O mundo escondido que (ainda) habita o Intendente numa exposição fotográfica

por • 11 Outubro, 2017 • Arroios, BAIRROS, Slideshow, VIDA NA CIDADEComentários (1)348

A Casa Independente inaugura hoje, quarta-feira (11 de Outubro), às 21h, a exposição final dos alunos que frequentaram o workshopNarrativas Fotográficas no Intendente“, orientado pela fotógrafa e curadora Pauliana Valente Pimentel. Nela, podemos observar quatro olhares distintos sobre um bairro em acelerada transformação.

 

São quatro exposições autónomas, quatro percursos por uma “Lisboa desconhecida, em rápida mudança”, como explica Pauliana a O Corvo, e que nos fazem ver com outros olhos as coletividades que ainda existem, os prédios devolutos em vias de reconstrução, as velhas e novas lojas que o caraterizam e as pessoas que o habitam.

 

Maria Leonor Rolo Duarte, psicóloga de profissão, apresenta-nos os resistentes que ainda se reúnem na Casa dos Amigos do Minho, a qual deverá fechar as portas no final do ano. “É um espaço incrível, que tem bailarico e onde pisavam a uva ao domingo. Ainda dá para ir lá jantar, mas vai deixar de existir este ano”, conta Pauliana. (ver http://ocorvo.pt/camara-de-lisboa-quer-ajudar-casa-dos-amigos-do-minho-a-nao-fechar-portas/)

 

João Farelo apresenta “Talweg – O caminho do vale“, uma deambulação pela zona onde “havia uma linha de água secundária, que passava neste enfiamento de Arroios ao Martim Moniz”. Segundo a curadora, esta é a mostra “mais artística”, que expõe um bairro quase intemporal, “um Intendente que tanto podia ser o dos anos 50 como o de agora”.

 

Em “Comfort Zone“, Virginia Or, de origem chinesa, produtora de cinema e habituada a fotografar para o Instagram, voltou a pegar numa câmara após muitos anos, para mostrar “as ruas, as lojinhas, uma planta morta…”, fazendo um cruzamento peculiar entre o passado e o presente do bairro.

 

Por fim, Tiago Figueiredo revela a intimidade dos habitantes que deram tão má fama a este bairro lisboeta. Em “Viene y Va”, conhecemos as prostitutas(os) toxicodependentes que, depois de desencadeado o processo de regeneração urbana em curso, parecem ter desaparecido, mas ainda habitam afinal muitos dos prédios à volta do largo.

 

 

“Ao longo dos seis workshops que já fiz, o Tiago foi o primeiro aluno que teve a coragem de abordar este tema”, diz Pauliana. O resultado é um retrato cru, mas sensual, um cruzamento entre a fotorreportagem e uma vertente mais artística, segundo o próprio autor, perante o qual é difícil ficar indiferente.

 

O Corvo falou com Tiago Figueiredo sobre a sua viagem a esta Lisboa escondida a olhos vistos.

 

A que se deve o título da exposição “Viene y Va”?

É o titulo de um poema de uma das prostitutas que fotografei. Ela é portuguesa, mas viveu 20 anos em Espanha, e tem um livro com alguns poemas da sua autoria, entre os quais esse.

 

Porquê fotografar estas mulheres e homens?

No decurso do workshop, cada aluno tinha de encontrar e escolher um tema no Intendente. Para mim, abordar a comunidade de toxicodependência e a prostituição começava por ser um desafio pessoal, pelas dificuldades de um outsider se propor entrar, conviver e fotografar uma franja marginalizada e estigmatizada da sociedade. O meu desconhecimento daquela realidade era grande e isso obrigava-me a um processo longo, de criação de laços, confiança e partilha.

 

Uma noite, no intervalo de estar a fotografar, encontrei uns conhecidos na Casa Independente. Tinham vindo ao Intendente assistir a um concerto. Já não me viam há uns anos e perguntaram o que estava a fazer agora. Comentei o trabalho com a toxicodependência e a prostituição no Intendente. Ficaram boquiabertos: “ainda existe?”. Esta incapacidade de ver uma realidade que, para mim, era flagrante fez-me perceber que o meu projeto podia ter outras motivações, as de escancarar aos olhos de quem frequenta o agora renovado Intendente uma realidade que preferem ignorar e que continua a existir mesmo à frente dos seus olhos. Daí a escolha das escadas na Casa Independente como local expositivo, com todas as leituras várias que podem ter umas escadas.

 

Como as abordaste? 

No primeiro dia, não consegui muito mais do que entrar num bar, meter conversa com o dono, perguntar pelo passado daquelas ruas, saber se ele teria fotografias antigas do lugar. No segundo dia, sentei-me no degrau de uma porta, na rua, ao lado de uma pessoa que estava a preparar um cachimbo artesanal de cocaína fumada e pedi-lhe para me explicar o que estava a fazer. Andei sempre com a câmara comigo. Apresentei-me sempre como fotógrafo, mesmo que pudesse até passar várias horas sem fazer qualquer fotografia. Vivi o Intendente a todas as horas do dia, entrei pela noite dentro. Não há grandes segredos na abordagem das pessoas. É preciso falar com elas, querer conhecê-las e passar tempo com elas.

