Ao fim de mais de sete décadas na lista de espera para ser demolido, o edifício onde, desde 1943, funciona o restaurante La Gondola, na Avenida de Berna, fechará portas para fazer cumprir um destino. O dia 6 de agosto será a última oportunidade para ali se poder desfrutar de uma refeição, anunciaram recentemente os donos do estabelecimento. Apesar de a notícia ter apanhado muita gente de surpresa – a ponto de ter sido desencadeada uma onda de solidariedade e de apreço pelo restaurante que inclui uma petição contra o anunciado desfecho – trata-se da confirmação de um cenário previsível. Sobretudo desde que, em dezembro de 2014, foi aprovada em reunião de câmara uma operação urbanística de permuta de terrenos entre o município e o Montepio Geral. A instituição de crédito e a sua seguradora, a Lusitânia, verão construídas as suas novas sedes na Praça de Espanha, num terreno que inclui a parcela onde o restaurante se localiza.

 

Na petição que foi lançada, esta semana, pelo grupo cívico Vizinhos das Avenidas Novas, intitulada “Contra a Demolição do Edifício Restaurante Gôndola e Salvar a identidade das Avenidas Novas”, lembra-se a história do edifício desenhado e erguido, em 1928, por Júlio Salustiano Rodrigues e de como, apenas nove anos depois, em 1939, se começou a equacionar a sua demolição. A compra daquela parcela de terreno, na altura, pela Câmara Municipal de Lisboa, surgia como alternativa a uma expropriação com intuito de pôr em prática um plano de urbanismo desenhado para a área. O que nunca chegou a acontecer, pelo que o imóvel acabou por se manter na posse da autarquia, albergando o restaurante La Gondola a partir de 1943. Desde então, assistiu à demolição das muitas moradias que existiam na zona e a sua substituição por edifícios de arquitectura moderna.

 

 

“Neste contexto de substituição acelerada de edifícios que foi a realidade das Avenidas Novas, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, a demolição de um edifício como o do restaurante La Gondola não seria controversa. Hoje, no entanto, a situação é muito diferente”, diz o texto de suporte da petição, pondo em causa a ideia de um futuro de “construção nova em grande escala”. Além disso, o estabelecimento que agora parece ter os dias contados, alegam os autores da iniciativa, “constitui uma loja com reconhecidas tradições, memória histórica e longevidade, que configura um candidato concreto e assertivo ao ‘Programa Lojas com História’”, ao qual propõe a sua candidatura. Os promotores da petição alegam ainda que a programada demolição entrará em conflito com o Regulamento do Plano Director Municipal (PDM), que, dizem, só permitirá a demolição de edifícios em situações excepcionais.

 

 

“São já muitos os edifícios de arquitectura tradicional e de valor histórico, cuja demolição e posterior substituição se vê aprovada, sem que sejam compreensíveis os critérios. Disso são exemplo os muitos edifícios de arquitectura tradicional, bem conservados e enquadrados, cuja demolição ocorreu ou se prevê em Lisboa, como é este caso”, argumenta-se, antes de se pedir que a demolição e a alteração não sejam autorizadas até que se proceda à avaliação da sua classificação como Imóvel de Interesse Municipal bem como da sua candidatura ao “Programa Lojas com História”. Alegando estar em causa a “perda da identidade de Lisboa”, os autores da petição afirmam que “aquilo que poderia ser considerado como um edifício dispensável, de qualidade inferior a outros desaparecidos ou em vias de desaparecer, tem hoje um valor adicional de memória urbana”.

