Pombos de Lisboa deixam de ser considerados uma “praga” e passam a ser controlados em pombais contraceptivos

por • 26 Maio, 2017 • Actualidade, AMBIENTE, SlideshowComentários (17)872

Um pequeno passo para os humanos, um gigantesco passo para os pombos, denotando uma clara mudança civilizacional. A partir de agora, e de forma gradual, a Câmara Municipal de Lisboa deixará de tratar os pombos como uma praga, para passar a vê-los como animais iguais a cães e a gatos. “A prazo, iremos acabar com a prática do abate de pombos, reflectindo a mudança de política que estamos agora a iniciar”, garantiu Duarte Cordeiro, vice-presidente da autarquia, na tarde desta quinta-feira (25 de maio), no Parque Silva Porto, em Benfica, durante a inauguração do primeiro pombal contraceptivo da capital. A entrada em funcionamento deste projecto, tornado possível por ser um dos vencedores do Orçamento Participativo 2015-16, marca uma mudança de paradigma.

 

Até ao final do ano, a câmara quer criar mais sete unidades iguais à que inicia agora actividade na Mata de Benfica, desencadeando uma nova prática de controlo da população destas aves, assim evitando a captura e o abate. Nos pombais da futura rede municipal, com a colaboração das juntas de freguesia e o trabalho de grupos de voluntários, proceder-se-á à retirada dos novos ovos de pombos, ao fim de dois ou três dias, antes da formação do embrião, evitando-se assim a reprodução. “Este é, sem dúvida, o método mais eficaz, melhor que todos os outros que temos vindo a aplicar. O que nos leva a ter uma maior esperança de garantir uma convivência pacífica entre pombos e humanos”, disse Duarte Cordeiro, que destacou a grande importância dos voluntários, inscritos no banco de voluntariado da capital, para o eficaz funcionamento do processo.

 

 

Foi um grupo deles, aliás, quem lançou a ideia na origem do projecto vencedor do OP 2016 inaugurado nesta quinta-feira. Orçado em 20 mil euros, consiste num conjunto de cerca de quatro dezenas de casulos instalados num antigo pombal existente no coração do Parque Silva Porto. Atraídos, através de água e alimento, a esta estrutura agora reabilitada, os pombos tentarão ali proceder à nidificação, deixando os seus ovos. E é a partir desse momento que os voluntários – neste caso, são cinco – terão de retirar os ovos e no seu lugar colocar ovos de plástico (foto de abertura), tentando assim enganar as aves. Para que o processo seja eficaz, e os pombos não venham a recusar este poiso por se aperceberem que estão a ser enganados, haverá que deixar singrar uma ninhada por ano. Utilizando os novos pombais contraceptivos deixarão de fazer ninhos em telhados, parapeitos e monumentos. Os ganhos patrimoniais serão óbvios, diz a câmara.

 

Se tudo correr bem, deixarão de existir razões para que tanta gente nutra um ódio particular para com os pombos – havendo a ideia mais ou menos generalizado de que são o equivalente a “ratos com asas”. Há, contudo, quem não pense assim. “Os pombos também são animais sensientes, como os cães e os gatos. E este método que agora se põe em prática é o único método ético de controlo da população que conheço. Trata-se de uma alternativa à violência inaceitável a que os pombos têm sido sujeitos em Lisboa, através da captura com canhão de rede e abate”, disse a O Corvo Joana Antunes, uma das voluntárias deste pombal e autora da proposta vencedora do Orçamento Participativo 2016 que conduziu à criação da primeira infra-estrutura do género na cidade – que também garante tratamento veterinário às aves que o necessitem. “Esta solução foi testada com sucesso noutros países, como a Alemanha”, disse Inês Drummond (PS), presidente da Junta de Freguesia de Benfica.

 

 

Alguns minutos depois, a voluntária Joana Antunes, jurista de formação, não se deixou constranger pela solenidade da inauguração e não perdeu a oportunidade para denunciar o que considera ser “o massacre de pombos” perpetrado, até agora, pela autarquia. Prática que deverá terminar com a criação desta rede municipal de pombais contraceptivos. “Não é consentânea com os tempos actuais a forma como a Câmara Municipal de Lisboa trata os pombos. Temos de pôr fim às capturas com canhão de rede e abate. Será uma forma de Lisboa ficar na vanguarda do tratamento ético de todos os animais, não apenas de cães e gatos”, frisou. Ideia que recebeu a concordância de Duarte Cordeiro, tendo o vice-presidente da autarquia lembrado a “viragem” iniciada na forma como os animais são tratados, com a inauguração, há três anos, Monsanto, da Casa dos Animais de Lisboa. Também nesse caso, a abolição do abate de cães e gatos constituiu uma novidade.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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17 Responses to Pombos de Lisboa deixam de ser considerados uma “praga” e passam a ser controlados em pombais contraceptivos