 

Tiveste de lhes pagar?

Sim, paguei-lhes. Enquanto fotógrafo, acho tão interessante as pessoas fazerem esta pergunta, como as pessoas terem interesse em saber – porque é uma pergunta que só se faz neste caso. Outros trabalhos, na comunidade chinesa, nos bairros sociais, não levantam esta questão. É uma curiosidade voyeurista na prostituição e toda a gente vai por aí. Já fiz muitos trabalhos sem pagar. E era possível fazer isto sem pagar, mas levaria muito mais tempo e um nível de partilha diferente. Portanto, disse-lhes que queria fotografá-los nos quartos, sem ser como cliente. Eles aceitaram, mas teria de lhes pagar como um cliente normal.

 

E aqui levanta-se outra questão: se me perguntares se é fotojornalismo, acho que não é…Não gosto dessas fronteiras. E, hoje em dia, essas fronteiras esbatem-se. O trabalho do Mário Cruz [vencedor do World Press Photo 2016, com um trabalho sobre as crianças escravas do Senegal], já tem uma linguagem muito influenciada, mista.

 

Este é um universo particular que, apesar de convivermos com ele, desconhecemos profundamente. Muitas vezes, as pessoas surpreendem-nos e derrubam os preconceitos que tínhamos antes. Aconteceu-te isso neste caso?

Respondo com a sinopse que pedi ao Ricardo J. Rodrigues para a exposição: “É a memória de uma outra vida, ou é a vida que podia ter sido. Ninguém cai no abismo sem história. Então há a mulher que teve tudo, há o homem que podia ter sido, a miúda que sonhou com o triunfo. Este é o outro Intendente, o que escapou às fachadas renovadas, o das sombras que toda a gente adivinha e ninguém consegue olhar. Aqui vão ruínas do sonho, almas em queda, tomem lá os bichos. E é só depois de olhá-los de frente que se pode perceber a ‘bela inocência’ a que uma puta aspirou num poema. Eles são os outros? Eles somos nós”.

 

Quem são “eles”, então? Achaste-os pessoas alegres, tristes, vulneráveis, sensuais, esperançosas ou derrotadas pela sua circunstância?

Encontrei de tudo um pouco. Não faço ideia se as esperanças que ouvi são realistas, mas espero que sim. Quanto ao que as imagens passam, prefiro que cada um as observe e leia o que vê. Há dias em que um retrato me parece orgulhoso e destemido, e noutros, a mesma imagem me faz sentir ver uma pessoa no limite da sua resistência.

 

Podes contar o que te fica a ti, pessoalmente, desta experiência?

Foi o projeto mais difícil que tive até agora. Não é a comunidade onde passei a minha vida, sou claramente, e sempre, um elemento exterior. Fui aceite por muitas das pessoas, porque passei com eles muitas horas e muitos dias, ao longo de meses. Fumei muito, passivamente. Bebi demasiado, porque muitas vezes precisei do álcool para desligar o cérebro e desbloquear o fluxo criativo.

Correu várias vezes o rumor de que eu era um polícia infiltrado. Esse rumor dificultou-me o acesso nalgumas ocasiões, mas talvez me tenha garantido também uma aura de segurança e invulnerabilidade. Não consigo responder à última parte da pergunta. Terminei o projeto há demasiado pouco tempo para conseguir já afastar-me e refletir. Uma coisa fica: quando passo naquelas ruas, sento-me para beber uma cerveja com as pessoas que agora conheço, que agora me conhecem. Isso acontece-me sempre, em cada trabalho. O processo de trabalho termina, mas fica a cumplicidade com as pessoas.

 

Achas que prostituição e a droga deviam ser legalizadas?

 Estou longe de ser um especialista na matéria e este trabalho não me confere qualquer autoridade no assunto. Mas não posso deixar de frisar que todas as prostitutas que conheci me disseram que preferiram não o ser, se pudessem. Legalizar a escravatura poderia torná-la mais digna e segura? Quanto às drogas, tenho uma opinião formada há muitos anos, que não se alterou com este trabalho mas, tal como na prostituição, não sou especialista no assunto nem me tornei depois destes meses.

 

 

 

O teu trabalho está cheio de histórias de pessoas, de África a Ásia, do Brasil a Moçambique… Porquê pessoas e não tanto lugares?