 

 

A construção das novas sedes do Montepio Geral e da Lusitânia acontecerá numa parcela de terreno, situada entre a Praça de Espanha, a Avenida de Berna e a Avenida Santos Dumont, com a área de 6.232,72 metros quadrados e uma capacidade construtiva de 31.800 metros quadrados de superfície de pavimento. Terreno que ambas as instituições receberam do município, em troca de lhe cederem a parcela onde, até setembro de 2015, funcionou o antigo Mercado da Praça de Espanha. O mesmo terreno deverá ser alvo de uma operação de construção que, segundo a Unidade de Execução da Praça de Espanha, aprovada em maio de 2016, prevê a implantação de um edifício com uma altura máxima de 145 metros. Toda a aquela área deverá ser redesenhada para a criação de “um parque urbano de escala citadina”. A CML prevê que a zona compreendida entre a Praça de Espanha, Sete Rios e Entrecampos venha a ser o novo centro de escritórios da capital.

 

O Corvo tentou falar com a gerente do restaurante La Gondola, mas tal não foi possível até ao momento da publicação deste artigo.

 

Nota de redacção: O Corvo foi contacto, no dia 29 de julho, pelos autores do blogue Coisas (In)fungíveis, alegando que uma parte substancial da contextualização histórica contida na petição terá sido transcrita, sem a sua autorização, do seguinte artigo: https://coisasinfungiveis.wordpress.com/2017/07/14/praca-de-espanha-em-lisboa/

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Rui Pedro Barbosa
    Responder

    Quase 500 já assinaram!

    #Petição “Contra a Demolição do Edificio Restaurante Gôndola e Salvar a identidade das Avenidas Novas”

    Vamos tentar salvar este edificio! Vamos Assinar! Divulgar! Promover!

    http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PeticaoGondola

    • Joaquim Ribeiro
      Responder

      E porquê?
      Será que os lisboetas podem tomar a sua refeição neste restaurante?Ou é um restaurante social?
      Um restaurante…identidade?
      Por amor da santa!

      • Ana Santos
        Responder

        Se é pelo amor da santa, então está bem!

      • Catarina de Macedo
        Responder

        Caro Joaquim Ribeiro…Uma leitura atenta impedia que o senhor colocasse essas perguntas. É o edifício em si, pela sua arquitectura, que é importante para preservar a tradição cultural da cidade. O restaurante, empresa que está a fazer uso do edifício, pouco interessa. As pessoas estão contra a demolição do edifício e não contra o encerramento do restaurante, que aliás já aconteceu.

  • Rui Pedro Barbosa
    Responder

    O Montepio, ao arrepio do que foi dito, e por omissão expressa na permuta executada, não irá construir ali a sua sede (pelo menos não no terreno todo que foi cedido), estando a preparara uma operação imobiliária para realizar vários milhões de lucro. À custa da nossa história e identidade! Não podemos permitir!

  • Aninhas Mateus
    Responder

    Tem um terreno ao lado para fazer um banco. Esse espaço já foi uma vivenda mas mandaram a baixo e agor é um espaço vazio.

  • Laura Pereira
    Responder

    Lamentável

  • Eduardo Mota
    Responder

    Indecente

  • Eugenia Neves
    Responder

    É lamentável. A CM de Lisboa no seu melhor

    • Fernando Cabrita Moreira
      Responder

      Porquê a CML ?

      • Catarina de Macedo
        Responder

        É a CML que dá autorização, segundo o Regulamento do Plano Director Municipal, referido no texto acima, para a demolição de imóveis característicos. Supostamente apenas o pode fazerem situações muito concretas e isso não tem vindo a ser respeitado, como foi de igual modo mencionado no texto. A CML tem concedido inúmeros autorizações de demolições de imóveis históricos sem qualquer justificação legal mediante o previsto pelo o tal Regulamento. Daí a indignação das gentes. Mais uma vez, uma boa lei que apenas existe no papel.

  • João Vassalo Pereira
    Responder

    Como é que um banco praticamente falido se poe a construir uma nova sede? Ah espera…alguem …os do costume pagam caso as coisas dêem para o torto.

  • Asterix
    Responder

    Mas por que diabo há tanta polémica por causa de fechar um restaurante e deitar abaixo uma moradia decadente?
    Não há pachorra!

    • Joaquim Ribeiro
      Responder

      Nem mais meu caro!
      Não há mesmo pachorra!
      Só falta argumentar que o D. Afonso Henriques almoçou naquele local!