  1. O. Dr Fernando Medina, sempre a surpreender_nos pela positiva.

    • Joaquina diz:

      A mim surpreendeu-me com o abate em massa dos pombos e agora, quem teve a ideia e lutou por ela foram pessoas voluntárias, mas a cegueira de polotica é tanta, que o medina já é um herói. ..irra…

      • nuno diz:

        Existe um grave problema com os pombos. Os prédios e respectivas varandas e automóveis e candeeiros ficam todos sujos das fezes destes animais

    • Ines B. diz:

      Isto é o resultado de uma luta cidadã muito sofrida. E espera-se que realmente se alargue a toda a cidade e que não seja só uma medida a pensar nas eleições que se aproximam.

  2. Helena Cunha diz:

    A seguir tem que se pensar nas gaivotas que estão a invadir as cidades por falta de comida junto ao mar. A lei que proíbe os barcos de pesca de atirarem ao mar os restos de pesca contribui para isto! Qual a poluição causada pelos restos de pesca ? Tantos mas tantos animais marinhos os aproveitam ! Problema mesmo é a poluição dos mares mas é por substâncias que não fazem parte dele . De outra forma qual seria a consequência de tantos animais que morrem no mar ? É preciso repensar , para o bem estar destas aves também.

    • Ines B. diz:

      Bem visto. Realmente as gaivotas estão cheias de fome e cada vez mais se adentram na cidade. Arranjam-se como podem, chegando a caçar pombos e andorinhas.

  3. Cristina Raposo diz:

    Acho uma otima ideia. Gostaria de deixar aqui um reparo. Há cada vez mais pombos com as patas aleijadas ou até sem elas, o que me fez pensar se não será por causa dos picos que põem nos monumentos e noutros sítios, para evitar que os pombos lá poisem. Não haverá solução para isso?

    • Diana diz:

      “Há cada vez mais pombos” é um eufemismo. Gostava de encontrar um pombo que não estivesse mutilado.

      Já agora, deixo o meu aplauso a esta iniciativa.

    • nuno diz:

      Temos de proteger o edificado da porcaria que os pombos deixam ou é o Medina que vai limpar ?

    • Ines B. diz:

      É por causa da poluição de pequenos fios e linhas no ar e até cabelos, que agarrando-se às suas patas as vão estrangulando.

  4. Florentino Marabuto diz:

    Quando li no portal da Camara que iam ser criados “pombais contracetivos” fiquei assustado e pensei: que raio serão “pombais contracetivos”? é que a componente “cetivos” não me fazia lembrar nada. teria a ver com cetas, com celtas, com…com quê?
    Agora percebo que se trata de mera questão de iliteracia da CML. Continue assim, dr Medina que não leva o meu voto nas proximas eleições!

  5. Cidadão n°8600 diz:

    Olha olha, pombinho na grelha é uma iguaria! E com omelete de ovo de pombo a acompanhar ainda se podia tornar prato típico!

  6. Ems diz:

    Já agora recomendo a todos os que apoiam os pombos que financiem a limpeza dos aljerozes dos telhados com pombos mortos e ninhos de pombos, os quais criam infiltrações nos edifícios, para ver os grandes prejuízos que os pombos fazem nos edifícios.

    • Ines B. diz:

      Ora essa. Para isso é que o senhor paga o seu condomínio e os cidadãos pagam impostos.

  7. Alzira diz:

    Apesar de tudo que os vai matando diariamente, não posso deixar de pensar nos esterminios pelos quais já TANTOS pereceram….
    O último que dei conta foi perto da entrada do jardim zoológico…..
    Foi pela calada da noite??????

  8. M. Ryon diz:

    Incrível: propus isto há 20 anos e nesta altura fui considerado um extra-terrestre. Até – para a cidade de Coimbra -fiz um plano de “combate” à proliferação dos pombos da cidade (sem crueldades, à base da contenção da procriação), mas aí também os políticos iluminados não estavam prontos. Porque em Portugal ideias novas por vezes necessitam de 20 anos – ou mais –
    para chegar aos centros de decisão?
    M.Ryon Veterinário