uma loja na Baixa estava tudo bem

  2. FIlipe Felizardo diz:

    O problema não será a indemnização – mas a destruição de um quarteirão da baixa para continuar com a descaracterização da cidade. O dinheiro ( sejam 147 ou 1000 ) não vale nada se se avaliar o impacto disto a nível individual e colectivo: estas lojas deixam de existir; os inquilinos da baixa são expulsos do centro da cidade; e aquilo que é de todos, é inclassificável, e é ainda mais abstracto que ‘património’, fica entregue ao turismo. Entre uma Baixa de Lisboa que está desertificada, não tem bons negócios, e tem um aspecto sofrido – e uma Baixa de plástico, em que as rendas das lojas são mais do que 147€ e os turistas espezinham, distraídos e entretidos, o bem estar dos habitantes… venha o diabo, e que escolha a primeira opção.

    • zé maria diz:

      “os turistas espezinham, distraídos e entretidos, o bem estar dos habitantes… ”
      há muitos habitantes na baixa a serem espezinhados por turistas? quantos empregos criam essas lojas e quantos criará um hotel? bem estar de quais habitantes?

  3. Sara Rafael diz:

    Senhor Zé Maria,
    Os empregos que esse hotel irá criar provavelmente serão os desempregos que já começou a gerar, juntamente com o número de famílias despejadas.
    Estamos a falar de estabelecimentos que fazem genuinamente parte da cultura da cidade, de comércio tradicional, de há muitos anos.
    Bem sabemos que “o turísmo é importante para o desenvolvimento da ecónomia do país”, mas que país é este que põe de lado pessoas que trabalham uma vida inteira?
    Convido-o a ir dar uma volta pela baixa.