    • obelix
      Responder

      nem, axo que a unica polemica e nao haver dinheiro cortar nos honestos que trabalham para depois nao a dinheiro mas mega obras bancarias, alias tirando um sucateiro as ultimas grandes falcatruas so foram sempre ligadas a banca e afins, sem polemica claro. manda a baixo que o povo aguenta ai aguenta

    • Catarina de Macedo
      Responder

      Uma leitura atenta impedia que o senhor colocasse essas perguntas. É o edifício em si, pela sua arquitectura, que é importante para preservar a tradição cultural da cidade. O restaurante, empresa que está a fazer uso do edifício, pouco interessa. As pessoas estão contra a demolição do edifício e não contra o encerramento do restaurante, que aliás já aconteceu.

  • Maria Quezada
    Responder

    Que pena se assim for

  • Rui Barbosa
    Responder

    Caro Samuel Alemão, em nome dos Vizinhos das Avenidas Novas e de todos os fregueses desta freguesia, obrigado pelo destaque.

    #Petição “Contra a Demolição do Edificio Restaurante Gôndola e Salvar a identidade das Avenidas Novas”

    Vamos tentar salvar este edificio! Vamos Assinar! Divulgar! Promover!

    http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PeticaoGondola

  • Cláudia Raquel
    Responder

    João Nascimento

  • António M. Garcia
    Responder

    Tiago Monteiro

  • Paula Ribeiro
    Responder

    Mais uma triste notícia .

  • São Lopes
    Responder

    O quê???? Como é possivel???

  • Isabel Topa
    Responder

    Esta e outras merecia uma manif! Não só andamos a salvar os bancos, como eles vão ganhando à custa dos clientes. Quando se trata de salvar/ manter o património têm não sei que prioridade! Temos de nos insurgir contra isto, estão a espoliar-nos.

  • Duarte Mendes
    Responder

    Tipo as duas moradias da António Augusto Aguiar… Que tristeza…

  • Gabriel Andrade Lopes
    Responder

    Nós a entrarmos para os bancos e eles a fazerem sedes…Total descaramento!!!

  • Margarida Guerra Guerra
    Responder

    Dr Medina e seu professor arquiteto salgado no seu melhor.

  • Rosario Abreu
    Responder

    Talvez culpa de todos nós.Agora temos muita pena mas quem continuava a ir lá almoçar ou jantar tão frequentemente para que se conseguisse manter? Estava ás moscas há que tempos!

    • Gabriel Andrade Lopes
      Responder

      Nem sempre às moscas…Podia estar sempre cheio que se o contrato expirou, que a nova renda incomportável, etc…Aconteceu a tantos…

    • Rosario Abreu
      Responder

      Mas ultimamente comia-se MALZOTE.

    • Gabriel Andrade Lopes
      Responder

      Há um ano que não vou…no verão passado não esteve mal….

    • Catarina de Macedo
      Responder

      O mal não foi o restaurante fechar. Podia ter-se encontrado outro uso para o edifício, aliás o próprio banco podia deixá-lo como está e fazer uso dele. O mal não é que o restaurante tenha fechado, mas sim que os novos donos não se preocupem em manter o edifício tal como os antigos donos o fizeram, independentemente do destino que lhe haviam de dar.

  • Ana Paula Costa
    Responder

    É lamentável! Que pena…..

  • Ana Rita Gonçalves
    Responder

    Whattttt?!?!?!