Sinto um grande fascínio por pessoas. Somos todos tão semelhantes, mas tão diferentes. Gosto de descobrir a beleza escondida em cada pormenor, gosto de perceber as relações entre pequenos impulsos musculares que nos dão expressão e as motivações psicanalíticas que lhes estão por trás. Gosto de ler a linguagem não-verbal. Gosto de conhecer outros mundos e outras vidas que poderiam ter sido as minhas se as condições, o contexto e o meu lugar de nascimento fossem outros. Interessam-me também os lugares habitados ou anteriormente habitados, pelo que o homem fez deles. Talvez as paisagens não me interessem tanto ao nível fotográfico, a não ser para o trabalho com a UP (nr: revista da TAP).

 

Fotografas, fazes documentários, organizas workshops, estudaste música, informática, fizeste um doutoramento da Faculdade de Letras, és conferencista no ISCTE… A fotografia, onde encaixa nisto tudo?

Tive um percurso muito variado. Todas as áreas que abordei interessaram-me numa determinada fase da vida e, muitas vezes, isso obrigou-me a mudar completamente o rumo da vida. Há quem ache essa indefinição uma perda de tempo, mas eu sinto-me muito privilegiado por ter podido ter já tantas vidas diferentes.

 

Só uma correção: não sou doutorado. Fui doutorando. Felizmente, enganei-me a preencher a candidatura da FCT e fiquei, com isso, a um lugar do acesso à bolsa de doutoramento, o que me obrigou a investir todo o meu esforço no vídeo e na fotografia. Tive muita sorte nesse erro. Gostava do assunto – Geografia Humana –, mas implicava estudar algumas matérias que me interessavam menos a um nível de profundidade que iria tornar penoso o percurso.

 

É a tua atividade principal hoje em dia?

 Sim, a par do vídeo.

 

Onde aprendeste?

 Com a minha mãe, primeiro, com o meu pai, depois. Ambos têm história em artes plásticas, em pintura. E a minha mãe tinha uma câmara que eu usava. Aprendi a parte teórica com livros, mas foi tudo muto inconstante. Interrompi porque a câmara avariou-se e comecei a fazer outras coisas. Depois, comecei a trabalhar noutras coisas, até que voltei a pegar numa máquina digital a a fotografar.

 

Tens alguma colaboração fixa?

 Tive uma colaboração estreita e profícua com a Fundação Calouste Gulbenkian. Neste momento, tenho colaborado com a UP, a revista de bordo da TAP.

 

Quais são os teus próximos projetos?

 O livro de fotografia “Cães, Deuses e Outros Homens”, feito ao longo de três anos em Varanasi, na Índia, que será publicado pela 004, a convite honroso da Patrícia Reis. Será o nº2 de uma coleção que começou com “Felicidade”, do enorme [fotógrafo] Alfredo Cunha.

 

Texto: Margarita Cardoso de Meneses        Fotografias: Tiago Figueiredo

 

NR: a pedido do entrevistado, retificamos a frase: “Portanto, tive de lhes pagar como se fosse um cliente” para “Portanto, disse-lhes que queria fotografá-los nos quartos, sem ser como cliente. Eles aceitaram, mas teria de lhes pagar como um cliente normal”.

 

“Narrativas Fotográficas no Intendente”

De 11 de Outubro, a partir das 21h00, até ao final do ano

 

Casa Independente, Largo do Intendente

www.casaindependente.com

 

Horário: 3ª a 6ª 17h00 – 24h00 | Sáb 17h00 – 02h00

 

 

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One Response to O mundo escondido que (ainda) habita o Intendente numa exposição fotográfica

  1. sofia diz:

    passo muito frequentemente pelo intendente, e agora vejo em foto o edifício que está em obras. Sempre me tem aparecido como um lugar “mágico”, a luz do sol penetra através da parede numa conjuntura muito bonita. No outro dia estavam várias pessoas ali, a falar. Perguntei a uma, o que se passava – disseram-me que estavam a investigar se, haveria resquícios arqueológicos antes de construir. Achei fascinante como uma cidade é feita: todas as patrulhas que fazem parte da construção, para desvendar até à última, todo os segredos contidos num lugar,- para depois esse lugar ser re-habitado, por pessoas que lá vão guardar os seus “segredos” de vida. Agora constato que vai ser uma residência estudantil. …Se eu pudesse e fosse estudante, começava já a ver como um dia poder residir num sítio tão belo! e depois alguns detalhes interessantes: o largo de intendente limpo, espaçoso, e cheio de esplanadas, mesmo à frente. Estou desejosa de ver como tudo vai evoluir. Há muitos anos atrás tinha tido o desejo de fazer o que esses arqueólogos faziam no terreno, mas não sobre a construção “física”, mas associando cada edifício aos que o rodeavam…pode ser que alguém um dia faça isso. Acho super giro, como um bairro é muito mais a histórias das pessoas que lá passam, do que propriamente as paredes em si (mesmo a nível arqueológico). E pronto, fica aqui o meu testemunho, de alguém insignificante mas apaixonada pela sua cidade, (e país.)

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