  • Duarte Rocha
    Responder

    Como é possível, uma autarquia de uma cidade como Lisboa, inserido num país, que cada vez mais, vive do turismo, em todas as suas grandezas e vertentes, pode permitir que uma lembrança/herança arquitetónica e cultural, da última grande guerra, que até deveria ser alvo de uma intervenção, dos seus interiores e exteriores, com o objetivo de evidenciar essa época marcante, para toda uma civilização, que até, pode ser usado, como cenário para futuros filmes e docs, desses tempos, pode permitir que façam tamanho crime de “lesa majestade” a toda a humanidade!!!…

  • Duarte Rocha
    Responder

    Como é possível, uma autarquia de uma cidade como Lisboa, inserida num país, que cada vez mais, vive do turismo, em todas as suas grandezas e vertentes, pode permitir que uma lembrança/herança arquitetónica e cultural, da última grande guerra, que até deveria ser alvo de uma intervenção, dos seus interiores e exteriores, com o objetivo de evidenciar essa época marcante, para toda uma civilização, que até, pode ser usado, como cenário para futuros filmes e docs, desses tempos, pode permitir que façam tamanho crime de “lesa majestade” a toda a humanidade!!!…

  • Sandro Pires
    Responder

    Ou seja pelo que eu entendi a autarquia que governa no e sob o interesse geral deve abdicar de efectuar um parque Urbano para “salvar” um restaurante de luxo de privados mas já para o decadente!!!
    Ok ainda bem que não o faz, porque senão não era Câmara mas sim uma defensora de interesses particulares de que apenas usufruem alguns!!!
    Querem fazer o abaixo assinado para alguém, façam-no dirigido ao Montepio Geral, pelo que eu entendi este até pode nem construir em todo o espaço e é este o legítimo proprietário do terreno!!!
    De facto este abaixo assinado e esta parvoeira toda só se justificam em ano de autárquicas e lendo alguns dos signatários vejo tantos candidatos do PPD/PSD e do CDS-PP, deveriam era a andar a justificar-se porque é que mentiram no caso da quantidade de usuários das ciclovias, é que foi numa destas que vi 10 usuários num espaço de um minuto, ou seja, “duas semanas” do total dos usuários (5) que estes dois partidos diziam que haviam por semana!!!
    Tenham juízo e arranjem uma vida…

  • Carolina Andrade
    Responder

    Nem sabia que aquele restaurante existia! Não me choca a demolição de um edifício decadente para dar lugar a um edifício moderno. Se assim não fosse ainda vivíamos em cavernas…

  • Zé chico
    Responder

    Aos preços cobrados pela casa, a atividade naquela zona vai manter-se igual.

  • M Ventura
    Responder

    A questão não pode ser colocada ou porque é um restaurante ou porque vai ser a sede de um banco, ou o que seja. A questão é o “abate” da história, da memória de uma cidade, de um local, de um símbolo. Ou seja, banir a “história”, as referências. Neste mundo louco, tudo ou quase tudo é para deitar a baixo, dando lugar ao modernismo e experimentalismo. Existe vergonha do passado ! Na época em que é de “bom tom” reabilitar e se a noticia corresponde à verdade, é pena que não se opte pela reabilitação do edifício. Mas os desígnios do dinheiro e de quem manda são inconfessáveis!

  • Fernando Cabrita Moreira
    Responder

    Não é o único edifício antigo que há naquela zona ?

  • Fernando Cabrita Moreira
    Responder

    Não é mais importante salvar o edifício que já foi restaurante e se encontra a abandonado há vários anos numa esquina da Av da República ?

  • Pika Maria
    Responder

    Assinado e partilhado!

  • Maria Lança
    Responder

    Não posso acreditar…um óptimo restaurante…com um jardim fabuloso….

  • Horácio Chilão
    Responder

    Que choradinho vai aqui ! A arquitectura moderna pode muito bem integrar a “gondola” no mesmo edifício do novo Montepio, se fôr esse o caso, de tamanha importãncia. Importantes e históricos edificios têm sido demolidos por esse país fora e nunca vi tanto clamor junto por causa de uma “tasca velha e decadente ” Também fui seu cliente nos anos 70 até 94, fui bem tratado, mas compreendo que na vida tudo tem um fim. Porém se os responsaveis quiserem a “La Gondola” poderá continuar com o mesmo traço e com interiores modernos.

  • Eleonora de Brito
    Responder

    Assinado e partilhado!!

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